Conseguir aceitar desculpa é tão importante quanto conseguir pedi-la. É um bálsamo: não cura, mas alivia.
Desculpa qualquer coisinha.
Em mais de trinta anos, não me consigo lembrar de uma vez em que me tenha pedido desculpa. Agora, que tem o chapéu e o capote, os sonhos pequenos e os maiores resolvidos, só posso então preocupar-me.
Não é doce a saudade em Portugal?
Penso mais vezes nela do que seria esperado, nem sei bem porquê. Talvez por ter sido a primeira vez que a amizade me falhou. Talvez por se ter tratado de um abandono e de nunca ter sido abandonada sem justificações ou a previsível lógica do tempo. Neste caso, não era ainda o tempo de nos separarmos, entregues cada qual ao pretexto dum futuro com ecos de sucesso, mal-amanhada e combativa imitação da vida. Nem sequer vi qualquer sinal que pudesse indiciar que chegara o tempo. A sua súbita ausência encontrou-me desprevenida e talvez seja por isso que mais a noto. Não lhe reconheço legitimidade.
Fez anos e olhei-a ao longe, desejando com força que tenha passado um dia feliz. Somos modernas: em breve combinaremos um café ao qual nenhuma de nós comparecerá.
Eu perguntei-lhe: como se mede uma raiz?
Há momentos assim, de avalanche emocional, em que ao mínimo movimento o mundo nos desaba num incremental de levar tudo à frente. Aquilo não importava assim tanto, mas despoletou o que se ia acumulando em surdina. Nessa noite, tão prolongado já o silêncio, chorou desalmadamente. No dia seguinte, sob as pálpebras doridas e inchadas, reconheceu o indiferente comentário da mãe que lhe gritava em pequena “chora, que isso passa” e apercebeu-se que “desalmadamente” é uma palavra bela.
Da vítima que se torna predador, ao filho no lixo, aos colaboracionistas nazis.
As “circunstâncias da vida” obrigam, mas não legitimam.
O programa de intimidades ou Isto já não é um programa, é um deboche II
Foge daqueles que se apresentam começando pelas cruzes que carregam e que gostam de contar pelos dedos as pedras no caminho, o muito pão que o diabo amassou em aguerrida competição pelo prémio de mais coitadinho. Livra-te daqueles que se definem pela dor. Que a dor nunca te seja pretexto nem lugar de chegada.
O programa de intimidades ou Isto já não é um programa, é um deboche I
Elas são vítimas, teatrais, superficiais, incoerentes, cautelosas. Eles são prestáveis, educados, honestos, abertos, sensíveis. Homens que falam de amor e que sabem o que procuram. Deve ser desorientador para certas pessoas não terem estereótipos a que se agarrarem.
O programa de intimidades ou Isto já não é um programa, é um deboche.
São perfeitos um para o outro. Só não existe atracção física, o tal upgrade. “Só”.
julgas saber que o amor acarreta alguma tristeza quando só acarreta alguma distracção.
Que a tua ausência me seja sempre estranha.
e mais depressa volto à tua descrição, és o meu dentro.
eras daquelas raras pessoas que não podem ser imaginadas, e isso é um excesso, a camisa de um algodão marinho, as calças de bombazina malva que adquiriam outra cor e outra geografia quando por elas passavas as mãos, tudo podia ser descrito, tudo em ti era uma interminável descrição, cada zona do corpo, cada sorriso, desenvolviam-se lentos como o acto de os dizer, na verdade isto tornava-te alucinante, sempre admiti passar a minha vida na tarefa minuciosa de explorar os teus pormenores, todas as tardes neste café, por parede um vidro com insectos nele pousados e variáveis com as estações, ampliar-te, ampliar-te nesta reconstrução, até completamente te perder
Rui Nunes, Osculatriz
(no fundo, pouco faço mais do que isso. documento a tua biografia. meu dentro.)
não sabias que há paragens que não são mais que despedidas.
sou o lugar que os teus pormenores percorrem indiferentes e sofro quando os dedos param no interior da hesitação, vivo na ruptura dos teus gestos
conseguirei alguma vez salvar-te da exclusão e restitui-te à doçura do enigma?
Deus só responde à morte alucinante, porém nós morremos da violação dos pequenos contratos e sabemos que o olhar de Deus não tem desvio
Rui Nunes, Osculatriz
(pequeníssimo contrato)
O fogo: a trajectória das coisas.
Falam do amor, “o verdadeiro”, o que resiste, o que é para sempre. Oiço-as em inquietude e surpresa e não sei se me maravilha mais a sua ingenuidade ou a sua esperança. Falam do amor que não acaba e eu penso que se enganam logo à partida, pois o amor acaba sempre. Simplesmente há quem fica apesar do amor ter acabado e quem parte por o amor ter acabado. A constante, porém, é a mesma. Acaba.
Só as crianças eram resistentes como paradoxos.
Apontas para o umbigo e dizes coisas como “a minha barriga tem fome de polvo cozido.”
Podia-se morrer disso. E tínhamos o tempo todo para ver.
Quem vive para o amor está lixado
não tarda, que o amor é um amplo espaço
vazio sem cor nem forma e um silêncio
tumular por dentro. Mau, muito mau
para se levar alguém. Mas tu vieste
e de imediato tudo fôra já decidido
como quando alguém nasce e olha em torno
– pouco importa se estranha ou não a paisagem.
Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos
a nós, um ao outro por natural companhia
era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
disso. E tínhamos o tempo todo para ver.
Rui Caeiro
não tarda, que o amor é um amplo espaço
vazio sem cor nem forma e um silêncio
tumular por dentro. Mau, muito mau
para se levar alguém. Mas tu vieste
e de imediato tudo fôra já decidido
como quando alguém nasce e olha em torno
– pouco importa se estranha ou não a paisagem.
Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos
a nós, um ao outro por natural companhia
era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
disso. E tínhamos o tempo todo para ver.
Rui Caeiro
Delusional: it’s not reality until you avoid it.
Reconheço seres o meu delírio mais flagrante, o inverossímil mais bonito da minha ficção. Sei que deliro ao chamar-te casa e que é absurdo que não consiga avançar. O que sinto é ilegítimo. Finjo não reparar nas fronteiras ainda que estas me rasguem. Evito a pergunta que arde. Foi sempre o fogo, o caminho. Quanto me custará o amor?
“Queres ser feliz ou saber a verdade?”
Sei da parte mais incorruptível em nós. O que se faz porque o coração quer, de coração aberto. Quando foi que a nossa escolha deixou de ser segura? A nossa junta de dilatação vai gasta, aguenta cada vez menos, e a mágoa engana. O cansaço pesa e mata. Não menosprezo o dano que nos causamos.
É tão frágil tudo, amor. Tão arriscado cada gesto, o limite de uma palavra. E os momentos são tão breves. Distraímo-nos e passa um dia, uma semana, um mês, uma vida. E tenho medo. A ideia de não ficares aterroriza-me. Não preciso da razão, mas preciso de ti, da paz que vem de ti.
Há um sítio dentro de mim que te pertence e que te espera. Que não seja tarde até que nos apercebamos. Que não me custe a amizade.
Amigos, amigos, negócios à parte.
Acreditei que conseguiríamos contrariar o ditado, o mundo e com ele quem quer que não nos acreditasse. Falhámos logo ao primeiro teste.
Strange thing called love.
O amor também é isso: ouvir-lhe a mesma história mil vezes e em todas fingir surpresa.
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