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Uma coisa dentro de outra coisa, não sei se me estou a conseguir fazer entender.

Ralhas-me por ter as calças amarrotadas e por pôr demasiada manteiga no pão. Ralhas-me por conduzir depressa e por conduzir devagar ou por já estar dentro da rotunda e ainda estar a travar. Ralhas-me por não te enviar fotografias do almoço e ralhas-me por ter passado a tarde a ler em vez de estar a trabalhar. Ralhas-me por ir sem casaco, por entrar no restaurante de óculos na cabeça, como se fosse uma esplanada, e ralhas-me por ir de saco de pano azul, como se fosse às compras, ou por levar os meus poucos pertences nas mãos, como os homens. Ralhas-me por não estar com a cabeça à sombra e ralhas-me por comer coisas que me fazem mal. Ralhas-me por falhar a saída e por ter o rádio demasiado alto. Ralhas-me por levar ainda o biquíni vestido e por não encher a colher, comer em bicadas de passarinho. Ou ralhas-me por não estar sentada direita à mesa, esta fraca postura. Ralhas-me por tudo e por nada. E eu adoro, convencendo-me de que, enquanto ralhares, ainda te preocupas.

Agora sei o nome da tua geografia.


Mangia bene caca forte e non aver paura della morte.

Não descuremos a importância do tempo, do respirar, do tempo para respirar.

La vida es una tombola.

Let’s be scared together.

Three words better than “I love you”: it is gone.

The books are all out of the shelf now.



Driving hundred miles just to find you well.

Esa sensación de no haber perdido tu tren.

Gosto muito do verbo “acostar”, em Espanhol. Numa tradução literal, não encanta por aí além. Se não me falha o entendimento da língua, que não tenho desta doutrina mais confiável do que aquela que lhe inflijo ao ousar as séries sem legendas, tem o mesmo sentido do Português “ir para a cama”, seja de deitar-se para dormir ou de deitar-se com alguém, um eufemismo dos mais virgens. Contudo, como é poeticamente belo acostar-se em alguém. E também dolorosamente verdadeiro, pois nunca chegamos a ocupar ou a conhecer o território desse outro por inteiro. Com sorte, porém, encostamos a um corpo, encontramos amparo, damos à costa.

Aproveitei-me da tua inesperada boa disposição para te examinar o rosto e assim permaneci por um bom par de segundos, apenas sorrindo para o ecrã ao ver o teu sorriso torto, de quem cede e ao mesmo tempo de quem desafia. Reclamas mas gostas. Enche-me de alegria continuar a encontrar as covinhas no seu lugar, sobretudo quando mais provocadas de intempéries. Se me visses neste instante em que escrevo, repararias que nem agora consigo evitar o sorriso na lembrança do teu. “A comida é boa, o coração é simples.” Poder olhar-te nestes momentos incertos, mistérios que o universo lança a contornar a desordem de existirmos, é-me uma dessas sensações de alívio e de paz. Aquela ainda és tu. E eu ainda sou quem quer acostar em ti.

Não estou com vontade de falar.

Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade ou liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa. 

“Liberdade”, in Todas as Crónicas, de Clarice Lispector

(não minto quando digo que nunca conheci ninguém tão livre quanto tu)

I just wanted you to know that baby, you're the best.


Como quem pede um desejo.

Se acontecer que a poesia algum dia volte a mim, haverá de ser "Poplítea".

Me haces la cama, me haces el desayuno, me haces feliz.

Não sei voltar aqui sem voltar a ti. É demasiado previsível, bem sei. Chama-lhe o meu romantismo, a minha habitual nostalgia das terças-feiras ou, se preferires, neste momento, a minha preocupação, sei lá. Talvez tudo misturado, como só faz sentido que sejam estas coisas. Esta cidade é para mim como os ponteiros do relógio de Saramago a pararem quando conheceu Pilar e, se me conheces, nem precisas de conhecer esta história. Já sabes que significa tudo. Esta é a nossa. Naqueles questionários parvos sobre loucuras, penso sempre nesta. Chegar às sete da noite, partir às sete da manhã, quase ter perdido o avião, querer muito perdê-lo. Não me lembro de ter dormido, embora acredite nessa possibilidade. Afinal, o amor cansa. Recordo o nervosismo, a vontade, os teus olhos límpidos, o sorriso de dorme-bem-boa-noite-beijo. Lembras-te do braço-de-ferro? A nossa inocência comove-me tanto como a felicidade daquela noite primeira e preocupa-me não ter a certeza, a esta distância, de onde está a tua t-shirt. Foi aqui que aprendi a anatomia dos sentimentos, a palpitação omnisciente da poplítea. Foi também aqui que aprendi, contigo, o lugar exacto do coração.

(cuida de ti, por favor. é que de repente apercebi-me que preciso mais de ti do que julgava e ainda temos o Yeatman para experimentar, amor)

If you’re happy and you know it, overthink. Give your brain a chance to blow it. If you’re happy and you know it, overthink.

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.

Uma Revolta
in Todas as Crónicas, de Clarice Lispector

She likes tough love.

- Você já sofreu muito por amor?
- Estou disposto a sofrer mais.

Entrevista-relâmpago com Pablo Neruda (final)
in Todas as Crónicas, de Clarice Lispector

Eu vou chamar Iansã e Ogum e Oxalá.



E na doce cadência do samba.

A minha mulher não é minha, é da cabeça dela, mesmo achando que sim, não precisa de mim, isso é o que me agrada nela.

Não tomas responsabilidade na minha obsessão e é justo que assim seja. Não pactuas com expectativas e obrigações, nunca foste dessas pessoas gerais. Seria pois quase previsível, se é que algo em ti o possa ser, que duvidasses do tão convincente “tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas.” Criei eu este exagero, pois que o gira eu. Contudo, não deixo de pensar se é possível à parte separar-se do todo, se pode o sujeito ser estrangeiro ao sentido de uma existência que o próprio determina. Sangue, carne, nervos, o coração bate e sente, bate e sente. O que sentes nisto que lês?

Assumo o hábito desta solidão. Vou precisando menos de ti e talvez reconheças o mesmo. É tão fácil o silêncio, tão arriscada uma palavra. E não há abismo mais traiçoeiro do que aquele das pessoas que se querem completar e que se precisam. A tua independência atrai-me como nos atrai aquela dos gatos. No meio do complicado das coisas, procuro apenas o simples, é importante que o saibas. Bastava-me tão bem o simples. Conta-me do trivial. Não sei se aguentaria agora a excitação do que se prolonga pela madrugada e o seu universo de perversas possibilidades embora a lembrança seja sempre doce, fico já feliz com as conversas cansadas. De como te correm as refeições e de como te esmeras no ginásio, ou de como te enervam os preconceitos e as injustiças. Não me tragas assuntos profundos, há cada vez menos mistério. Mas é primavera, a tua estação preferida, e quero saber de ti.

Everything is broken up and dances.

Se me distraio, ainda te chamo amor. É preciso estar atenta para não tropeçar sobre essa palavra. Foi uma dessas coisas que ficou – como o jeito com que mexes no cabelo, por exemplo – e das quais não me consegui desembaraçar, pese embora o tempo que pesa. Quando te perguntei e me retornaste um único e plausível “não”, foi essa a palavra que te respondi, mas já não a ouviste. Amor. Como quem entende e é impotente. Como quem quer fazer algo e não sabe o quê. Amor. Como quem consente o silêncio, a tristeza, mas não te larga a mão. Ser inútil mas atento, longe mas presente. Amor, como quem guarda e protege. Seja o que for, amor.

Como se fosse simples isso de amar, como se o peito soubesse desse adorno.

O corpo existe para o toque. O incêndio da minha mão sobre a tua pele. O gosto da tua língua na minha boca. Os meus pés sobre os teus pés quando todos os muros estão já derrubados. O peito onde bate o coração, mas já não o meu. Ele tem razão, foder ainda é a ternura possível.

Hei-de estar contigo, com teus nós.

Afasta-te da vertigem. Não te detenhas na rebentação. É certo que existem parênteses absurdos, histórias que nunca serão contadas. Sobretudo as horríveis reticências, espelho do inacabado e o risco concreto de nos afirmarmos gente. Uma tentativa breve de nitidez. O silêncio é uma pedra que me pesa. O que não conheço, não sei, não imagino, é uma noite que me esmaga. O tempo, impassível e inclemente, continua a moldar o roteiro da saudade. Os dias haverão de passar por nós e erodir as ilusões, desgastar o que sobrava. “Ter sido. E não poder esquecer”. Terás ouvido aquela pergunta? Talvez a resposta só pudesse ser tocada, nunca sabida. Só o aberto do teu peito poderia isto agora esclarecer. Prescindo do sopro e ternura para te encontrar à superfície, venha o que daí vier. Manda-me à merda. Esmurra-me a paciência, o respeito, o previsível OK. Confia em mim. Não tenho medo de tocar o teu medo.

Eu sei que você gosta.


Por favor, anda estragar-me os planos.

Queimar tudo. Alugar uma casa num lugar sem história
na história da minha vida, um lugar de postais antigos,
desbotados, e do passado guardar apenas uma urna
de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças.
Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas
cómicas e inêxitos impopulares e anacrónicos. Tentar,
sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe
miúdo e roupas com defeitos às ciganas. Ser anónimo
por fora e por dentro, criança que não se conhece
nem quer conhecer e que procura apenas o início e o fim
de um carreiro de formigas, revelação suficiente
para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar
os gloriosos fundos de um oceano de merda. Beber
pouco. Foder com a moderação que a improbabilidade
do diálogo impõe. Emular os pioneiros americanos,
pecadores em busca de recomeço e horizonte, longe
das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes
e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor. 

In Desvão, Miguel Martins