Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens

Os escritores não têm de sentir nada, ou querer significar nada, têm é de escrever.

Aos poucos, vou perdendo o sentido de decoro: comprei um livro chamado “Read This if You Want to Be a Great Writer”.

I love such beginnings, with no preface, raw, hard.

Pôs-se a fazer contas à vida e, quando deu por isso, já estava para morrer.

(do livro, uma primeira tentativa)

Quero que se foda o sublime.

Quero que se foda o sublime. A minuciosa construção do absoluto literário. Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exacto. Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso. Quero que se foda o sublime (começa a saber-me bem repeti-lo, o ritmo sincopado conjugado com a limpidez expressiva). Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo. Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar. 

Jorge Roque, in Canção da Vida

You should only read what is truly good or what is frankly bad.

Li, finalmente, algo de Adília Lopes, Bandolim. Dali, aproveitei apenas uma coisa, o conhecimento sobre a teoria das catástrofes, conceito belíssimo, quase ao mesmo nível da descoberta fantástica da micro-nação de Liberland. Imagine-se, hoje vou construir um País. 

Saber escolher quais os livros a comprar e quais aqueles a pedir pelo Natal é, de si, uma arte que não deve ser menosprezada.

A vida é dura para quem é mole.

As pessoas que nunca leram os Lusíadas são, geralmente, as mesmas que gostam muito de dizer que a última palavra dos Lusíadas é “inveja”. Geralmente, são também invejosas.

É a única pessoa que conheço que morreu de amor.

‘Fernanda’, de Ernesto Sampaio, não é um livro, é um luto.

Liberdade deve ser algo muito parecido com poder agendar férias de acordo com o calendário literário.

Adormecer, na companhia de quem quero, no The Literary Man. Acordar no Fólio.

Why would you read a six-volume, 3,600-page Norwegian novel about a man writing a six-volume, 3,600-page Norwegian novel?

Prosseguindo uma tara recente, comprei o primeiro volume de My Struggle, de Karl Ove Knausgård, em Oslo. É fácil perceber o porquê de tão rapidamente se ter tornado uma obra internacionalmente aclamada, magnum opus entre bestas céleres: o escritor foi, em tudo, honesto.

For the heart, life is simple: it beats for as long as it can. Then it stops.

Somos passos. Um pé diante do outro até ao esgotar do tempo.

I would so much like to live a little longer in this beautiful concentration camp.

Por vezes, viver pode parecer irracional. Naquele caso, certamente, poderia ser algo de irracional. Tão ilógico que chega a causar estranheza aceitar essa vontade. Ele assume uma vergonha de estar vivo, ocupar espaço, destoar do mundo, homem feito carcaça, feio, fraco e inútil para ser gente. Talvez que lhe fosse melhor morrer, acabar de vez com o sofrimento de existir num dia-a-dia que só pode conduzir a um mesmo fim. Contudo, fomos desenhados para acreditar. Somos sobreviventes. Contra todas as probabilidades, contra a razão, contra a carne, contra os outros e as expectativas e desejos dos outros. Fomos feitos para a vida mesmo quando é a morte quem nos chama. Por isso, ele quer viver. Ainda.

Da felicidade nos campos de concentração.

Não fala dos horrores. Não entende porque falam de horrores e acha ignorante o exagero, que se apelide de inferno. Ele não esteve no inferno, não conhece o inferno, só os campos. De resto, só encontrou o que seria natural encontrar num sítio daqueles. Não fala de infortúnio, de engano, ou de destino. O afamado destino judaico. Falar de destino seria admitir que não existiu liberdade de acção. Seria omitir a possibilidade de escolha entre a conivência e a resistência. Pior, seria afirmar que também a indiferença foi natural, tão natural como os próprios campos. Pelo contrário, fala de felicidade. Choca-nos com a felicidade. Também ela, tão natural.

(Fatelessness)

Com o corpo não há ensaios.

(...) São os nossos precipícios: os medos como monstros que nos vencem durante o dia, e que ficam moribundos nestas noites singulares Fantasmas que se despem em nós, que nos tomam o corpo, que nos entregam aos outros e dessa forma, ao mesmo tempo egoísta e altruísta, nos devolvem a nós próprios.

Na Ler deste Verão, José Riço Direitinho

Uma noite de fadas e de fodas.

Escreveu a Agustina, e "cito" isto de memória: que sexo e amor são coisas bem diferentes, que um não está ligado ao outro, mas que por vezes coincidem - a quem isso acontece, são os felizes deste mundo.

Desta maneira, aquela coisa de alguém se apaixonar pela maneira de ser do outro, não ligando ao exterior, só pode dar para o torto, porque depois leva-se com um corpo que nunca se desejou, que apenas se fingiu desejar, ou que se desejou como uma obrigação. E o dono do corpo acaba a sentir que o "desejo" que lhe é dedicado é coisa vazia. Dá para o torto, na certa: é uma questão de tempo.

Na Ler deste Verão, José Riço Direitinho

Coisa feia, a inveja.

Pese embora a duvidosa qualidade do material, há que atribuir mérito às capacidades imaginativas de quem está por detrás do marketing dos novos autores Portugueses. Eis que, depois dessa estrela em ascensão que é o Raúl Minh’Alma, nos chega o Afonso Noite-Luar. Coisa mais linda.

A última vez que te vi estavas na Mongólia.

É importante ter sonhos. A existir, chamar-se-á assim. Aqui, o registo.

Nunca deixámos que as palavras nos dessem lições.

Querido Eugénio

O melhor não são os sentimentos nobres das pessoas, mas o ácido prazer de amar seja o que for. Uma longa viagem nos une e nos separa. Nunca trocámos cartas porque essa débil força da confidência esteve sempre para nós fora de moda. Nunca deixámos que as palavras nos dessem lições. As palavras são como caminhos, umas vão dar a qualquer sítio que não nos importa conhecer; outras não servem para nada, e são as melhores.

A poesia não é feita de palavras, mas da cólera de não sermos deuses.

A Grécia, como a conhecemos, isso é que é poesia. O vento no fim da tarde em Delfos, o olival até ao mar, duma cor que já não me lembro. Nós não éramos profanos, mas argonautas em terra. Tenho ainda o medalhão de ouro, com Atena esculpida e a coruja ao lado. Tanta formosura para tão poucos iniciados!

Estou aqui a pensar que vou construir uma casa numa árvore do jardim, para navegar ao largo como o capitão Slocum, num iole de 12,70 toneladas de peso bruto. Daqui ao cabo Horn é um pulo. E sempre nos acenam os que ficam em terra, os lenços agitados pelo bom vento da costa. Somos navegadores solitários tentando não embirrar com o presidente do Transval que acredita que o mundo é plano e que não pode haver a volta ao mundo.

Um bom sorriso, e está bem assim.

(Carta a Eugénio de Andrade, por Agustina Bessa-Luís (25.06.2005))

Da etnografia dos Povos: motivação

Os Portugueses precisam tanto de quem os motive, que até há quem consiga chegar ao top de livros vendidos em Portugal com uma colecção de frases motivacionais ao estilo do Facebook.

(quando pensava que já não conseguiam surpreender-me depois de Pedro Chagas Freitas, eis que descubro o magnífico Raúl Minh'alma.)

As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam: mais ou menos isto.

Uma espécie de repugnância, de nojo, de zanga crescia em mim numa onda de marés, e apetecia-me empurra-los, Joana, apetecia-me bater-lhes, apetecia-me enxotá-los em direcção do portão, apetecia-me insultá-los até que recuperassem a insolência, o desafio, o orgulho, o desprezo, a firmeza, até que levantassem o queixo da mesa e me fixassem, no refeitório nauseabundo e húmido, sorrindo de altivez e de sarcasmo.

António Lobo Antunes, em Conhecimento do Inferno

As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam.

Em contrapartida, aquelas que mais desprezo são aquelas que nem sequer começam. Pessoas que vivem no medo do medo, à superfície da vida e sem entrar na água, sem ambições ou objectivos, tão assustadas que preferem fechar-se ao mundo e aos outros, tão pessimistas que não aceitam a felicidade ou a ideia dela, tão tristes, uns tristes. Convencem-se que a sua passividade e cobardia são inevitáveis e que, no fundo, talvez até mereçam ser assim. São estes os coitadinhos da vida, subjugados e sofridos até mais não, vítimas que não conseguem deixar de ser vítimas numa atitude que mais parece masoquismo, porque os outros conseguem, mas eles não são capazes, porque os outros não estão nas mesmas condições que eles, porque eles são únicos e os outros são maus. Sacrificam até a liberdade por não aguentarem a responsabilidade de tomarem decisões. Preferem, até, que nada se altere porque o desconhecido dá uma carga de trabalhos, ui que susto, apesar de tudo até que não se está mal assim.

Aceitar ser vítima é troçar da liberdade. Quem não se respeita, não pode esperar dar-se ao respeito.

(some-se a isto uma personalidade atada de quem não sabe fazer nada sozinho e acorda a querer a papinha toda feita – e agora o que é que eu faço, Ana? -, porque ufa como é extenuante talhar um caminho e tomá-lo como nosso!, e uma carência extrema que endeusa todo aquele que lhe dê atenção, e temos a personagem principal do novo livro da Ana Zanatti. Meu deus, livra-me disto.)