Happens to the heart.

Vê um bolo sobre a mesa e pergunta de imediato sobre quem faz anos. A felicidade é ela a bater palmas e a soprar um aniversário imaginado.

We always hurt the ones we love.

Estava magoada ou, a ser mais precisa, estava muito magoada. Sabia que naquele encontro havia risco, não apenas contenção de dano. Havia um forte risco de reacendimento. Porém, ao vê-la caminhar em direcção a si, lembrou-se daquilo que aconselhara a outros tantas vezes. “A vida é o que tu fizeres dela”, aforismo simplório de cartilha. Nesse espaço de segundos, decidiu que o dia era uma página em branco. Não esqueceu. Continuava magoada. Porém, tinha decidido que aquele seria um dia bom. E, por causa dessa decisão, foi.

Não te quero ganhar.

De acordo com Carse e a teoria dos jogos, existem dois tipos de jogos: finitos e infinitos. Um jogo finito é jogado pelo propósito de ganhar; um jogo infinito, pelo propósito de continuar a jogar.

As simple and as complicated as that.

Talvez a maturidade também seja isso: não deixar de pesar, que mais tarde ou mais cedo pesamos sempre, mas antes ser capaz de reconhecer o desequilíbrio entre o que se dá e o que se recebe e aceitá-lo sem perturbação. Confunde-se facilmente com a resignação. Invejosos dirão que é a mesma coisa.

LHR-CPH

Adormeci durante o voo para acordar, minutos depois, com ele a dormir sobre o meu ombro. Era um homem bonito. Jovem, cara de sagaz, ambição, pouca conice. Talvez também fosse consultor ou outra espécie dentro do busyness. E lembrei-me de quantas vezes também o meu irmão adormecia no meu ombro, no carro. De como, noutra vida, me levantava para ir desligar-lhe a televisão no quarto, ele já num longo sono. Agora o meu irmão terá a idade deste desconhecido, talvez.

Mexi-me só muito levemente, para que acordasse, e fingi que dormia ainda. Não valia a pena colocar-nos numa situação embaraçosa para os dois.

Dos bálsamos.

Conseguir aceitar desculpa é tão importante quanto conseguir pedi-la. É um bálsamo: não cura, mas alivia.

Desculpa qualquer coisinha.

Em mais de trinta anos, não me consigo lembrar de uma vez em que me tenha pedido desculpa. Agora, que tem o chapéu e o capote, os sonhos pequenos e os maiores resolvidos, só posso então preocupar-me.

Não é doce a saudade em Portugal?

Penso mais vezes nela do que seria esperado, nem sei bem porquê. Talvez por ter sido a primeira vez que a amizade me falhou. Talvez por se ter tratado de um abandono e de nunca ter sido abandonada sem justificações ou a previsível lógica do tempo. Neste caso, não era ainda o tempo de nos separarmos, entregues cada qual ao pretexto dum futuro com ecos de sucesso, mal-amanhada e combativa imitação da vida. Nem sequer vi qualquer sinal que pudesse indiciar que chegara o tempo. A sua súbita ausência encontrou-me desprevenida e talvez seja por isso que mais a noto. Não lhe reconheço legitimidade.

Fez anos e olhei-a ao longe, desejando com força que tenha passado um dia feliz. Somos modernas: em breve combinaremos um café ao qual nenhuma de nós comparecerá.

Eu perguntei-lhe: como se mede uma raiz?

Há momentos assim, de avalanche emocional, em que ao mínimo movimento o mundo nos desaba num incremental de levar tudo à frente. Aquilo não importava assim tanto, mas despoletou o que se ia acumulando em surdina. Nessa noite, tão prolongado já o silêncio, chorou desalmadamente. No dia seguinte, sob as pálpebras doridas e inchadas, reconheceu o indiferente comentário da mãe que lhe gritava em pequena “chora, que isso passa” e apercebeu-se que “desalmadamente” é uma palavra bela.

Da vítima que se torna predador, ao filho no lixo, aos colaboracionistas nazis.

As “circunstâncias da vida” obrigam, mas não legitimam.

O programa de intimidades ou Isto já não é um programa, é um deboche II

Foge daqueles que se apresentam começando pelas cruzes que carregam e que gostam de contar pelos dedos as pedras no caminho, o muito pão que o diabo amassou em aguerrida competição pelo prémio de mais coitadinho. Livra-te daqueles que se definem pela dor. Que a dor nunca te seja pretexto nem lugar de chegada.

O programa de intimidades ou Isto já não é um programa, é um deboche I

Elas são vítimas, teatrais, superficiais, incoerentes, cautelosas. Eles são prestáveis, educados, honestos, abertos, sensíveis. Homens que falam de amor e que sabem o que procuram. Deve ser desorientador para certas pessoas não terem estereótipos a que se agarrarem.

O programa de intimidades ou Isto já não é um programa, é um deboche.

São perfeitos um para o outro. Só não existe atracção física, o tal upgrade. “Só”.

Alta definição ou Esta música não me acende.

Pessoas que dizem “Xri Lanka” em vez de “Sri Lanka”.

Amar-te é saber que nenhuma palavra te acompanha.


julgas saber que o amor acarreta alguma tristeza quando só acarreta alguma distracção.

Que a tua ausência me seja sempre estranha.

e mais depressa volto à tua descrição, és o meu dentro.

eras daquelas raras pessoas que não podem ser imaginadas, e isso é um excesso, a camisa de um algodão marinho, as calças de bombazina malva que adquiriam outra cor e outra geografia quando por elas passavas as mãos, tudo podia ser descrito, tudo em ti era uma interminável descrição, cada zona do corpo, cada sorriso, desenvolviam-se lentos como o acto de os dizer, na verdade isto tornava-te alucinante, sempre admiti passar a minha vida na tarefa minuciosa de explorar os teus pormenores, todas as tardes neste café, por parede um vidro com insectos nele pousados e variáveis com as estações, ampliar-te, ampliar-te nesta reconstrução, até completamente te perder

Rui Nunes, Osculatriz 

 (no fundo, pouco faço mais do que isso. documento a tua biografia. meu dentro.)

não sabias que há paragens que não são mais que despedidas.

sou o lugar que os teus pormenores percorrem indiferentes e sofro quando os dedos param no interior da hesitação, vivo na ruptura dos teus gestos

conseguirei alguma vez salvar-te da exclusão e restitui-te à doçura do enigma?

Deus só responde à morte alucinante, porém nós morremos da violação dos pequenos contratos e sabemos que o olhar de Deus não tem desvio

Rui Nunes, Osculatriz 

(pequeníssimo contrato)

O fogo: a trajectória das coisas.

Falam do amor, “o verdadeiro”, o que resiste, o que é para sempre. Oiço-as em inquietude e surpresa e não sei se me maravilha mais a sua ingenuidade ou a sua esperança. Falam do amor que não acaba e eu penso que se enganam logo à partida, pois o amor acaba sempre. Simplesmente há quem fica apesar do amor ter acabado e quem parte por o amor ter acabado. A constante, porém, é a mesma. Acaba.

Só as crianças eram resistentes como paradoxos.

Apontas para o umbigo e dizes coisas como “a minha barriga tem fome de polvo cozido.”

Do you feel damaged just like I do?


Podia-se morrer disso. E tínhamos o tempo todo para ver.

Quem vive para o amor está lixado
não tarda, que o amor é um amplo espaço
vazio sem cor nem forma e um silêncio
tumular por dentro. Mau, muito mau
para se levar alguém. Mas tu vieste
e de imediato tudo fôra já decidido
como quando alguém nasce e olha em torno
– pouco importa se estranha ou não a paisagem.
Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos
a nós, um ao outro por natural companhia
era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer
disso. E tínhamos o tempo todo para ver.

Rui Caeiro

Delusional: it’s not reality until you avoid it.

Reconheço seres o meu delírio mais flagrante, o inverossímil mais bonito da minha ficção. Sei que deliro ao chamar-te casa e que é absurdo que não consiga avançar. O que sinto é ilegítimo. Finjo não reparar nas fronteiras ainda que estas me rasguem. Evito a pergunta que arde. Foi sempre o fogo, o caminho. Quanto me custará o amor?

Queres ser feliz ou saber a verdade?

Sei da parte mais incorruptível em nós. O que se faz porque o coração quer, de coração aberto. Quando foi que a nossa escolha deixou de ser segura? A nossa junta de dilatação vai gasta, aguenta cada vez menos, e a mágoa engana. O cansaço pesa e mata. Não menosprezo o dano que nos causamos.

É tão frágil tudo, amor. Tão arriscado cada gesto, o limite de uma palavra. E os momentos são tão breves. Distraímo-nos e passa um dia, uma semana, um mês, uma vida. E tenho medo. A ideia de não ficares aterroriza-me. Não preciso da razão, mas preciso de ti, da paz que vem de ti.

Há um sítio dentro de mim que te pertence e que te espera. Que não seja tarde até que nos apercebamos. Que não me custe a amizade.

Amigos, amigos, negócios à parte.

Acreditei que conseguiríamos contrariar o ditado, o mundo e com ele quem quer que não nos acreditasse. Falhámos logo ao primeiro teste.

Strange thing called love.

O amor também é isso: ouvir-lhe a mesma história mil vezes e em todas fingir surpresa.