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Sometimes I can't believe it I'm moving past the feeling.

O que dura deteriora-se e acaba por apodrecer, aborrece-nos, vira-se contra nós, satura-nos, cansa-nos. Quantas pessoas que nos pareciam vitais nos ficam pelo caminho, quantas se nos esgotam e com quantas se nos dilui o convívio sem aparente motivo nem, sem dúvida, um motivo de peso. As únicas que não nos falham nem defraudam são as que nos são arrebatadas, as únicas que não deixamos cair são as que desaparecem contra a nossa vontade, abruptamente, e por isso não têm tempo para nos dar desgostos ou nos decepcionar. Quando isso acontece desesperamo-nos momentaneamente, porque julgamos que poderíamos ter continuado com elas muito mais, sem lhes marcar prazo. É um equívoco, embora compreensível. O prolongamento altera tudo (...).

in Os enamoramentos, Javier Marías

Dos ex-amigos: casos de estudo.

O caso Linda Tripp é arquétipo do privilégio da amizade: conseguimos perdoar um presidente que abusou do seu poder, mas não uma mulher comum que traiu uma amizade.

Dos ex-amigos.

A amizade é o lugar sacrossanto do amor, a sua parte destilada, racional, intocável. Talvez por isso nos seja mais fácil falar de ex-namorados/maridos do que de ex-amigos. E, todavia, constituem ambos casos uma relação e por isso dotada de princípio, meio e fim que não nos deveria espantar. Chamemos as coisas pelos nomes.

Fingimo-nos sempre outros, para outros. Afinal, dispersamos somente a solidão.

Não disseco o valor das minhas amizades. Tenho medo que não resistam à autópsia.

“Amizade passa sempre”, li.

Todas as relações são imaturas se não lhes dermos tempo para crescer. Todas as relações terminam se lhes dermos tempo para crescer.

I have stories and scars to tell.

Há quem se afaste por causa de irreparáveis discussões, culpas demasiado pesadas, segredos insuportáveis. Há quem se afaste por causa de mal-entendidos, feridas que não saram ou já paliativos que não chegam. E há o tempo, claro. Há quem se afaste tão-somente porque era tempo. És, no rol de amizades, um dos meus fracassos mais óbvios. Eu não sei, nunca soube, a razão porque te afastaste. Já perdi, esqueci e fui esquecida por muita gente, mas acho que é por isso mesmo que perduras mesmo já tendo passado anos desde a última vez que nos vimos. A tua ausência intriga-me. O que está fora do nosso controlo não ameniza, não desculpa, muito menos perdoa. Desta amizade, temo que, desfeita a dúvida, já só fique a sobrar tempo.

Nós somos a inocência do grito.

A olhar-me fixamente nos olhos, numa voz que era metade de surpresa e outra de desilusão, disseste, como quem acorda numa epifania "nós afinal pensamos de forma muito diferente". Eram perguntas fundamentais, esclareça-se, sobre destinos e deuses. E o que me surpreendeu a mim, mais do que não soubesses de antemão a minha resposta, foi que tivesses demorado até aqui para chegar a essa conclusão. 

 (mas vieste, e isso, não esqueço.)

Da amizade: como uma pita estúpida e porca.

Existem relações abusivas e existem pessoas que abusam de relações. Lembra-te que as relações têm limites, não se devem permitir a tudo.

Amozade.

A palavra veio enganada, o seu sentido não.

Nem ai nem ui.

Retorquimos reticências, indisponibilidades, pequenas mentiras de mitigar a dor. Usamos do disfarce que melhor nos abrigue de, a todo o custo, a qualquer custo, admitirmos a inutilidade daquele laço. Os laços são-no porque se fazem e se desfazem e a maior desfeita é este laço desfeito. Haveremos de julgar o tempo antes de nos julgarmos. Não chegava a ser uma ferida aberta, mas podia ser um incómodo. Algo em que reparávamos só de vez em quando e sem prestar demasiado atenção, algo que haveria de passar. E a verdade é que passou. Nem doeu. Não era, afinal, um incomódo assim tão grande nem um laço assim tão apertado.

Como diz o diretor do doutoramento, engenheiro pouco interessado nas formalities, o que interessa é os results.

Sou uma pessoa altruísta e utilitária: apenas mantenho Instagram para que as minhas amigas possam participar de sorteios de todo o género, marcando-me.

Todas as palavras são um excesso. Todas as relações são frágeis.

É certo que as relações têm fronteiras, limites mais ou menos conhecidos, mas não precisas de lhes tocar para lhes confirmar o tamanho. Ou, se o fizeres, prepara-te para que as margens se estreitem no regresso. Não queiras entrar no rio apenas para testar a sua profundidade. Arriscas-te a perder o pé.

RF, muito prazer.

Passámos uma pela outra e não nos reconhecemos e isto poderia ser uma metáfora se não fosse a mais pura triste verdade.

Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.

A amizade é um ritual à espera do tempo. Há quem tente contrariá-lo, há quem se embale à deriva. Todos o alcançam.

DJ Portuguesinha

Conta sempre com emoção sobre o dia em que nos conhecemos. Não a abracei apenas por decoro.

Levava-te no meu cockpit.

Maturidade talvez seja também isso: aceitar que as amizades – e os segredos, novidades, medos, tudo o que lá cabe dentro e em tempos tomámos por direito pertencer-nos – não se organizam por prioridade, mas por proximidade. A amizade tem um contexto que não é especial, mas espacial, argumentou ela. O assunto importava, eu importava, mas eu estava longe.

O meltdown e o resplandecente dos girassóis do Vincent.

Questionava-me, intrigada, como era possível que Van Gogh sofresse de um quadro depressivo, mas pintasse com cores tão vivas e felizes. E com isto fiquei eu intrigada por ela não notar que também ela é um pouco assim.

Do elogio mais bonito.

“Quero que escrevam sobre mim como ela escreve sobre ela.” 

Se me puderes ouvir, prefere porém o amor, não as palavras.

Mensagem.

Não sei porque gosta tanto de mim, mas sei que as melhores relações são aquelas que persistem sem o acessório de uma explicação.

Do fosso.

Quando escolheu ser mãe, o seu caminho deixou de coincidir com a expectativa dos outros. Ser mãe, com todas as implicações de ser mãe, foi como se houvesse desistido de quem poderia ser e optado pelo caminho mais fácil, simples, previsível, o caminho das pessoas normais, caminho dos outros. Aquela decisão gerou um fosso, diz-me. Subitamente, o futuro desalinhou-se do passado, inúteis afinal os passos perfeitos, quando o porvir resultou tão diferente. O fosso eram os tempos verbais a trocarem-lhe as voltas ao destino.