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Noites Brancas ou Descem por ela as mãos da noite


Não tem o This is not simply a metaphor, como gostaria, mas tem tanto e é tão bom. Julião.

Na verdade estamos aqui fodidas porque também somos umas putas (já temos sorte de ninguém mais o saber).

Registe-se por aqui que valter hugo mãe tornou-se, a cada leitura, o meu autor preferido depois de Saramago. Há uma sensibilidade tão natural nos seus livros, sem contudo ceder a pieguices fáceis ou metáforas pretensiosas, que o confirmo sempre nas primeiras páginas. Além do mais, são poucas as pessoas que metem assim a descoberto os diferentes lados do vocábulo, sobretudo para o sexo, sem ordinárias descrições que chegam a ser ridículas de tão artificiais e sem o estorvo do pudor pois, como me ensinaste, não existem palavras feias ou más. Que alguém entitule poemas como "coisinhas preciosas para meter no cu" ou escreva "fazia-lhes sexo oral como quem estivesse com sede e não houvesse água no mundo" é por isso merecedor não apenas da minha atenção mas também da minha mais sincera admiração. Parece que sou uma fácil.

Maux et mots: Santa Bárbara de Nexe

É preciso falar por falar.
Nunca fales para dizeres qualquer coisa.
Evita a sinceridade,  foge dela, ninguém te escutaria.
As palavras, as palavras verdadeiras são mudas.
Escreve com vento, escreve, escreve depressa.
Escreve de dentro.
Escreve de olhos fechados.
As paisagens estão em nós.
Não vou descrever os mares e as terras, não, que fechem o livro, que vão eles ver...
A escrita fica no exterior.
A escrita não pode encerrar-se numa página. 
És tão louca como as tuas palavras, excitas-te, uivas, arranhas o papel.
Encerras palavras  numa folha de papel, fazes o que fazem os atrasados que escondem nos bolsos papéis rasgados, fósforos queimados, uma mosca morta, tudo o que encontram, segredos, a visão deles, um mundo tranquilizante.
 
Emma Santos, O Teatro

Nenhuma sílaba foi perturbada.

Não é a doença que o preocupa, pois essa passa por ele inalterada. Mais desespero houve em todos os amores perdidos, os incêndios flagrantes do seu horto, do que na doença. Fala dela, sim, mas como quem poderia dizer que hoje chove, a única distância admissível ao inevitável. No diário, regista "queriam que falasse mais da doença?" mas o rosto irreconhecível, a queda do cabelo e dos pêlos pûbicos no dia de Natal, a pele que vai caindo, os exames e os comprimidos, o mijo, são descritos factualmente e sem adjectivos ou concessões. A vida é o que é. Só a caligrafia cada vez mais mutilada o perturba, só a escrita cada vez mais impossível. Mas a vida é o que é.

(comecei e acabei de ler o livro no mesmo local, com quase um ano e meio pelo meio. finalmente, pode agora fechar-se em paz.)

Ao cão de lume que tens de guarda ao coração:

esperar que teus olhos se pousem nos meus. esperar que a chuva pare e tu irrompas na claridade das nuvens abatidas sobre o mar. esperar um gesto, uma palavra que faça o corpo mover-se em direcção a ti. mesmo que eu o não deseje. mesmo que o mundo desabe nos lábios sobre os lábios. e nenhuma palavra seja possível tornar-se à flor da saliva. amo-te, se era isso que querias ouvir dizer. amo-te no silêncio e no medo de despertar em mim as palavras que tu entenderás. e me comprometam, e me desarmam. amo-te vagarosamente. peço-te, dá-me Tempo para que as palavras se formem e tomem sentido, se organizem de modo a serem fala simples e imediata dá-me tempo para reconhecer meu corpo esquecido algures na treva duma memória que eu tento esvaziar. dá-me Tempo para aperceber de novo a falsidade dos espelhos, e de novo construir a minha sombra, o meu reflexo, a minha solidão. dá-me Tempo, Tempo infinito para que a voz cresça e se transforme em canto. Tempo, quero Tempo, para redescobrir a dor.

Al Berto, Diários

Nós não somos do século de inventar palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas.

Aquele momento estranho em que descubro que palavras que queimei para que os sentimentos ardessem com elas, escritas numa noite de verão do ano passado entre fumos e vinhos, foram escritas quase iguais por outra pessoa há quase trinta anos. Na vida pouco há de inédito.

chove, é preciso cultivar a solidão, de vez em quando (Al Berto)
apresso a vida e anoiteço cedo, é preciso continuar a trabalhar a solidão (eu)

(tivesse eu semântica bastante para entender que continuar a trabalhar algo é o mesmo que cultivar e poderiam chamar-lhe coincidência)

Vaguear pelas ruas, procurar-te, e quando te encontrar ter a certeza de que não me pertences.

Há dias em que só me resta amar, sinto-me incapacitado para outras tarefas. Amar-te, é tudo o que consigo fazer. Vaguear pelas ruas, procurar-te, e quando te encontrar ter a certeza de que não me pertences.
Mas, apesar de tudo, preciso de amar, mesmo que tu nunca saibas.)

Hoje sinto-me vazio de tudo. Nenhum mar se agita dentro de mim. Nenhum vento me traz o cio do mundo. A violência. O tédio. Estou só, contigo num jardim da memória.

(É um acaso se alguém me ouviu pronunciar as palavras do amor. Nunca o digo. Tenho medo de me estilhaçar contra a inquietação das horas...)

Al Berto, Diários
 (acho que Al Berto é o escritor mais só que conheço. chega a dar-me pena.)

Lembra-te mais vezes disto

A vida é demasiado breve fugaz para perderes tempo a ler livros assim-assim.

(ou a ler, em geral.)

The heart of my life, the life of my heart.

"Levels of Life" foi, porventura, o livro mais tocante que li em 2013, ao ponto de me ter conduzido à sepultura de Sarah Bernhardt em Paris e ao festival de balões de ar quente em Bristol, como quem fecha um círculo de uma história familiar. Metade do livro é, sobretudo, o desespero de Julian Barnes à morte da mulher. Li-o sem saber da existência de um outro livro seu sobre a morte e escrito anos antes. Agora que leio este depois de ter lido o outro e, portanto, em ordem inversa aos factos, "Nothing to be Frightened of" parece-me somente o resultado de quem não fazia a menor ideia do que falava, mesmo que tenha sido escrito pela morte dos pais. A morte pode ser sempre igual mas as mortes são todas diferentes.

Reflexões por ocasião do dia da mulher: Luiz Pacheco

O Luiz Pacheco é a versão Portuguesa de Bukowski.

Oscares: such is life I

O Leonardo DiCaprio está para o cinema como o Philip Roth está para a literatura: todos os anos é o seu ano; até não ser.

Pudesse ser eu uma canção que não chegasses a partilhar com ninguém, como um rascunho.

Pudesse esse ser o destino de cada um, amadurecer assim o coração. De percussão a instrumento de sopro. Ensaiar uma melodia até ao fim. Ter uma melodia por identidade e deixá-la a alguém que a aprendesse. Quando não existíssemos, estaríamos suficientemente no som. Bastaria o som para impedir que a morte fosse tão exagerada. Talvez quem aprendesse a canção pudesse também guardar-nos as paixões. Pousá-las ao pé de si. Dizer: esta ocarina é bonita. A morte seria só bonita. Uma coisa de ouvir, contra o silêncio insuportável.

valter hugo mãe, A Desumanização

Aceitara considerar cada dia a probabilidade de algo bom.

No mesmo dia, descubro que estou a passos da maior livraria do Reino Unido, com estantes que se prolongam por cinco quilómetros. Ah, as pequenas coisas.

Alta definição ou Esta música não me acende

Não gosto do Pedro Chagas Freitas embora goste do bom-gosto de quem lhe gere a página da Fábrica de Escrita, exceptuando as fotografias. Abomino, de resto, fábricas de escrita de qualquer espécie, incluindo a da escrita sempre criativa. Não sei se a minha irritação com o Pedro Chagas Freitas é inveja. Acha-se o maior, sabe vender-se e resulta, alguma coisa de louvável há nisso. Não quero pensar que possa ser inveja porque, para ter inveja, que seja dos melhores, de quem vale a pena ter inveja de tanto se querer chegar àquele nível. O Pedro Chagas Freitas é só um tolo que me irrita. E, se me irrita, é porque não sei se é dele, que não o conheço de lado nenhum para me suscitar tanto sentimento, se é da escrita dele, que é tão medíocre e previsível que quase poderia ser auto-ajuda, ou se é das pessoas que gostam tanto dele, e que com isso convencem-me sempre que somos, realmente, do tamanho daquilo que conhecemos. Gosto muito da palavra amador. Não gosto de fraudes apesar de nelas haver sempre um mérito a reconhecer. Acredito que qualquer pessoa pode escrever - há por aí tanto blogue melhor do que livros - e acredito na mão invisível do mercado que sempre arranja oferta para saciar uma necessidade. Irrita-me esta necessidade tola.

Mas tu não guardes vazios os meus lugares.

Quando eu fugir, não deixes de comer, de sorrir, de subir ao cabeço, de ver como são bonitas as auroras, toma conta das ovelhas, têm um coração carente e são medrosas, nunca as assustes, é muito triste. Não deixes de ser malcriado. Quando deus ficar feio vai arrancar-nos a cabeça como se espremesse um bago de feijão. Porque somos imbecis, aprendemos nada e sonhamos com o que não nos compete. Tu nunca deixes de namorar, Einar. Atira-te às raparigas. Pões-lhes as mãos no rabo, lembras-te. Elas vão dizer que não gostam, mas estarão sempre a mentir. Convence-as de tudo, e faz-lhes filhos, não te importes que sofram. Elas vão ter de sofrer de qualquer maneira e não vale de nada a vida se não a jogarmos por inteiro. Traz as raparigas para aqui e faz-lhes filhos bonitos. Se nascerem rapazes, serão sempre Hilmar. Se forem meninas, tu sabes, podem chamar-se Halldora. Mas tu não guardes vazios os meus lugares. Deixa-me ir. Olha pelo meu pai. Se ele te falar dos poemas, ouve tudo. É a única coisa que conta, a poesia. No lugar da Islândia colocar um poema. No lugar do coração colocar um poema. Depois, dizê-lo uma e outra vez, até ser tudo.

valter hugo mãe, A Desumanização

Os livros. Eram os livros. Diziam-me coisas bonitas e eu sentia que a beleza passava a ser um direito.


Todos os dias passo à frente desta livraria. Um dia não muito distante, hei-de ter uma assim, cheia de determinação de existir.

Continua à venda aí à direita ou Bem me parecia que devia ter pedido só 25.

Todos os heróis são desconhecidos
 
iludimo-nos do amor para não termos de falar da vida
e esgotamo-lo em sorvos sôfregos
para que não o esgote a morte mais rápida
em despistes que se fingiriam simulacros se noutra era tardia
mas a nossa era esta
onde o amor não chegava ao nada se parecia absoluto
e a tua bondade prestável do coração desarmado e mais puro
era acto que nem a esquerda ou a direita sabiam e só nos outros
que te tocavam o cabelo sem imaginarem
porque o que se oculta é sempre maior do que o que se revela
e ninguém entenderá isto que escrevo
porque o amor era o sítio para te adormecer o medo
mas as tuas lágrimas só as secavam o fogo


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Amo dentro de ti um milhão de perplexidades

amo dentro de ti um milhão de perplexidades
o rebento das flores na primavera, a gota claríssima da água de que és feita
amo dentro de ti uma arquitecturada conspiração desfeita
amo incógnitas e as outras convictas pessoas que levas
amo-te universos e outras secretas esferas
amo até quem ainda não és
mas que eu sei existir
amo quem te viu partir



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O rasto de uma estrela, quase gente

e por vezes a tua voz chega-me como um mistério
ou um abraço inesperado que se recebe ainda quente
a tua voz atravessa-me como um poema
e eu posso de novo ser o rasto de uma estrela, quase gente