O coração sempre a alargar II

Não sei como, passou a chamar-me pelo meu nome próprio: “Maíxa”, que é o mesmo que dizer-se “Marisa”. Separam-nos décadas, que é mesmo que dizer-se milhões de horas, mas tratamo-nos como iguais.

O coração sempre a alargar I

Nota uma borbulha na testa do pai, um dói-dói e, por isso, dá-lhe beijos e festas. Convenço-a a ir procurar um penso para o dói-dói e ela sai determinada como quem leva uma missão. Não encontra. Não há. Então, puxa o adesivo autocolante que segura a própria fralda e tenta colocá-lo na testa do pai. Já está. Se a necessidade aguça o engenho, é o amor que o guia.

O coração sempre a alargar.

Por cortesia e costume, todos perguntam quando volto, numa generalidade de interesses vários que não se compromete, mas que fica bem dizer em voz alta. Já ele, tem-me um amor concreto. O mesmo que lhe reconheço no aperto do abraço ou quando pede à mãe para sentar-se ao meu lado enquanto conduzo ou, no restaurante, quando diz que quer comer o mesmo que eu: não me pergunta quando volto, mas se posso voltar amanhã.

My body is a temple.

Habitamos um corpo. Pagamos renda. Não, não é o teu corpo nem são as tuas regras. O corpo, se o vires bem, não te pertence. É um contrato temporário. Como todos os espaços, está sujeito a infiltrações, disputas, humidades, danos vários. Habitamos um corpo e isso é belo e aterrador.

Quanta vida perdem as pessoas à espera de elevadores?

Por uma vez, a tua voz assusta-me. Já tu, não perdes tempo a pensar no que é e no que pode ser. O pânico contagia e és quem me acalma quando deveria acalmar-te eu. Não te interessam as implicações ou as explicações. As coisas são o que são. Conheces melhor e conheces pior. Vem sentar-te comigo, Lídia. Mesmo que tudo ruísse agora e o amanhã, como todos os dias, não fosse uma certeza. Não é paciência, pois tens as tuas doses. Nada apressas que não faça sentido apressar. Não se trata de impavidez. Terás medo. Terás paixões. A verdade é que estou rodeada de pessoas gerais e a diferença seduz-me e intriga-me. Nunca conheci ninguém como tu.

De toda a maneira, não.

Há ocasiões em que a experiência importa muito pouco. Eu, por exemplo, nunca hei-de saber lidar com a rejeição. Sobretudo a tua.

A dar, se der.

É duma ironia trágica que tenha por função diária o zelo e o evangelho do planeamento na minha vida profissional e que este me falhe tão redondamente na minha vida pessoal, qual espeto de pau. Não planeio assim tanto nem tantas vezes, alguma coisa terei aprendido, mas, ainda assim. A roupa nova, o cabelo novo, as botas novas, o carro novo, a vontade nova, a melhor versão de mim. A vila, o palácio, o jantar, o concerto, a primeira fila, a canção apropriada, a mensagem pronta a enviar há meio ano, quem sabe até, porventura, encontrada a frequência certa, o gosto da boca, mais tarde. Na minha cabeça, estava tudo certo. Simples e certo. Mas, a vida.

Depois, é claro, sucumbo à esperança dos tristes. Tríade dos Vs, aprendi há dias na televisão, e talvez seja isso. A ideia de justiça, merecimento, e duma qualquer compensação que aguarda. Uma balança finalmente equilibrada. O meu ridículo consistia, já há anos, em jogar no Euromilhões depois de fazer o exame de Matemática Aplicada e as Estatísticas. Também desta vez caí na armadilha. Espero uma compensação. Não sei onde nos vendem isto.

M1

Violadores, suicídios, homicídios, gays, lésbicas, transsexuais, bêbados, beatas, doentes, doutores: a minha pequena aldeia está cada vez mais globalizada e moderna. Já dá para um livro.

Quando regresso.

Saudade é o cheiro da roupa lavada pela minha mãe a encher-me o vazio do quarto.

Levava-te no meu cockpit.

Maturidade talvez seja também isso: aceitar que as amizades – e os segredos, novidades, medos, tudo o que lá cabe dentro e em tempos tomámos por direito pertencer-nos – não se organizam por prioridade, mas por proximidade. A amizade tem um contexto que não é especial, mas espacial, argumentou ela. O assunto importava, eu importava, mas eu estava longe.

Quem é que te deu banhada?

Há ocasiões em que ser segunda opção é melhor do que não ser opção. Não o desvalorizes.

A gin and a tonic.

Diz-me que gosta muito daquilo que faz, que não me engane, mas que a vida não é só aquilo e que há decisões que se devem tomar sem olhar para trás. Para ela, bastaria um gin tónico para, num ápice, largar tudo.

Do que não chegou a ser.

Perguntaram do negócio e pensei que, nestas coisas, tudo se resume a uma simples questão de posicionamento do sujeito: quem diz “eu bem te avisei”, se tu, se eles.

Dos bobos: o não-linear.

Apresentou-se como disruptivo: numa conferência de engravatados, ele ia de t-shirt e de sapatilhas azuis. Oh, quanta disrupção! Depois queixou-se que ninguém lhe deu atenção, deslumbrados todos com o vulto internacional, quando ele, o disruptivo, enche auditórios em Castelo Branco como quem estala os dedos.

Be so good they can’t ignore you.

Quando filho é bonito, toda a gente quer ser pai.

Ninguém sabe o que é o amor.



Eu quero partilhar a vida boa com você.

O senhor clique não existe.

Mas ela sabe, de poemas e de canções, qual o verso que me agarra.

A família é uma forma testada de felicidade.

Vê-los crescer poderá muito bem ser a maior bênção da minha vida.

Quanto mais medo temos, mais sobrevivemos.

Vem sem aviso e deixa-se ficar. Ronda-me a porta, sei que espera a queda. Acordo consigo já deitado aos meus pés. O medo cria medo, lembra-te disso. Se suceder que entre, que não se acomode. Por tudo, não o alimentes.

Parece uma doutora.

Sou respeitada na minha área, trabalho com gigantes, estou num doutoramento, convidam-me para falar em conferências no estrangeiro. Mas, o que realmente impressiona os meus pais, é eu ter um blazer que me assenta bem.