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Tão frágil.

Diziam que o sábado era o dia mais desinteressante para dançar. E que o missionário era a posição mais desinteressante para foder. É o que dá queixarem-se de barriga cheia.

L., Lux Frágil

Leio com mais interesse os diários do Lux do que boa merda que anda para aí.

Comboio noturno para Lisboa.

É poético que existam centenas no mundo apaixonados por um livro que não existe.

Quando chegar ao limite, avance.

Perguntam-se de que forma ganha a vida. E talvez seja esse o pressuposto maior de todos: o de que podemos ganhá-la. Termos de ganhá-la.

E fui a nuvem a buscar a altura.

Descubro que, antigamente, as margaridas chamavam-se despedidas. As pessoas iam então aos cemitérios deixar as suas despedidas.

Como quem desce uma escada íngreme, ciente de que pode cair.

Chamavam aos loucos “alienados”. Cada qual com a sua “parafrenia”, significante de pensamento ao lado.

Os olhos: grandes, espantados de serem tão grandes.

Li “Gatos e Homens”, de Rui Caeiro, e tive de voltar atrás para confirmar o título, tão convencida de que o que escrevera era sobre ti.

Then I met Linda and the sun rose.

A acabar de ler “A Man in Love” de Karl Ove Knausgaard, eis que reconheço o apelido na lista de participantes no London Literature Festival. Não ele, mas ela, Linda. A mesma Linda do livro, aquele que lhe mudou a vida, por quem nunca sentira nada igual, com que teve filhos e discussões. Pelo sim, pelo não, vou confirmar se é a mesma antes de comprar o bilhete. E ali confirmo que a realidade chega sempre primeiro. A Linda que o fez homem enamorado, divorciou-se dele em 2016. Cheguei tarde.

Dos dias que mudam os outros dias.

Agora se há outros sentimentos, como esse de devoção ou gratidão...Talvez. Tenho muitas razões para pensar, por exemplo, que o grande acontecimento da minha vida foi exactamente esse. Foi tê-la conhecido. A ela. (...) Imagine que eu não a tinha conhecido. Você poderia dizer: 'Ah, mas teria conhecido outras mulheres'. Com certeza. Mas enfim, mas não é disso que se trata. Não é uma questão quantitativa. É simplesmente o facto de a ter conhecido a ela. Nada mais. E assumo que isso mudou a minha vida completamente.

Saramago, sobre Pilar

(da tua pergunta)

Apesar de, por causa disso.

(...)
Alguma coisa há-de acontecer ou não no espaço
Enquanto eventualmente andares por lá
A habitá-lo ou iludi-lo
E hás-de falhar a vida ou talhá-la, trazê-la
Ou não no bolso como um retrato limpo
Pronto a mostrar ao melhor ou ao pior dos viandantes
Como quem mostra ou esconde um perigo

Portanto ouve ou não ouve, convocado
Pela canção ou pela mudez do cosmos
Não és tão bom nem tão mau que por causa disso
Alguém ou alguma coisa interrompa o seu curso ou se mova

Alguma coisa há-de acontecer ou não em ti
Repara
E a vida que é tua não é tua
Se não aprenderes a vivê-la ou a desaprenderes toda
Apesar de, por causa disso

In “Repara”, Com a Língua nos Dentes, Miguel Filipe Mochila

Não há lugar para o não-lugar.

Perguntas: O que significa “refugiado”?
Dir-te-ão: É aquele que é arrancado da sua pátria.
Perguntas: O que significa “pátria”?
Dir-te-ão: A casa, a amoreira, o galinheiro, a colmeia, o cheiro do pão e o primeiro céu.
Perguntas: Numa palavra tão pequena cabe tudo isso mas não cabemos nós?

In Na Presença da Ausência, Mahmoud Darwich

Não estou com vontade de falar.

Com uma amiga chegamos a um tal ponto de simplicidade ou liberdade que às vezes eu telefono e ela responde: não estou com vontade de falar. Então digo até logo e vou fazer outra coisa. 

“Liberdade”, in Todas as Crónicas, de Clarice Lispector

(não minto quando digo que nunca conheci ninguém tão livre quanto tu)

Havia mortos de câncer, mortos de bomba atómica, mortos de amor, de fome, de ódio, de miséria. E nenhum morrera porque um dia estivera vivo.

Fala do engenho dos homens que, não sabendo lidar com o peso medonho da eternidade, se enganam dividindo o tempo em estações, em anos, em meses, dias, horas. Já diz o busyness que não se pode gerir o que não se pode medir.

If you’re happy and you know it, overthink. Give your brain a chance to blow it. If you’re happy and you know it, overthink.

Quando o amor é grande demais torna-se inútil: já não é mais aplicável, e nem a pessoa amada tem a capacidade de receber tanto. Fico perplexa como uma criança ao notar que mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa.

Uma Revolta
in Todas as Crónicas, de Clarice Lispector

She likes tough love.

- Você já sofreu muito por amor?
- Estou disposto a sofrer mais.

Entrevista-relâmpago com Pablo Neruda (final)
in Todas as Crónicas, de Clarice Lispector

A Pilar, como se dissesse água.

Como é que um homem consegue, no espaço de três anos, ir ao começo e ao fim do mundo, escrever três livros, morrer e ressuscitar? (in Por Saramago)

A Pilar, aquela que lhe agarrou pelos colarinhos e não o deixou morrer. É uma história bonita: ela diz que soube que a vida ia mudar no dia em que o conheceu. No dia seguinte, ele ligou-lhe a pedir a sua morada em Espanha. Sem nenhuma justificação, sem nenhuma promessa. Nesse dia, ela livrou-se do meio-namorado. Queria estar livre, desimpedida, pronta. Depois, esperou. Ele apareceu para ficar passado um par de meses.

Outros têm habilidade, alguns talento, mas Saramago tem a Pilar.

Só o faço com pessoas que têm mais conhecimentos.

É cada vez mais consensual a ideia de que, se queremos fazer alguma coisa em literatura, temos de a fazer contra a literatura, porque se não estamos a repetir ou a papaguear o que já foi feito. Não vale a pena ser um daqueles, como é que se chamam... os prémios saramagos, talvez com uma excepção única, são tipos que sabem escrever, escrevem correctamente, mas o que eles escrevem não adianta a ponta de um corno, porque aquilo já está feito, já está feito de outra maneira e já está feito de melhor maneira, não vale a pena ir por aí. Noutro dia estava aqui uma moça neste café a quem eu perguntei quem é que ela gostava de ler e ela respondeu Pedro Chagas Freitas. Ela gostava sinceramente dele, não deu para dizer “isso não interessa nada”. Não fiz isso. Só o faço com pessoas que têm mais conhecimentos. Ela precisava de ler muito até perceber que aquilo não interessa nada. 

Rui Caeiro, em entrevista a Jogos Florais

(tu, dizendo que os livros, as canções, os filmes, o mundo, tudo está batido, tudo fraquinho. Hoje morreu o Rui Caeiro.)

Evil is the absence of empathy.

Num instante, abandonam os ideais nacionalistas que os conduziram até ali. Quando estão com fome, não reclamam da origem da comida. Quando jogam futebol, misturam-se uns com os outros. Até mesmo a língua perdeu as suas variantes, não reclamam já o esoterismo de uma identidade única e intransmissível, passou a ser “a nossa língua”, a língua deles. No pátio da prisão não há nacionalistas. A solidão não tem nacionalidade.

Why did we let it happen?

Viviam em paz, respeitavam-se, e vieram eles, nacionalistas, a incitar ao ódio e à guerra. Por causa deles, milhares morreram. Agora foram eles, nacionalistas, presos e, na prisão, são todos amiguinhos. Pedem aos outros, os que não estão presos senão na dor de terem perdido mães, pais, filhos e filhas, irmãos, vizinhos e amigos, que olhem para eles, todos amiguinhos, já não nacionalistas, e lhes tomem o exemplo. Não conseguem ver a ironia da situação. De repente, a guerra perdera o seu inventado propósito, não tinha servido para nada. De repente, vamos todos afinal viver em paz porque até se está bem assim. Aquela guerra, de repente uma anedota.

De Ratko Mladić a Pedro Dias.

Não estavam desiludidos com a monstruosidade das suas acções mas com o facto de se ter deixado apanhar. Para o bem ou para o mal, haveremos sempre de preferir os fortes.