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Eu vou com as aves

No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras
Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração
Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...


Mas - tu sabes - a noite é enorme,
E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade

Hermanoteu na Terra de Godah I

Só esteve em exibição ontem e agora hoje, no Teatro Tivoli. Recomendo fortemente, pela autenticidade das actuações, pela capacidade de improviso, pelas gargalhadas, pelo sabor a Brasil. Excelente!
E não faltam as referências à realidade Portuguesa: Amadora e IC19, Herbalife, Martim Moniz, Cova da Moura, Bairro Alto, José Sócrates, José Castelo Branco, Marco Paulo, Portugália, Carcavelos, Mourinho, Feira da Ladra, Fado e Alfama, Odete Santos, Pavilhão Atlântico ou o Lux.

A lição toda estudada e um resultado brilhante.

Quando esse dia chegar não lhe fales.

"Um dia, o mais provável é tornares-te num chato, deixares de sair à noite e começares a levar-te demasiado a sério. Nesse dia vais começar a vestir cinzento&beje, pedir para baixar o volume da música e deixar a tua guitarra a apanhar pó. Vais tornar-te politicamente correcto, socialmente evoluído, economicamente consciente. Vais achar que tens de ir para onde toda a gente vai e assumir que tens de usar fato e gravata todos os dias. Nesse dia vais deixar de beijar em público, as tuas viagens serão mais vezes no sofá e dormirás menos ao relento. É oficial. Vais entrar na idade do chinelo e deixar de ser quem foste até então. Vais deixar de te sentar ao colo dos amigos e vais esquecer-te de como se faz um quantos-queres ou um barco de papel. Vais ficar nervosinho se não trocares de carro de quatro em quatro anos e desatinar se o hotel onde ficares não te der toalhas para o teu macio e hidratado rosto. Vais tornar-te muito crescido e começar a preocupar-te com tudo e com nada e a não fazer nada porque “vai-se andando” e a vida é mesmo assim. Vais dizer não mais vezes, vais ter mais medo, vais achar que não podes, que não deves, que tens vergonha. Vais ser mais triste. Nesse dia, o mais provável é que também deixes de beber refrigerantes. Aqui fica uma ideia: quando esse dia chegar, não lhe fales. Mantém-te Original."

Manifesto da Sumol

The naked truth


Revolutionary Road é um American Beauty sem os possíveis risos que surgem da intensidade do ridículo, atenuantes simulados para o desconforto de quem consegue olhar mais de perto e se engana dizendo que é só um filme.

Revolutionary Road não tem o riso, é aquilo que é e está lá para quem tiver a coragem de ver, sem misericórdia ou paninhos quentes. Uma história que não se consegue ignorar, núa e real.

Sam Mendes destapa o problema, exibe-o ao mundo e coloca o dedo na ferida até fazer doer.

(dá beijinho até que passe)

Mas gosto da noite e do riso de cinzas

deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto de enganos, da sorte e de encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade de outro corpo.

a dor de todas as ruas vazias

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias

os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia de tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias

Al Berto

A liberdade é uma maluca que sabe quanto vale um beijo



Tira a mão do queixo, não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Six Impossible Things*


"Sometimes I've believed as many as six impossible things before breakfast."

*o Tim Burton é um génio.

Consuela: mulheres invisíveis










"Não havia nada que ela pudesse não compreender: tinha apenas de estar ali, à vista, e a compreensão da sua importância brotava de mim. Não era exigido dela, do mesmo modo que não é exigido de um concerto de violino ou da Lua, que tivesse alguma espécie de concepção própria. Era para isso que eu servia: eu representava para Consuela a consciência de si mesma.
"


"Por muito que saibamos, por muito que pensemos, por muito que maquinemos, compactuemos e planeemos, não somos superiores ao sexo. É um jogo muito arriscado. Um homem não teria dois terços dos problemas que tem se não se aventurasse a ser fodido. É o sexo que traz a desordem às nossas vidas normalmente ordenadas."


"Sabemos que não fazemos a mínima ideia do que ela é, quanto é inteligente ou estúpida, quanto é superficial ou profunda, quanto é inocente ou astuciosa, quanto é sabida, sagaz ou, até quanto é perversa. Com uma mulher reservada e possuidora de tamanho poder sexual, não fazemos, nem nunca faremos, ideia alguma. A sua beleza obscurece o emaranhado do seu carácter."

Roth, Animal Moribundo

Regresso

"Porque no sexo não existe nenhum ponto de estase absoluta. Não há nem pode haver qualquer igualdade sexual, com certeza nenhuma em que as quotas-partes sejam iguais, o cociente masculino e o cociente feminino estejam em perfeito equilíbrio. Não há maneira alguma de lidar mensuravelmente com esta coisa selvagem. Não é meio-por-meio como numa transacção comercial. É do caos do eros que estamos a falar, da desestabilização radical que é a sua excitação. Com o sexo regressamos à selva. Regressamos ao pântano. É predomínio comercial, desequilíbrio perpétuo. Vamos excluir o predomínio? Vamos excluir a cedência? O predomínio é a pederneira, produz a centelha, desencadeia a chama. E depois? Escutem. Verão. Verão a que conduz o predomínio. Verão a que conduz a cedência."

Animal Moribundo, Philip Roth




É Natal! Como nos filmes!



Aeroporto de Lisboa, ontem, 23/12

Nósoutrxs




"É como se o mundo estivesse a minha espera.
E eu vou ao encontro do que me espera."
(Clarice Lispector)




(descoberto no Debaixo do Pessegueiro,
a que eu continuo a preferir chamar Under the Peachtree,
ou, simplemente, minha querida AM)

Não digas onde acaba o dia

Cânticos*

I

Não queiras ter pátria.
Não dividas a Terra.
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
Que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
Estarás em tudo,
Como Deus.

II

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens ...
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade ...
É a eternidade.
És tu.

III

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde é Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso.
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

Cecília Meireles
(via A Trama, delicadamente)