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No fundo, são muito poucas as palavras.

Al cabo, son muy pocas las palabras
que de verdad nos duelen, y muy pocas
las que consiguen alegrar el alma.
Y son también muy pocas las personas
que mueven nuestro corazon, y menos
aún las que lo mueven mucho tiempo.
Al cabo, son poquíssimas las cosas
que de verdad importan en la vida:
poder querer a alguien, que nos quieran
y no morri después que nuestros hijos.

Amalia Bautista

(dos poemas a espalhar pela casa.)

Ainda bem que não é de amor que falamos nunca.

(...) Que violentas desrazões nos conduzem ainda
um para o outro, num abraço tão estéril?

(...)
Já só a libido nos consegue juntar,
uma vez por outra. Talvez seja triste,
e quisesses um pouco mais, algo parecido
com o amor. Uma certeza quase feliz.
Indolor. Mas não fomos nós que inventámos
os desabridos desertos do mundo,
esses que sentimos crescer na pele.
Não pedimos um nome, reivindicando com ele 
“um modo próprio de ruína”. Talvez o amor
não exista, triste palavra sem lume lá dentro.

Toco de novo as tuas mãos e já sei
quais serão os gestos seguintes - a cama larga onde repetiremos todos
os mesmos sítios do corpo, a vergonhosa
angústia de converter tudo isso
num poema sem graça: as tuas mãos.

(Manuel de Freitas, Closing Time, in Os Infernos Artificiais)

Isto não é Bergman, é apenas a vida.

“Estas coisas perdem-se. Primeiro a disponibilidade para a paixão, depois a própria capacidade de alguém se vir noutro alguém.”

(Manuel de Freitas, Os Infernos Artificiais)

Podia-se morrer disso. E tínhamos o tempo todo para ver.

Quem vive para o amor está lixado
não tarda, que o amor é um amplo espaço
vazio sem cor nem forma e um silêncio
tumular por dentro. Mau, muito mau
para se levar alguém. Mas tu vieste
e de imediato tudo fôra já decidido
como quando alguém nasce e olha em torno
– pouco importa se estranha ou não a paisagem.
Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos
a nós, um ao outro por natural companhia
era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
disso. E tínhamos o tempo todo para ver.

Rui Caeiro

Dói-nos a forma mais íntima do tempo: o segredo de não amar o que amamos.

Um amor para lá do amor
por cima do rito do vínculo,
para lá do jogo sinistro
da solidão e da companhia.

Um amor que não precise de regresso,
nem tão-pouco de partida.
um amor não submetido
às fúrias apaixonadas de ir e voltar,
de estarmos acordados ou a dormir,
de chamar ou calar.

Um amor para estarmos juntos
ou para o não estarmos,
mas também para todas as posições intermédias.

Um amor como abrir os olhos.
e quem sabe também como fechá-los.

In A Árvore Derrubada pelos Frutos, Roberto Juarroz

A grandeza concreta da poesia, como da vida, consiste em não estar feita.

Era preciso vir a poesia para iluminar a beleza de “coisíssima nenhuma”, a exactidão de um precipício. De um coloquialismo tão familiar, faz-se assim paradoxo elementar do que é coisa e, em simultâneo, não existe, não é isto extraordinário? Agora que penso nisso, virei-me para a poesia no dia em que me apaixonei por ti. A mesma determinação de um qualquer indigente do sentir, a começar pela poesia. Tu, essa exactidão do meu precipício.

Por favor, anda estragar-me os planos.

Queimar tudo. Alugar uma casa num lugar sem história
na história da minha vida, um lugar de postais antigos,
desbotados, e do passado guardar apenas uma urna
de cinzas, no compartimento por baixo do lava-louças.
Ver filmes sem mérito, ler livros sem arte, ouvir óperas
cómicas e inêxitos impopulares e anacrónicos. Tentar,
sem sucesso, pescar, e ir ao mercado comprar peixe
miúdo e roupas com defeitos às ciganas. Ser anónimo
por fora e por dentro, criança que não se conhece
nem quer conhecer e que procura apenas o início e o fim
de um carreiro de formigas, revelação suficiente
para quem ainda não desperdiçou a vida a perscrutar
os gloriosos fundos de um oceano de merda. Beber
pouco. Foder com a moderação que a improbabilidade
do diálogo impõe. Emular os pioneiros americanos,
pecadores em busca de recomeço e horizonte, longe
das catedrais e de si próprios, longe dos quiromantes
e das sibilas e, sobretudo, da inexorável morte do amor. 

In Desvão, Miguel Martins

Todos seguem um esquecimento.

É assim, eu sei. Depois de se querer tudo
queremos só corpo e depois nem isso,
apenas que te lembres
de certos cantos de rua, das garrafas
num café de bairro, dos papéis
que tantos recados te levaram,
do jardim onde ao anoitecer
enrolávamos cigarros.

Joaquim Manuel Magalhães

Os meus melhores desejos.

Que la vida te sea llevadera.
Que la culpa no ahogue la esperanza.
Que no te rindas nunca.
Que el camino que tomes sea siempre elegido
entre dos por lo menos.
Que te importe la vida tanto como tú a ella.
Que no te atrape el vicio
de prolongar las despedidas.
Que el peso de la tierra sea leve
sobre tus pobres huesos.
Que tu recuerdo ponga lágrimas en los ojos
de quien nunca te dijo que te amaba.

Amalia Bautista

Tão fraca metáfora: um rio Ou O amor? Não me fodam.

Gosto da poesia simples, a que não engana e não oferece enigmas, a que não se vende como terapia e não cede aos lugares-comuns. Aquela que me fala como se fala, uma pessoa conversando com outra pessoa, sofrendo das mesmas maleitas, hesitando por sobre as mesmas catástrofes de se ser humano. A poesia? Não me fodam.

Ir ao Café Lenita, no Senhor Roubado, só para conhecer o rosto de Raquel Nobre Guerra, ou cruzar-me no Adamastor com Manuel de Freitas, grata de existirem e nada lhes dizer. Obviamente.

Que desculpa vais agora dar?

Uma casa junto ao Vouga,
rio de água suficiente,
onde apenas se mergulha
até à cintura, a pequena horta
de Virgílio, o amor robustecido
por nenhuma esperança
e tantos livros para ler
- que desculpa vou agora dar
para não ser feliz?

Desculpas não faltam, José Miguel Silva

Que não apanhes o vício de prolongar as despedidas.

Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não apanhes o vício
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua lembrança ponha lágrimas nos olhos
de quem nunca te disse que te amava.

Os meus melhores desejos, Amalia Bautista in Coração Desabitado

Só há três maneiras de viver neste mundo: ou bêbedo, ou apaixonado, ou poeta.



De preferência, os três. Só vou parar quando eu morrer, não tenho outra opção.

Quase que dava o cu (desculpa lá, não sou padre) para compor poemas assim.

O meu pai estava a explicar ao meu sobrinho Duarte, então uma criança, a importância da inteligência e o Duarte interrompeu-o assim

– Há uma coisa muito mais importante que a inteligência, avô, é a bondade.

O meu pai contou-me isto comovido

– O miúdo tem razão, o miúdo tem razão

e tinha: a bondade é muito mais importante que a inteligência. Este episódio veio-me à cabeça por causa do Zé Tolentino: ele tem as duas coisas em grau altíssimo, o malandro. Uma bondade enorme e a inteligência metida lá dentro. De que serve ela, aliás, fora disso? A bondade

(e, já agora, a modéstia)

rodeiam-no como um halo, 
a inteligência possui uma descrição e uma delicadeza que não sei se encontrei em mais alguém. Para além disto

(ele, de facto, é escandalosamente rico)

carrega uma agudeza e uma cultura de cristal de rocha e um talento poético de excepção. Nós somos, felizmente, um país de poetas, de grandes poetas, e José Tolentino Mendonça é sem dúvida um deles. E isto é verdade porque eu digo. A sua voz é inteiramente pessoal, compreende-se, ao lê-lo, que o seu conhecimento das obras alheias é muito grande, nota-se, como em qualquer artista, o halo 
dos autores que foram importantes para ele, mas a sua voz não deve nada a ninguém a não ser a si mesmo. (Se eu fosse parvo escrevia eu próprio, que é como pôr ketchup em cima de rodelas de tomate.) Não só não deve 
nada a ninguém a não ser a si mesmo como se sente que a qualidade da sua voz vai continuar a crescer. 
E o pouco

(o muito pouco)

que conheço da sua prosa é de altíssima qualidade. Não é um ficcionista nem me interessaria que o fosse, é um magnífico escritor com um perfeito domínio da ondulação e do ritmo, capaz de pensar numa musicalidade de cristal, denso sem nunca ser pesado, fundo sem nunca sair pela outra ponta, de palavras todas dominadas como cavalinhos de circo. O talento deste homem, naturalmente humilde, faz-nos sentir aquela inveja boa da qual o Zé Cardoso Pires me falou tantas vezes:

– Tenho uma inveja boa de ti,

dizia ele todo vaidoso

tenho uma inveja boa de ti

e é óptimo ter uma inveja boa dos camaradas 
de ofício. Infelizmente, Zé, falta-me a tua qualidade humana e nisso invejo-te também. Eu, que me acho 
o melhor do mundo

(não tenho lugar em mim para falsas modéstias)

invejo-te de um modo 
que me faz morder-me todo. Invejo-te a quantidade 
e invejo-te a qualidade, quase que dava o cu

(desculpa lá, não sou padre)

para compor poemas assim. Sendo um homem complexo, por vezes aparentemente contraditório, consegues sempre tocar-me no coração do coração porque a tua inteligência é uma doçura de gume que me penetra sempre até ao centro de mim, onde estou eu e tudo o que amo também. Devo-te o prazer de te ler, devo-te o prazer 
de aprender contigo

(que ensinas sempre aprendendo, malandro, 
outra virtude rara)

devo-te 
o prazer de, ao estarmos juntos, sermos dois sobretudo quando conseguimos ser um. Esta crónica não vai ser comprida porque está cheia de amor, amizade, respeito e ternura e esses sentimentos poupam-se. Só quero dizer quanto te agradeço não por seres meu amigo, só quero dizer quanto te agradeço por eu ser teu amigo. Quem não necessita de um amigo assim nesta vida? Espero que tenha sobrado suficiente papel nesta página para caber lá um abraço. Este:

(António Lobo Antunes, "Zé Tolentino", Visão, Maio 2018)

Antes que me esqueça, Madalena.

1. Pratica a arte da boa vizinhança: estás numa terra pequena, não sejas opaco.
2. Dá o máximo de ti, pede aos outros o máximo. A escassez não vale uma vida.
3. O alheamento não vale uma vida.
4. Faz-te conhecer pelos gestos de todos os dias; mesmo os gestos neutros; mesmo os inúteis.
5. Não deixes nunca de contrastar os homens sobre as pedras.
6. Saboreia os teus trajectos com uma paixão minuciosa.
7. Mas reserva-te para a surpresa e para o imprevisto (como no trabalho).
8. Vive direito. Vive claro. Evita enganar-te neste ponto.
9. Aceita os outros, que são sempre diversos.
10. Gostarias que de ti ficasse (mas qual?) uma memória. Em todo o caso não a forces.

Fernando Assis Pacheco, Regras para Viver em Campo de Ourique

Fuck the poem.

I haven't written in ages
'cause I'd rather stare at you than stare at pages.

But what would be great is
making a poem that could be half as courageous
as you when you're naked.
I try for a minute - 

Your love is my metal, your kisses my rivets.
You are like the ocean beneath the slick of a spillage.

Fuck the poem.

There's a bed here
and you want me in it.

Kate Tempest, Hold your Own

Sleeping together, feet touching, legs touching. Being asleep and together.

O escuro, uma mão, um botão. Um visco. 
Dizem que o amor é isto. 

Sónia Balacó
(perdi o interesse no dia em que usou de reticências, coisinha de esforço) 

Los letrados.

Lo prostituyen todo
Con su ánimo gastado en circunloquios.
Lo explican todo. Monologan
Como máquinas llenas de aceite.
Lo manchan todo con su baba metafísica.

Yo los quisiera ver en los mares del sur
Una noche de viento real, con la cabeza
Vaciada en el frio, oliendo
La soledad del mundo,
Sin luna,
Sin explicación posible,
Fumando en el terror del desamparo.

Gonzalo Rojas