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O ateísmo de Saramago V

"Não basta ver que um jardim é belo sem ter de acreditar que lá ao fundo também esconde fadas?"

Douglas Adams

O ateísmo de Saramago IV

"Ninguém sabe, no sentido forte da palavra, se Deus existe ou não. Se encontrardes alguém que vos diga: 'Eu sei que Deus não existe', esse não é em primeiro lugar um ateu, é um imbecil".

A. Comte-Sponville

O ateísmo de Saramago III

Por: Patrícia Fachin, 06/07/2009


"Sua obra é uma catedral, ao longo da qual ele vai metodicamente desconstruindo a concepção judaico-cristã de um Deus justo e bondoso”, avalia a crítica literária e ensaísta Salma Ferraz, referindo-se à obra de José Saramago. Conhecido por questionar a existência de Deus, o escritor português é fascinado pelo tema e, segundo a autora, “apaixonado pela Teologia e pelos personagens bíblicos em geral”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Salma explica que tal admiração se justifica pelo fato do autor estar “imerso numa cultura que foi moldada pela ideia de Deus que está impregnada no DNA da civilização Ocidental”. E enfatiza: “Isto seduz Saramago e faz com que ele produza, a partir desta ideia, as melhores páginas da literatura universal contemporânea”.

Salma Ferraz graduou-se em Letras, pela Faculdade Hebraico Brasileira Renascença de Letras, de São Paulo, e especializou-se em Literatura Brasileira e Literatura Infantil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É mestre e doutora em Literatura Portuguesa, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Atualmente, é professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e atua no Programa de Pós-Graduação de Literatura com a linha de Pesquisa Teopoética - Os Estudos Comparados entre Teologia e Literatura. Entre seus livros, citamos O Quinto Evangelista (Brasília: UNB, 1998), As Faces de Deus na Obra de um Ateu (Juiz de Fora: UFJF, 2004) e No princípio era Deus e ele se fez Poesia (Acre: UFAC, 2008).



IHU On-Line - Como José Saramago relaciona Teologia e Literatura em sua obra?

Salma Ferraz - Digamos que Saramago é apaixonado pela Teologia e pelos personagens bíblicos em geral. Mas é especificamente na obra O Evangelho segundo Jesus Cristo que ele mergulha profundamente em assuntos teológicos, permitindo que Jesus, ficcionalmente, dê a sua versão dos fatos. E a versão de Saramago para os Evangelhos é muito diferente dos Evangelhos do Novo Testamento.

IHU On-Line - De que maneira Deus se faz presente na obra de José Saramago? E que Deus é esse?

Salma Ferraz - Ao longo de sua obra, ele vai apontando perfis de Deus que o incomodam. Em Terra do Pecado, seu primeiro romance, critica um Deus que não gosta de prazer e de sexo; em Memorial do Convento, critica aqueles que edificam grandes catedrais para Deus; na peça de teatro In Nomine Dei, critica as guerras que se fazem em nome de Deus. Finalmente em O Evangelho segundo Jesus Cristo, Saramago questiona o Deus de Amor que deixa que seu único filho seja crucificado e que não concede o perdão a Lúcifer.

IHU On-Line - Saramago empenha-se em desconstruir a concepção judaico-cristã de Deus. Que outras facetas o escritor ateu revela sobre Deus?

Salma Ferraz - Sua obra é uma catedral, ao longo da qual ele vai metodicamente desconstruindo a concepção judaico-cristã de um Deus justo e bondoso. As facetas reveladas apontam um Deus egoísta, que oferece seu filho único como sacrifício, não perdoa Lúcifer e castiga mais os justos do que os injustos.

IHU On-Line - Considerando que Saramago não acredita em Deus, qual é, para a senhora, a sedução que a discussão divina exerce sobre o autor?

Salma Ferraz - Mesmo sendo ateu, Saramago está imerso numa cultura que foi moldada pela ideia de Deus que está impregnada no DNA da civilização Ocidental. Você pode ser ateu, mas conhece a ideia de Deus. Isso seduz Saramago e faz com que ele produza, a partir desta ideia, as melhores páginas da literatura universal contemporânea.

IHU On-Line - Qual é a sua leitura da interpretação de Saramago sobre Deus?

Salma Ferraz - Para mim, o autor é seduzido pela ideia de Deus. Esta imagem, este personagem, esta entidade, provoca no autor uma mistura de admiração e angústia. Ele se comporta como se fosse uma espécie de quinto evangelista, que por meio da ficção é capaz de dar sua versão para os fatos.

IHU On-Line - Podemos identificar na obra de Saramago uma crítica ao Cristianismo?

Salma Ferraz – Sim. Para ele, o Cristianismo já nasceu com uma das mais violentas e sangrentas imagens da história da humanidade: Jesus pendurado numa cruz. Eu também questiono o fato de que a imagem que perdurou no Cristianismo foi a de Jesus crucificado e não a de Jesus ressuscitado. Voltando a Saramago, ele critica as mortes causadas pelo Cristianismo. No seu livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ele faz um dicionário tétrico de todos os mortos em nome da fé. É de assustar.

IHU On-Line - Na obra O Evangelho segundo Jesus Cristo, o autor apresenta Jesus a partir de uma perspectiva anti-religiosa. O que, na sua opinião, justifica o empenho de romancistas em revisitar e construir uma nova leitura sobre os textos bíblicos?

Salma Ferraz - Os personagens bíblicos são riquíssimos. Veja José vendido por seus irmãos, observe Moisés enfrentando o faraó, contemple Jó questionando a justiça de Deus. Aliás, a exegese que mostra Jó como uma pessoa humilde é errônea. Jó questiona a justiça de Deus e Deus se irrita, mostrando seu poder. Outro exemplo de riqueza e silêncio econômico é o episódio de Abraão e o sacrifício de Isaac. O texto bíblico é muito econômico nos detalhes. Que pensou Isaac quando seu pai levantou o cutelo? Como foi a vida dos dois depois disso? Esta riqueza faz com que estes personagens migrem das páginas da Bíblia para a ficção.

IHU On-Line - Para Saramago, Deus é culpado também pelos problemas da humanidade. Assim, ele apresenta um Deus humano?

Salma Ferraz - Para Saramago, os únicos deuses são os pobres seres humanos, anjos aleijados sem possibilidade nenhuma de levantar voo. Para ele, esta vida, só esta, já é muito trágica para que os humanos se preocupem com o que virá depois. Tudo o mais é muito pesado e angustiante.

IHU On-Line - A Literatura pode influenciar a percepção das pessoas sobre Deus?

Salma Ferraz - A Literatura faz perguntas para as quais a Teologia não tem resposta. Por que sofremos? Qual o futuro dos humanos? O Deus bíblico não é o mesmo da Literatura. O Deus bíblico se aceita pela fé enquanto o Deus da Literatura tem seu caráter e justiça questionados.

O ateísmo de Saramago II

Acho que foi Lobo Antunes que disse que esse é um assunto que, de tão íntimo e pessoal, é ousadia perguntar sequer sobre ele. Mas, entre copos bem bebidos de sangria, falámos da minha fragilidade naquele pedido, ou do que ela percebeu como o meu medo de desilusão e a necessidade disfarçada e consequente de afastar de mim o cálice, questionámos pais que olham à distância sem interferirem, como ausentes, a força do livre arbítrio nas escolhas do Homem, discutimos as cegueiras convictas na sua presunção arrogante de saber. Bem-aventurados afinal aqueles que percebem que é também o álcool que faz o mundo girar.

Somos pequenos demais, insignificantes demais, pretensiosos demais, e humanos, sobretudo humanos. E, por isso, uma tendência intrigante e esperançosa de que a vida tem que, obrigatoriamente, carregar em si um sentido que a transcenda, como fuga ao desespero, como lógica necessária capaz de caber, enquadrada e perfeita, nos nossos moldes. Não conseguimos aguentar em nós todo o deslumbramento. E daí a fé.

Não desprezo a fé, qualquer que ela seja, mas considerando até o seu próprio conceito, recuso-me a tomá-la como evidência ou único possível caminho e irritam-me solenemente aqueles que têm discursos baseados no proselitismo e contentamento com o regresso dos filhos pródigos, num mundo dividido em certos e errados, ignorantes e iluminados, fanáticos e coitados, bons e maus, crentes e não-crentes, nós e os outros.

Não consigo aceitar uma dor ininteligível, não sei entender uma suposta omnipotência que tão pouco pode ou um pai afinal tão despreocupado com os seus filhos. Gostava de compreender mas não compreendo, procuro mas não encontro, tento mas tudo é inútil. Não professo então um ateísmo caprichoso e orgulhoso de si, mas apenas a resignação de não poder aliviar o peso de existir na crença, ilusão segura. Como em Saramago ou Vergílio Ferreira, se associações são pertinentes, a busca está em não o dizer - num a revolta e a denúncia, noutro o desalento de estar só e, em ambos, uma religiosidade entranhada como golpe final, impiedoso e irónico do próprio que assim se manifesta e grita em cada palavra: existo.

O perigo de qualquer definição é a limitação mas, atrevendo-me a isso, diria que sou uma ateia numa busca religiosa e obvia e absolutamente pagã.

Não tenho certezas de nada e admito as possibilidades em aberto, porém, prefiro tentar compreender para poder acreditar ao invés de acreditar para tentar compreender. Prefiro estar numa permanente dúvida a acreditar numa falsa certeza. Amo a dúvida como quem ama a verdade.

O ateísmo de Saramago I

"Uma fé que não duvida é uma fé morta."
Miguel de Unamuno


“Não sou um ateu total, todos os dias tento encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não o encontro.”
José Saramago


"Na cova do lobo não há ateus."
Provérbio húngaro

Sinais (medo, muito medo)

Depois de ter publicado o post anterior, apareceu-me isto:

O ateísmo de Saramago

"Deus regressa com Saramago, no seu novo romance a publicar em Outubro. É um tema que levanta suspeitas – Saramago é ateu mas os seus livros supõem um sentimento religioso. Ao contrário de Richard Dawkins, por exemplo, que é ateísta militante e para quem a ideia de Deus não apenas é absurda como, ainda por cima, está na origem dos males do mundo. Saramago pode não andar longe, mas há um halo, uma respiração, um apelo do indizível e do invisível, os lugares onde Deus podia habitar: no meio do deserto ou na noite escura dos tempos, antes de os homens lhe terem emprestado o gene da crueldade e da vingança, e de se terem organizado em religiões rivais e exclusivas (“onde estou eu não podes estar tu”). Acontece que a ideia de Deus ou está em nenhuma parte ou em todo o lado."

nas Crónicas de Francisco José Viegas

A teeny tiny possibility



PHOEBE: Ok, look, before you even start, I'm not denying evolution, ok, I'm just saying that it's one of the possibilities.

ROSS: It's the only possibility, Phoebe.

PHOEBE: Ok, Ross, could you just open your mind like this much, ok?
Wasn't there a time when the brightest minds in the world believed that the world was flat? And, up until like what, 50 years ago, you all thought the atom was the smallest thing, until you split it open, and this like, whole mess of crap came out. Now, are you telling me that you are so unbelievably arrogant that you can't admit that there's a teeny tiny possibility that you could be wrong about this?

ROSS: There might be, a teeny, tiny, possibility.

Tabu

Sinto-me dividida em dizer-to mas se não o dissesse agora acreditarias numa falsa verdade: não é um regresso ou uma conversão, é tentar desesperadamente tudo. Desculpa dizer-to com esta frieza de fase de negação ante toda a tua fé inabalável, mas não posso jamais acreditar em razões insondáveis ou fins últimos para o sofrimento e o mal. Sei que me tentas reconfortar mas esse é só o argumento plausível, mas ilógico, para o inexplicável, só porque precisamos fortemente de um motivo que nos tranquilize e nos permita viver em paz neste mundo condenado. Não há motivos que se excedam em si mesmos para justificar a loucura do Mundo e a dor dos Homens. Mas, neste momento, só me resta confiar. Confio em ti. E, mesmo que não me compreendas, mesmo que eu não te compreenda, agradeço-te com tudo o que de mais puro possa haver em mim e abraço-te na cumplicidade do que ficou e ainda nos basta.

(E, mais que a alguém, dói-me a certeza de saber que este será sempre um tema tabu entre nós...)

Teologias



(Será que Deus é bissexual?)

Portela


Nunca tinha ido à Portela. Além do aspecto verde, colorido e simpático que não esperava, o que mais me surpreendeu foi a arquitectura da sua Igreja (católica, imagine-se), totalmente imponente e singular. Quase me senti noutro País. Não tive tempo para poder sequer olhá-la com atenção mas acho que vou lá voltar, com calma, só para poder conhecer o seu interior.

Os livros mudam vidas


Publicidade da Livraria Pocho (Uruguai), via Vísceras Literárias

Insónias

"A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insónia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, o sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência - e uma mensagem positiva. Recomendo «Génesis» pelo ímpeto narrativo, «O cântico dos cânticos» pela poesia e «Isaías» e «João» pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse."

Luís Fernando Veríssimo

Opus Dei

"É uma questão de perspectiva da pessoa humana. Igualar direitos civis, tudo bem, mas o que significa essa igualdade? Estar a tratar de maneira igualitária situações que são diferentes é uma injustiça."


Entre as muitas curiosas afirmações de José Rafael Espírito Santo (Opus Dei) destaco esta. Mas ide ler as outras, vale a pena.

Ati

Não acreditava em Deus. Na hora das despedidas em vez de dizer "adeus" dizia "ati". É muito mais fácil ter alguém a tomar conta de nós, não é?