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Bonito serviço.

Quando o grande amor da nossa vida e o grande falhanço dela foram ou são ainda experiências coincidentes, indestrinçáveis – uma mesma e única coisa: bonito serviço – o menos que pode dizer-se é que da hecatombe, entre mortos e feridos só nós é que não havemos de escapar.

Rui Caeiro, in Livro de afectos

Os sentimentos atrasam.

O amor não te mobiliza por aí além. Quando ele chega é porque é o tempo do amor. Limitas-te a berrar até que passe.

Rui Caeiro, in Gatos e Homens

Isto não é Bergman, é apenas a vida.

“Estas coisas perdem-se. Primeiro a disponibilidade para a paixão, depois a própria capacidade de alguém se vir noutro alguém.”

(Manuel de Freitas, Os Infernos Artificiais)

Parasitas ou Em tudo havia beleza.

"For people of different circumstances to live together in the same space is not easy. It is increasingly the case in this sad world that humane relationships based on co-existence or symbiosis cannot hold, and one group is pushed into a parasitic relationship with another. In the midst of such a world, who can point their finger at a struggling family, locked in a fight for survival, and call them parasites? It's not that they were parasites from the start. They are our neighbors, friends and colleagues, who have merely been pushed to the edge of a precipice. As a depiction of ordinary people who fall into an unavoidable commotion, this film is: a comedy without clowns, a tragedy without villains, all leading to a violent tangle and a headlong plunge down the stairs. You are all invited to this unstoppably fierce tragicomedy."

Joon-ho Bong

Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro.

(...) Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, hã? Sempre a merda do futuro, e eu que me quilhe, pois pá, sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu hã? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero que se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrillo e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, desópila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? 

José Mário Branco, FMI

e mais depressa volto à tua descrição, és o meu dentro.

eras daquelas raras pessoas que não podem ser imaginadas, e isso é um excesso, a camisa de um algodão marinho, as calças de bombazina malva que adquiriam outra cor e outra geografia quando por elas passavas as mãos, tudo podia ser descrito, tudo em ti era uma interminável descrição, cada zona do corpo, cada sorriso, desenvolviam-se lentos como o acto de os dizer, na verdade isto tornava-te alucinante, sempre admiti passar a minha vida na tarefa minuciosa de explorar os teus pormenores, todas as tardes neste café, por parede um vidro com insectos nele pousados e variáveis com as estações, ampliar-te, ampliar-te nesta reconstrução, até completamente te perder

Rui Nunes, Osculatriz 

 (no fundo, pouco faço mais do que isso. documento a tua biografia. meu dentro.)

não sabias que há paragens que não são mais que despedidas.

sou o lugar que os teus pormenores percorrem indiferentes e sofro quando os dedos param no interior da hesitação, vivo na ruptura dos teus gestos

conseguirei alguma vez salvar-te da exclusão e restitui-te à doçura do enigma?

Deus só responde à morte alucinante, porém nós morremos da violação dos pequenos contratos e sabemos que o olhar de Deus não tem desvio

Rui Nunes, Osculatriz 

(pequeníssimo contrato)

Portugal, cambada de indignados.

É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado e não passa disto. Somos uma comunidade pacífica de revoltados. 

Miguel Torga

Eu a tentar escrever um paper de 15 páginas em 5 dias.

A única atitude digna de um homem superior é o persistir tenaz de uma actividade que se reconhece inútil, o hábito de uma disciplina que se sabe estéril, e o uso fixo de normas de pensamento filosófico e metafísico cuja importância se sente ser nula.

Fernando Pessoa

As palavras não são talismãs.

- diz-me o teu nome
Implora o rapaz do outro lado do muro
- se eu to disser, talvez me queiras ver, uma e outra vez, para mo dizeres, junto ao ouvido, num fingimento, porque ninguém diz o nome da pessoa amada, diz sempre: amo-te, sem mais, amo-te é tudo o que há para dizer quando se ama, o nome é uma espécie de amor ausente, doente, por isso perguntamos: Pedro, amas-me? se não temos a certeza do amor de Pedro, ou: Pedro, porque me abandonaste? se nos julgamos traídos, mas quando vemos aquele que amamos, dizemos unicamente: és tu?, tu, para ouvirmos como um eco da nossa voz: tu, és tu, 

Rui Nunes, A Boca na Cinza

Once upon a time in Russia.

“(…) During the final days of Russian communism, the Soviet system had been so successful at propagandizing itself, at restricting the consideration of possible alternatives, that no one within Russian society, be they politicians or journalists, academics or citizens, could conceive of anything but the status quo until it was far too late to avoid the collapse of the old order. The system was unsustainable; this was obvious to anyone waiting in line for bread or gasoline, to anyone fighting in Afghanistan or working in the halls of the Kremlin. But in official, public life, such thoughts went unexpressed. The end of the Soviet Union was, among Russians, both unsurprising and unforeseen. Yurchak coined the term “hypernormalization” to describe this process—an entropic acceptance and false belief in a clearly broken polity and the myths that undergird it. 

(…) We live in a world where the powerful deceive us. We know they lie, they know we know they lie, they don’t care. We say we care, but we do nothing. And nothing ever changes. It’s normal. Welcome to the post-truth world.” 

Brandon Harris, The New Yorker

Não estou com vontade de falar.

Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade ou liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa. 

“Liberdade”, in Todas as Crónicas, de Clarice Lispector

(não minto quando digo que nunca conheci ninguém tão livre quanto tu)

If you’re happy and you know it, overthink. Give your brain a chance to blow it. If you’re happy and you know it, overthink.

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.

Uma Revolta
in Todas as Crónicas, de Clarice Lispector

She likes tough love.

- Você já sofreu muito por amor?
- Estou disposto a sofrer mais.

Entrevista-relâmpago com Pablo Neruda (final)
in Todas as Crónicas, de Clarice Lispector

Só o faço com pessoas que têm mais conhecimentos.

É cada vez mais consensual a ideia de que, se queremos fazer alguma coisa em literatura, temos de a fazer contra a literatura, porque se não estamos a repetir ou a papaguear o que já foi feito. Não vale a pena ser um daqueles, como é que se chamam... os prémios saramagos, talvez com uma excepção única, são tipos que sabem escrever, escrevem correctamente, mas o que eles escrevem não adianta a ponta de um corno, porque aquilo já está feito, já está feito de outra maneira e já está feito de melhor maneira, não vale a pena ir por aí. Noutro dia estava aqui uma moça neste café a quem eu perguntei quem é que ela gostava de ler e ela respondeu Pedro Chagas Freitas. Ela gostava sinceramente dele, não deu para dizer “isso não interessa nada”. Não fiz isso. Só o faço com pessoas que têm mais conhecimentos. Ela precisava de ler muito até perceber que aquilo não interessa nada. 

Rui Caeiro, em entrevista a Jogos Florais

(tu, dizendo que os livros, as canções, os filmes, o mundo, tudo está batido, tudo fraquinho. Hoje morreu o Rui Caeiro.)

Um pénis não se chupa ou Por vezes estou cansado de abrir um livro e de encontrar o paraíso.

Ver escritas as palavras. Lê-las. Essas que foram para ser ditas. Num sussurro. Que foram para quase não ser. Que rastejam por baixo de outras. Escondemos-las, calamo-las. Só de vez em quando reaparecem em qualquer corpo, palavras inocentes de serem tão escondidas, não argumentam nem respondem, mostram a intimidade de cada parte de um homem, as partes: como lhes chamava meu avô, são palavras indubitáveis, sem enigma, não se pergunta: o que é? diz-se o que é. São palavras que dão ao corpo o seu peso, a sua vida simples, que dão ao corpo outro corpo, digo: caralho, e é como se me mostrasse, tem o efeito de um gesto, agarro no cabelo daquele gajo, aproximo-lhe a cabeça do caralho, e digo: chupa, e ele chupa, e diz-me: gosto do teu caralho, depois vestimo-nos, o corpo desaparece e nós esquecemo-nos, cada um vai à sua vida. Se lhe dissesse: chupa-me o pénis, começaria a rir, um pénis não se chupa, disseca-se, analisa-se no teatro anatómico, pénis já é uma doença. Há palavras que não precisam de ser lembradas, cuja presença se chama silêncio, têm a vida pujante da omissão, de vez em quando olhamos o outro e pensamos: não estás a dizê-la, e ele sabe. 

in Suite e Furia, Rui Nunes

(diz-me, diz-me com nomes)

Mãe, nome total.

“Nascemos na década de 80. Somos a geração que comeu Cerelac, Nestum com mel e papas de farinha Maizena. Somos a geração que levava cem escudos para a escola primária e comprava um Bollycao no intervalo da manhã. Metíamos manteiga nas bolachas Maria e Nesquick no leite. As nossas festas de anos tinham sandes de fiambre e queijo mas também tinham salame e tortas Dancake. A nossa geração bebia Coca-Cola quando tinha diarreia mas antes as nossas mães "tiravam-lhe o gás". Comíamos batatas fritas da Matutano e fazíamos colecção de pega-monstros e tazos. 

Apesar disto somos também uma geração que aprendeu a comer sopa a todas as refeições e peixe cozido quando as nossas mães assim o entendiam. Não havia comida especial para nós e quando perguntávamos o que era o almoço recebíamos como resposta um "casquinhas de tremoço". Comíamos fruta como sobremesa porque nem nos passava pela cabeça não o fazer. Somos a geração que brincava na rua até à hora de jantar e, no Verão, ainda podíamos brincar depois dessa hora. Andávamos de bicicleta e íamos a pé para a escola, sozinhos ou com amigos. Até para mudar de canal na televisão tínhamos que nos levantar. Somos a geração que ligava para os discos pedidos, a geração que não dissocia a Ana Malhoa do Buereré, a geração que comprava cassetes dos Onda Choc nos expositores dos cafés. Fomos as princesas da Disney e os Power Rangers. Ainda somos do tempo em que os carros não tinham cinto de segurança nos bancos traseiros nem ar condicionado. Jogámos Tetris e tivémos Walkmans e Mega Drives. Tomámos comprimidos de flúor e bebemos óleo de fígado de bacalhau.

A nossa geração comeu açúcar que se fartou, viu desenhos animados cheios de lutas e outros em que as meninas eram princesas à espera do príncipe encantado. E nenhum mal veio daí. Porque a nossa geração fez tudo com conta, peso e medida. A nossa geração teve mães que faziam o que podiam da melhor forma que sabiam, que seguiam o coração e não viam um papão em cada esquina. As nossas mães eram as mães que nos deixavam lamber a massa crua dos bolos mas que diziam que comer o bolo quente nos dava a volta à barriga. Podiam ser incoerentes, é certo, mas tinham filhos felizes. E nós tivemos mães imperfeitas mas que, na sua imperfeição, souberam dosear tudo e encontraram o equilíbrio. Saibamos nós ser hoje tão imperfeitas como elas foram um dia. Os nossos filhos ficarão gratos. Tal como nós somos gratos. Que maravilhosas foram as mães dos filhos de 80.” 

Uma Mãe Imperfeita
(coisas para memória futura)

Existes tão fundo em mim.

E porque é que só sei gostar, perguntou-se examinando as bolhas de gás pegadas à parede de vidro, porque é que só sei dizer que gosto através dos rodriguinhos de perífrases e metáforas e imagens, da preocupação de alindar, de pôr franjas de croché nos sentimentos, de verter a exaltação e a angústia na cadência pindérica do fado menor, alma a gingar, piegas, à Correia de Oliveira de samarra, se tudo isto é limpo, claro, directo, sem precisão de bonitezas, enxuto como um Giacometi numa sala vazia e tão simplesmente eloquente como ele: depor palavras aos pés de uma escultura equivale às flores inúteis que se entregam aos mortos ou à dança da chuva em torno de um poço cheio: chiça para mim e para o romantismo meloso que me corre nas veias, minha eterna dificuldade em proferir palavras secas e exactas como pedras.

António Lobo Antunes, Memória de Elefante

Se puderes, torna-te simples, exacta como uma pedra.

Escreve como se não escrevesses.

Isto: “Enquanto o não fizer posso sempre acreditar que se o fizer o faço bem. (...) Mas se começar um livro a sério e parir merda que desculpa me fica?”

António Lobo Antunes, Memória de Elefante

Como uma onda para a praia na tua direcção vai o meu corpo.

Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio.

António Lobo Antunes, memória de elefante 

(surpreendeste-te quando disse que não conseguiria estar com alguém que não falasse Português, mas como é que eu poderia mostrar isto e isto fazer sentido, incendiar tudo?)