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Mãe, nome total.

“Nascemos na década de 80. Somos a geração que comeu Cerelac, Nestum com mel e papas de farinha Maizena. Somos a geração que levava cem escudos para a escola primária e comprava um Bollycao no intervalo da manhã. Metíamos manteiga nas bolachas Maria e Nesquick no leite. As nossas festas de anos tinham sandes de fiambre e queijo mas também tinham salame e tortas Dancake. A nossa geração bebia Coca-Cola quando tinha diarreia mas antes as nossas mães "tiravam-lhe o gás". Comíamos batatas fritas da Matutano e fazíamos colecção de pega-monstros e tazos. 

Apesar disto somos também uma geração que aprendeu a comer sopa a todas as refeições e peixe cozido quando as nossas mães assim o entendiam. Não havia comida especial para nós e quando perguntávamos o que era o almoço recebíamos como resposta um "casquinhas de tremoço". Comíamos fruta como sobremesa porque nem nos passava pela cabeça não o fazer. Somos a geração que brincava na rua até à hora de jantar e, no Verão, ainda podíamos brincar depois dessa hora. Andávamos de bicicleta e íamos a pé para a escola, sozinhos ou com amigos. Até para mudar de canal na televisão tínhamos que nos levantar. Somos a geração que ligava para os discos pedidos, a geração que não dissocia a Ana Malhoa do Buereré, a geração que comprava cassetes dos Onda Choc nos expositores dos cafés. Fomos as princesas da Disney e os Power Rangers. Ainda somos do tempo em que os carros não tinham cinto de segurança nos bancos traseiros nem ar condicionado. Jogámos Tetris e tivémos Walkmans e Mega Drives. Tomámos comprimidos de flúor e bebemos óleo de fígado de bacalhau.

A nossa geração comeu açúcar que se fartou, viu desenhos animados cheios de lutas e outros em que as meninas eram princesas à espera do príncipe encantado. E nenhum mal veio daí. Porque a nossa geração fez tudo com conta, peso e medida. A nossa geração teve mães que faziam o que podiam da melhor forma que sabiam, que seguiam o coração e não viam um papão em cada esquina. As nossas mães eram as mães que nos deixavam lamber a massa crua dos bolos mas que diziam que comer o bolo quente nos dava a volta à barriga. Podiam ser incoerentes, é certo, mas tinham filhos felizes. E nós tivemos mães imperfeitas mas que, na sua imperfeição, souberam dosear tudo e encontraram o equilíbrio. Saibamos nós ser hoje tão imperfeitas como elas foram um dia. Os nossos filhos ficarão gratos. Tal como nós somos gratos. Que maravilhosas foram as mães dos filhos de 80.” 

Uma Mãe Imperfeita
(coisas para memória futura)

Ah, a vida, sempre tão cheia de graça.

Conta que está cansada de ser alguém, já só quer ser ninguém. No dia seguinte, tiram-na do anonimato.

Os founders são os novos doutores.

Como no Nos Alive, não importam os concertos, mas mostrar que se esteve lá. Assim o Web Summit. Aguardo ansiosamente que passe de moda.

(isto)

O interlúdio é viver.

Há pessoas que vivem adormecidas como os vulcões, sem saber bem se repousam ou se estão à beira da extinção.

Amo-o como amo a cor das águas de Fernando de Noronha.

O Brasil é capaz de produzir um Chico Buarque: todas as nossas fantasias de autodesqualificação se anulam. Seu talento, seu rigor, sua elegância, sua discrição são tesouro nosso. Amo-o como amo a cor das águas de Fernando de Noronha, o canto do sotaque gaúcho, os cabelos crespos, a língua portuguesa, as movimentações do mundo em busca de saúde social. Amo-o como amo o mundo, o nosso mundo real e único, com a complicada verdade das pessoas. Os arranha-céus de Chicago, os azeites italianos, as formas-cores de Miró, as polifonias pigmeias. Suas canções impõem exigências prosódicas que comandam mesmo o valor dos erros criativos. Quem disse que sofremos de incompetência cósmica estava certo: disparava a inevitabilidade da virada. O samba nos cinejornais de futebol do Canal 100, Antônio Brasileiro, o Bruxo de Juazeiro, Vinicius, Clarice, Oscar, Rosa, Pelé, Tostão, Cabral, tudo o que representou reviravolta para nossa geração foi captado por Chico e transformado em coloquialismo sem esforço. Vimos melhor e com mais calma o quanto já tínhamos Noel, Haroldo Barbosa, Caymmi, Wilson Batista, Ary, Sinhô, Herivelto. A Revolução Cubana, as pontes de Paris, o cosmopolitismo de Berlim, o requinte e a brutalidade de diversas zonas do continente africano, as consequências de Mao. Chico está em tudo. Tudo está na dicção límpida de Chico. Quando o mundo se apaixonar totalmente pelo que ele faz, terá finalmente visto o Brasil. Sem o amor que eu e alguns alardeamos à nossa raiz lusitana, ele faz muito mais por ela (e pelo que a ela se agrega) do que todos nós juntos. 

Caetano Veloso, sobre Chico Buarque

Às nove no meu blog.

De vez em quando, aparece aqui nova fornada ao engano. É assim que sei que ainda há material a render, mesmo que escreva cada vez menos. Nessas alturas, apetece-me fazer-lhe um favor, passar-me por editora, ou crítica, ou só mesmo mal-dizente.

Esclarecer-lhe, por exemplo, que aquele último foi uma péssima escolha, fraco gosto. Fraca-fraquinha qualidade. Recomendar-lhe, talvez, um par de poetas – agora tem-me dado para a poesia, parente mais próxima duma saudade - , Daniel Faria, o Pina dos gatos, Matilde Campilho, ou o Miguel Martins. Fazem milagres, palavra de honra. Mas, o pior, desactualizado. Até tive de esforçar-me para lhe entender o sentido, repare-se. É que poucas coisas há que sejam tão humilhantes quanto o não reconhecermos a ideia de felicidade, mesmo que agora uma ideia difusa e afastada.

Todavia, assim foi. Aquilo não era meu ou sequer podia ser eu. Mais concretamente, não podia ser meu, pela simples razão de que não versava sobre ela. Trata-se, portanto, duma questão da mais clara lógica para a qual qualquer variante é inadmissível, qualquer justificação implausível. É verdade que são sempre muitas e variadas as formas de amor e de que nenhum engano fui refém. Contudo, há certos sentimentos que exigem um rosto para alcançarem significância, um nome que os marca e que vai além daquele que trazem de nascença. Por isso o reparo, de natureza essencial. É que, para escrever de amor, tenho sempre de escrever sobre ela.

Procedam-se, assim, às designadas erratas, sem prejuízo de adendas. 

(passámos junto à montra da Bertrand e, tendo-lhe dito que aquela pessoa era muito fã da minha escrita, troçou de mim, pois claro.)

A quem é pequeno, qualquer um parece grande.

O mal tornou-se banal ao ponto do normal tornar-se extraordinário. O bem é escândalo. A facilidade com que se encaram corpos lacerados no meio da rua entre a sobremesa e o café, voyeurismo de fazer audiências, contrapõe-se ao louvor exacerbado com que elevamos a heróis quem nada mais faz do que aquilo que julga ser o certo a fazer. Vamo-nos medindo pelo que não temos, pelo que não conseguimos, pelo que não somos e é por essa medida, mais vazia que cheia, que nos observamos uns aos outros. É a nossa incapacidade, a nossa conivência, a nossa preguiça e a nossa indiferença que faz heróis. A nossa pequenez, o seu heroísmo.

(a propósito disto)

A política é uma coisa demasiado séria para ser entregue a amadores.

Revolucionários em estágio, houve quem erguesse um altar de coragem e rebeldia à atitude da Grécia e queriam até que Portugal lhe seguisse o exemplo. Onde estão agora esses que nos queriam ver Gregos?

* título vindo do Delito de Opinião

A Mariana Mortágua e o dia da mulher.

Existe alguém com um papel a cumprir e está a cumpri-lo bem. Acontece ser nova. Acontece ser mulher. Dêmos graças por este feito extraordinário. Aleluia, aleluia.

Vamos embalar-nos neste abraço.

Não me digas que, indignado, pois, também tu és o Charlie, certo, mas qual deles?, não serás dos mortos, não, disso não chegaste a tempo, mas é uma questão de solidariedade, percebe-se, porque te choca que tirem a vida a alguém pelo que possa escrever, desenhar ou nem isso, pelo que possa dizer (afinal estamos no século XXI - essa concretização miraculosa), então és a favor da liberdade de expressão, que bom, e já somos tantos, mas e para quê, não me digas, vais escrever um post no facebook, melhor: um poema, exaltar-te contra o radicalismo, que bom, que deus te pague, houvesse mais corações justos feito o teu e o mundo certamente seria um lugar melhor, mas não chega, agora vamos ser muito emocionais, lacrimais, o mais enfáticos possível, ponha-se uma boca de senhas e vamos em fila tirar todos, à vez, fazer bicha, muito barulho e minutos de silêncio, para condenar o que há de errado neste mundo, o que há de vil, como é que há gente capaz de um acto tão hediondo?, choquemo-nos todos, em coro, religiosamente, vamos embalar-nos neste abraço, vamos pegar em armas (i.e. lápis, canetas) e dar luta, sim, não nos podem vencer, a nós e à nossa liberdade fabulosa, esmagadora, e amanhã ou quando não houver mais tiros e granadas por cá, voltamos a ser os mesmos mesquinhos&medíocres-a-cheirar-a-mijo que já andavam a pé ontem por volta das onze da manhã, em Paris, mas por agora somos sensíveis, civilizados, tolerantes, magnânimos, quanto ao resto, morte aos radicais!

Língua Morta

Ninety percent of ethics is picking the right ethicist.

All train compartments smell vaguely of shit. It gets so you don't mind it. That's the worst thing that I can confess. You know how long it took me to get there? A long time. When you die you're going to regret the things you don't do. You think you're queer? I'm going to tell you something: we're all queer. You think you're a thief? So what? You get befuddled by a middle-class morality? Get shut of it. Shut it out. You cheated on your wife? You did it, live with it. You fuck little girls, so be it. There's an absolute morality? Maybe. And then what? If you think there is, then go ahead, be that thing. Bad people go to hell? I don't think so. If you think that, act that way. A hell exists on earth? Yes. I won't live in it. That's me.

David Mamet, via O Malparado