Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
(António Ramos Rosa)
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Ver-te como se vê a luz, a treva, o tempo, ou se veria a paz, quando viesse.
O truque era este: nenhum possível nos bastava,
mansão de poesia ou tenda de desertos;
amor era o lugar onde habitávamos.
Agora vai ser assim: nunca mais te verei.
Do outro lado do universo, ou naquela estreita rua
por onde escolherei, ao acaso, não ir,
ou talvez junto ao rio, no improvável jardim
onde barcos pintados se misturam às folhas
do vento neste outono distraído,
estarás ardendo, todo feito de água?
Se me vês, perguntas
notícias de frança, coisas dos jornais? como vai
o mundo? e eu que queria
ser vasto e profundo
fico assobiando
rimas triviais; já não sei o nome
que me trouxe aqui. O vento, fora, agita
as folhas de árvores na alameda, são as sombras
que vemos, na parede atravessada pela noite;
compreendes agora? nenhuma literatura,
nenhum chiar da roda inexorável, inoxidável mesmo,
mito, frase, romance, ou fantasia,
nem o extenso fogo que simula, na linha de horizonte,
perfeitamente a aurora borealis,
e nem o mundo, nem o saber do mundo,
te bastarão. Deves partir, para encontrar
o que aqui deixas próximo e invisível,
simples surpresa que se esquece e cessa. Enquanto
viajas, cai-me o cabelo, os dentes, um por dia,
fica cinzenta a pele, e as penas com que cubro
a cisão primitiva natural; no surdo espelho
há um gesto de horror quando o vampiro
irreflectido me promete um beijo.
Tivesse, nesse dia, a bomba rebentado
à passagem da víbora; tivesse o general
mais pontaria, ao ver o chanceler;
tivesse o vão sorriso da princesa
durado até ao chá estar sobre a mesa;
tivesses tu pousado a mão sem medo
nos meus lábios gretados de palavras
e amado em mim o amor que nos confunde,
um mínimo detalhe diferente
traria a cada coisa um outro eco.
Mas minto, certamente? agora entendes? ouves talvez
os tão tranquilos passos nas escadas, e estremece
um deus adormecido no teu peito. Tivesse
eu só feito cessar o tempo, e a terra
como era meu dever e meu direito,
e declarado, ali no chão de estrelas,
que és tu a voz e o incêndio deste campo,
já quem me ouvisse nunca mais podia
ter outro tecto que a manhã celeste,
e assim seria agora: ver-te
como se vê a luz, a treva, o tempo,
ou se veria a paz, quando viesse.
António Franco Alexandre
mansão de poesia ou tenda de desertos;
amor era o lugar onde habitávamos.
Agora vai ser assim: nunca mais te verei.
Do outro lado do universo, ou naquela estreita rua
por onde escolherei, ao acaso, não ir,
ou talvez junto ao rio, no improvável jardim
onde barcos pintados se misturam às folhas
do vento neste outono distraído,
estarás ardendo, todo feito de água?
Se me vês, perguntas
notícias de frança, coisas dos jornais? como vai
o mundo? e eu que queria
ser vasto e profundo
fico assobiando
rimas triviais; já não sei o nome
que me trouxe aqui. O vento, fora, agita
as folhas de árvores na alameda, são as sombras
que vemos, na parede atravessada pela noite;
compreendes agora? nenhuma literatura,
nenhum chiar da roda inexorável, inoxidável mesmo,
mito, frase, romance, ou fantasia,
nem o extenso fogo que simula, na linha de horizonte,
perfeitamente a aurora borealis,
e nem o mundo, nem o saber do mundo,
te bastarão. Deves partir, para encontrar
o que aqui deixas próximo e invisível,
simples surpresa que se esquece e cessa. Enquanto
viajas, cai-me o cabelo, os dentes, um por dia,
fica cinzenta a pele, e as penas com que cubro
a cisão primitiva natural; no surdo espelho
há um gesto de horror quando o vampiro
irreflectido me promete um beijo.
Tivesse, nesse dia, a bomba rebentado
à passagem da víbora; tivesse o general
mais pontaria, ao ver o chanceler;
tivesse o vão sorriso da princesa
durado até ao chá estar sobre a mesa;
tivesses tu pousado a mão sem medo
nos meus lábios gretados de palavras
e amado em mim o amor que nos confunde,
um mínimo detalhe diferente
traria a cada coisa um outro eco.
Mas minto, certamente? agora entendes? ouves talvez
os tão tranquilos passos nas escadas, e estremece
um deus adormecido no teu peito. Tivesse
eu só feito cessar o tempo, e a terra
como era meu dever e meu direito,
e declarado, ali no chão de estrelas,
que és tu a voz e o incêndio deste campo,
já quem me ouvisse nunca mais podia
ter outro tecto que a manhã celeste,
e assim seria agora: ver-te
como se vê a luz, a treva, o tempo,
ou se veria a paz, quando viesse.
António Franco Alexandre
It will roll in ecstasy at your feet.
You don’t need to leave your room.
Remain sitting at your table and listen.
Don’t even listen, simply wait.
Don’t even wait.
Be quite still and solitary.
The world will freely offer itself to you.
To be unmasked, it has no choice.
It will roll in ecstasy at your feet.
Kafka, dizem
Remain sitting at your table and listen.
Don’t even listen, simply wait.
Don’t even wait.
Be quite still and solitary.
The world will freely offer itself to you.
To be unmasked, it has no choice.
It will roll in ecstasy at your feet.
Kafka, dizem
O passado não está ainda pronto para nós, nem o futuro.
1. Um pequeno depósito de incredulidade
no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).
3. A impressão de alguém olhando
-te atrás de ti.
4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente.
(que só tu ouves dentro de ti)
5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.
6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
Escrito de memória, Manuel António Pina
no fundo dos teus olhos.
2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).
3. A impressão de alguém olhando
-te atrás de ti.
4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente.
(que só tu ouves dentro de ti)
5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.
6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.
7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.
8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.
9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.
10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.
11. Esse país estrangeiro, o tempo.
Escrito de memória, Manuel António Pina
Isto vai devagar, isto agora demora.
Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
Manuel António Pina
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
Manuel António Pina
Asseguro-te que nunca estarei preparada I
São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto
à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão
em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.
Maria do Rosário Pedreira
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto
à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão
em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.
Maria do Rosário Pedreira
Assim teus olhos
Precisava de falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa.
E do chão.
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa.
E do chão.
Daniel Faria, inédito
(a melhor prenda de aniversário que dei a mim mesma)
Spread your legs: it's woman's day.
all the women
all their kisses the
different ways they love and
talk and need.
their ears they all have
ears and
throats and dresses
and shoes and
automobiles and ex-
husbands.
mostly the women are very
warm they remind me of
buttered toast with the butter
melted
in.
there is a look in the
eye: they have been
taken they have been
fooled. I don't quite know what to
do for
them.
I am
a fair cook a good
listener
but I never learned to
dance—I was busy
then with larger things.
but I've enjoyed their different
beds
smoking cigarettes
staring at the
ceilings. I was neither vicious nor
unfair. only
a student.
I know they all have these
feet and barefoot they go across the floor as
I watch their bashful buttocks in the
dark. I know that they like me, some even
love me
but I love very
few.
some give me oranges and vitamin pills;
others talk quietly of
childhood and fathers and
landscapes; some are almost
crazy but none of them are without
meaning; some love
well, others not
so; the best at sex are not always the
best in other
ways; each has limits as I have
limits and we learn
each other
quickly.
all the women all
women all the
bedrooms
the rugs the
photos the
curtains, it's
something like a church only
at times there's
laughter.
those ears those
arms those
elbows those eyes
looking the fondness and
the wanting I have been
held I have been
held.
A Love Poem, Bukowski
Não há estranhos quando a música é a mesma.
Provavelmente toda a nossa vida é poesia. E todo o objectivo da nossa vida deve ser, quando acabasse, as pessoas dizerem: "Morreu um poema" (Agostinho da Silva)
Nunca estive mais perto de ninguém.
Estou deitado e o tempo passa sobre mim em crescentes lençóis
e durmo e nem ambiciono a posição da árvore
Aceito tudo e sou mais branco cada vez
que o sol se põe sobre a cansada imensidão do rosto
exposto ao ondular do trigo e à velha nova água
Sou pedra ou esquecimento? Que serei?
Alguém responderá. Mas quem? Ou quando?
Estou assim entretanto. O meu modo de ser
é todo este não ser de perguntar e responder
Sou uma enorme dúvida estendida da cabeça aos pés
Nem sei já se nasci - ou quando - ou se morri
Não sou todo este ser que finalmente de si mesmo se cansou
E abro muitas bocas. Quem à minha volta?
Nunca estive mais perto de ninguém.
Ruy Belo,
o poeta da minha praia
e durmo e nem ambiciono a posição da árvore
Aceito tudo e sou mais branco cada vez
que o sol se põe sobre a cansada imensidão do rosto
exposto ao ondular do trigo e à velha nova água
Sou pedra ou esquecimento? Que serei?
Alguém responderá. Mas quem? Ou quando?
Estou assim entretanto. O meu modo de ser
é todo este não ser de perguntar e responder
Sou uma enorme dúvida estendida da cabeça aos pés
Nem sei já se nasci - ou quando - ou se morri
Não sou todo este ser que finalmente de si mesmo se cansou
E abro muitas bocas. Quem à minha volta?
Nunca estive mais perto de ninguém.
Ruy Belo,
o poeta da minha praia
Quando o medo for saindo e do mundo eu for sarando, dessa herança eu faço o manto em que ambos cicatrizamos e seguro (o que então nascer não será prematuro).
Quando o tempo for remendo,
Cada passo um poço fundo
E esta cama em que dormimos
For muralha em que acordamos,
Eu seguro
E o meu braço estende a mão que embala o muro.
Quando o espanto for de medo,
O esperado for do mundo
E não for domado o espinho
Da carne que partilhamos,
Eu seguro.
O sustento é forte quando o intento é puro.
Quando o tempo eu for remindo,
Cada poço eu for tapando
E esta pedra em que dormimos
Já for rocha em que assentamos,
Eu seguro.
Deixo às pedras esse coração tão duro.
Quando o medo for saindo
E do mundo eu for sarando
Dessa herança eu faço o manto
Em que ambos cicatrizamos
E seguro.
Não receio o velho agravo que suturo.
Abraços rotos, lassos,
Por onde escapam nossos votos.
Abraso os ramos secos,
Afago, a fogo, os embaraços
E seguro,
Alastro essa chama a cada canto escuro.
Quando o tempo for recobro,
Cada passo abraço forte
E o voto que concordámos
É o amor em que acordamos,
Eu seguro:
Finco os dedos e este fruto está maduro.
Quando o espanto for em dobro,
o esperado mais que a morte,
Quando o espinho já sarámos
No corpo que partilhamos,
Eu seguro.
O que então nascer não será prematuro.
Uníssonos no sono,
O mesmo turno e o mesmo dono,
Um leito e nenhum trono.
Mesmo que brote o desabono
Eu seguro,
Que o presente é uma semente do futuro.
É bom sondarmos os abismos que nunca vão cicatrizando.
Quantos em ti lagos e rios
Quantos em ti os oceanos
Água vermelha que aos ouvidos
traz o aviso
de nenhuns campos
É bom sondarmos os abismos
que nunca vão cicatrizando
E ao som da água pressentirmos
de onde provimos
aonde vamos
David Mourão-Ferreira
Quantos em ti os oceanos
Água vermelha que aos ouvidos
traz o aviso
de nenhuns campos
É bom sondarmos os abismos
que nunca vão cicatrizando
E ao som da água pressentirmos
de onde provimos
aonde vamos
David Mourão-Ferreira
If it doesn't come bursting out of you in spite of everything, don't do it.
Unless being still would drive you to madness don't do it.
Eu queria tanto parar aqui
Sentimos no ar a melodia etérea. É a nossa música.
Cantamos e dançamos como se fosse a última vez, o último olhar, o último toque, o último beijo.
Estás linda.
O teu vestido, da cor do vinho que enche os copos, aquece o chão que pisas e relembra a razão. Todas as razões.
Diz-lhe para parar aqui. Eu queria tanto parar aqui.
Os olhos param em ti e em mim, enquanto preenchemos o espaço vazio, impossível de preencher por alguém que não nós. Não pedimos o fim, mas não nos importamos se acabar assim.
Diz-lhe para parar aqui. Eu queria tanto parar aqui. O mundo é grande e em todo o lado se vive. Diz-lhe para parar aqui, vivemos em caixas de fósforos. Não sopres.
Se as mãos pudessem dizer por mim.
Eu queria tanto parar aqui.
Pára.
Cantamos e dançamos como se fosse a última vez, o último olhar, o último toque, o último beijo.
Estás linda.
O teu vestido, da cor do vinho que enche os copos, aquece o chão que pisas e relembra a razão. Todas as razões.
Diz-lhe para parar aqui. Eu queria tanto parar aqui.
Os olhos param em ti e em mim, enquanto preenchemos o espaço vazio, impossível de preencher por alguém que não nós. Não pedimos o fim, mas não nos importamos se acabar assim.
Diz-lhe para parar aqui. Eu queria tanto parar aqui. O mundo é grande e em todo o lado se vive. Diz-lhe para parar aqui, vivemos em caixas de fósforos. Não sopres.
Se as mãos pudessem dizer por mim.
Eu queria tanto parar aqui.
Pára.
O amor é não haver polícia, Linda Martini
Os estatutos do amor ou Que todo o olhar seja tão emergente como a tua palavra.
1. (Direito à Possibilidade)
Que todo o abraço seja tão contundente como o teu olhar.
Que todo o olhar seja tão emergente como a tua palavra.
Que toda a palavra seja tão urgente como a tua mão nos meus cabelos.
2. (Direito ao Espaço e ao Tempo)
Que haja tempo em bloco e não ruptura de tempo.
Que a minha ilha seja teu porto e teu porto nos seja santo.
Que a comunhão se faça tanto no beijo como no silêncio.
3. (Direito à Fecundidade)
Que do teu umbigo nasçam flores com seiva de primavera.
Que eu possa viver do seu perfume e sobreviver à sua acidez sem as desflorar.
Que o prazer não precisa de extrema-unção mas que a unção do prazer seja extrema.
4. (Direito à Perfeição)
Que a palavra “amor” nunca seja proferida em vão.
Que o amor venha já feito, perfeito e não por fazer.
Joana Serrado, Os estatutos do amor
via Bibliotecário de Babel
O teu sorriso triste de uma descrença
vai aqui uma qualquer coisa torta
como eu ser assim e tu tão outra
como eu amar, ou pensar que amo
em cada buraco de mim, por cada poro
e o teu sorriso triste de uma descrença
não sirvo, eu sei, não sou um que baste
e vejo-te fugir, de todos os teus olhos
para outros lugares, ou dias, ou homens
e mais que me endireite ou persigne, ou
cante as horas azedas, são noite os teus dias
e olhas, e olhas o espelho do que pareço ser
sem um riso, sem que digas afinal que
o dia é breve e há outros céus onde voarNuno Camarneiro
Errata: onde se lê amor deve ler-se B.
Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.
Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.
Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.
Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
com certeza um sítio muito triste.
Errata, Manuel de Freitas
O dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita (ficam sombras).
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina
As formas de conhecer-te são só duas ou três; esta é a que demora mais tempo.
as formas de conhecer-te são só duas
ou três; esta é a que demora mais tempo.
a chuva parou e continuamos distraídos neste
amor de cabotagem, nunca demasiado
longe ou perto da carne e dos órgãos que uma
abóbada de ossos protege. cumprimos
a liturgia das horas, repetida sem convicção ou
eficácia, e por vezes as palavras começam
a fazer sentido, como os gestos com que
te aproximo de mim, com uma só mão
e algum sono. uma navegação lenta,
familiar e confortável, porque
essa é a melhor forma de te conhecer
os dedos e o modo como os usas
para fazer tranças às horas, como quem
tece cabelos ou desfia um rosário
sem murmúrios, apenas a técnica de rodar
terços e mistérios no fundo da mão
para entreter os pretendentes e
esperar que eu regresse das longas
viagens – dez anos de cada vez –
em que me ausento sem sair de casa.
esta tarde estive em Lisboa e trago-te maçãs
vermelhas de uma mercearia da rua dos Lusíadas,
com as quais tenciono adormecer-te (como
na história que contamos todas as noites), porque
é essa a única forma de te conhecer
os medos e interpretar os sonhos, escrever
ao teu lado, enquanto dormes, a lista
das tarefas diárias com que nos ocupamos a
matar o tempo.
Tiago Araújo
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