Agora fecha os olhos e olha.

Uma vida inteira só no verbo estar.

Como ele escreveu, era uma questão de haver mar. Uma questão de enlouquecer. “O lugar onde nada se cria, tudo se transtorna.” Nada acontece aqui. Aqui é um lugar de restos, daquilo que não caberia em mais lado nenhum, bagagens de formato irregular, máquinas de lavar podres e já sem tambor e colchões manchados de nódoas para os empregados da Câmara levarem a custo no dia quinze de cada mês. Aqui, o insuportável. Seja por excesso ou por défice, embora esta distinção pouco importe uma vez que o que nos falta é o que mais nos pesa, santa ironia. E o pior é que a utilidade das palavras é sempre dúbia. Quando foi a última vez que as tuas palavras lhe deram tesão, por exemplo? Tinhas tanta orgulho disso, como se fosse o maior prémio literário a que poderias ambicionar. Quando foi que lhe trouxeram paz e certeza? São, na sua maioria, equívocos dispensáveis, desperdícios a que limpar as mãos no fim do trabalho. Hoje em dia estou ocupada a estar. Não é um verbo simples, pede tudo. Era isto ou a vida.

Há mar e marasmo, há ir e voltar aforismo.

Nunca lembramos nem esquecemos tudo. Somos mais o que lembramos ou as memórias que perdemos, por esforço ou instinto? O movimento exige esquecimento, disse ela, e a verdade é que nunca chegamos a completos, avançamos mutilados e claudiquando pela vida fora, uns mais conscientes do que outros. Definidos pela lembrança ou esquecidos de quem fomos e do que nos sucedeu é então como forjar uma identidade, um novo ser avulso a quem cortaram um membro. Mas não reconhecerá a lagartixa a sua cauda mesmo quando a cortam?

A gente só nasce quando somos nós que temos as dores.

O que pode ainda importar, quando o chão nos foge debaixo dos pés? Há o susto e há o medo de novo a rondar a ferida. Não sei quem de nós melhor o disfarça. As palavras estão usadas, os precipícios são demasiados. E há coisas que não quero escrever, pois a simples ideia delas esmaga-me o peito e deixa-me sem ar. O silêncio molda-se ao corpo, torna-se artifício. Aceleramos a dor e o passo para que passe. Meu amor, quero tanto falar-te e não sei como. Haverás de circundar tudo isto como um inconveniente breve, sei e espero. A tua força, real ou pretensa, fará os seus truques e o resto pedimos ao mar. A minha mão nunca se soltou da tua, e olha que já lá vão anos, e é por isso que sei que vai ficar tudo bem. Fica forte.

Houvesse frases de atravessar as coisas intactas.

O coração é um músculo contido. Era preciso voltar a ritmar o coração, inspirar-lhe um qualquer ímpeto como no sopro criador de deus. Há dias em que não me atrevo a sentir. Mas, se me olhasses, bastaria. Eu seria como cerejas na primavera.

Tu já sonhaste o nome dos lugares.

Embevece-se quando um estranho a chama “campeã”. Afirma, corajosa e repetidamente “eu nunca vou desistir!”, mesmo que lhe explique que por vezes desistir não faz mal, é, aliás, a melhor opção. E ele, que a segue religiosamente e que dá os beijos mais sonoros e cheios de intenção que conheço e riem no riso um do outro. Repetem até à exaustão as mesmas brincadeiras e sonham lugares que ainda não conhecem, mas de que já sabem o nome. São universos em expansão.

The Yeatman: está programado.

Quem diz que o dinheiro não traz felicidade nunca ouviu o teu riso mineral quando os dias são de verde. Porra, sou tão feliz no teu riso nesses dias!

Lei dos rendimentos decrescentes.

Tornei-me complacente. Nem é uma questão de preguiça, apenas. Talvez somente a realização de que para tudo há um momento, as provas que dei terão de bastar. O espetáculo da estrela vem do seu brilho pujante e, todavia, efémero. A roda reinventa-se em eterno retorno e o tempo discerne o urgente do importante. Agora o tempo tornou-se urgente.

Aprende a liberdade das distâncias, a sabedoria de não tocar em nada. Cada estrela em sua solidão.

Venceu, depois de muitas tormentas, o julgamento. O arguido foi considerado culpado, condenado como lhe competia. Ela foi condenada a mudar de País para poder ser livre. Venceu apenas o julgamento, não o popular. As leis mudam-se mais facilmente do que as mentalidades.

Foi por um triz.

No dia em que revogou o contrato promessa de compra e venda de um imóvel sentiu-se estranhamente alegre. O mesmo enquanto pondera deixar a meio o seu doutoramento. Não é agridoce e nem é difícil. Desistir pode ser um acto de liberdade.

Da amizade: como uma pita estúpida e porca.

Existem relações abusivas e existem pessoas que abusam de relações. Lembra-te que as relações têm limites, não se devem permitir a tudo.

Deixem os paradigmas em paz.

Anseio o dia em que um opinador se satisfaça com o paradigma actual. Se souber explicar qual é e, já agora, o que é um paradigma, agradeço.

Dime si me echas de meno' aún.

Não me lembro de mais nada mas acho que fomos felizes.

No meio de uma qualquer pesquisa indiferente, apareces-me. Fico sempre desconcertada quando a memória de quem fomos me aparece à frente sem outra preparação. Nunca estarei preparada. Não busco nenhum passado, mas ele encontra-me. Está um passo à minha frente. Gosto tanto daquelas pessoas. Para onde foram e como se dariam com estas?
 
Era tudo tão novo. Havia uma vontade profunda de nos conhecermos. A nossa curiosidade era genuína e o nosso interesse despretensioso. Revelávamos de nós o que de mais real acreditávamos ter. Nessa altura, não te quis impressionar. Não precisava. Cheguei a tratar-te por “querida”, vê só. Prometiamo-nos livros com dedicatórias e a melhor parte dos nossos dias. Não exigíamos nada, demos tudo. Talvez por causa disso. Não havia imagem a construir, nada em que alicerçar uma ilusão além das palavras. As palavras eram a nossa presença e serviam de casa e de colo. Dava-te palavras como se te desse beijos. Palavras como quem diz nunca te deixo.
 
Não sei contar-te do carinho inestimável que tenho por aquelas pessoas. A sua ingenuidade, a sua honestidade, a sua inabalável crença nas possibilidades do futuro. Desse sonho que encontrei num acaso, perdura o essencial, agora como antes, mesmo que não nos lembremos de mais nada. Acho que fomos felizes.

Zoom out.

Não menosprezes a compatilibilidade manifesta em quem partilha o(s) mesmo(s) desejo(s).

Espelho meu, espelho meu.

Ninguém lho ensinou e isso é fascinante de observar. A origem do egoísmo e da compaixão estão no mesmo sítio. Testa-me como se tivesse a sua idade. Diz que gosta de mim só mais ou menos. Eu não nasci para ser princesa. Não tenho o cabelo como o dela. O pai natal não me traz presentes. Sou a última. Porto-me mal. No limite, a bondade. É-lhe intolerável assistir à tristeza doutros. Repetimos a mesma cena vezes sem conta. Em todas, persisto maravilhada com o espetáculo do seu crescimento.

Have fun staying poor.

Nada como um período de reflexão obrigatório antes de assinar um contrato de crédito à habitação para me lembrar que sou adulta e isto agora é coisa séria.

¿Tendré que pedirte que nunca te vayas?

Talvez uma tempestade não se meça assim.

Ainda se operam milagres: saio de perto de ti mais cheia e, porém, mais leve.

Nem sentido nem significação: sentir, mais ou melhor?

Reconhecer um corpo pelo contorno da mão e saber-se inteiro nesse gesto. A poplítea a marcar o passo, consentindo, abrindo caminho. Não nos distraíamos por entre o caos da vontade. Avançar a contra-relógio, chegaria primeiro o táxi ou o orgasmo. Era a excitação, o desejo, e o arrepio que vinha pela tua boca e uma desordem que ficava. O sentimento a coincidir no sentir, totalitário e urgente. Hoje é só uma dormência e o incipiente tempo que foge. Não há inquietação no que é perto. Os olhos penetram fundo, mas o suspiro que surge é de lucidez, já não sobressalto. Caminhamos sobre cinzas, quando é a queimada que revolve e regenera a terra. Procuro em ti o incêndio.
 
Mesmo que queime.

Gostar por conivência.

“Eu só gosto porque gostas”, disseste, e eu pensei que gostar por conivência é uma maneira muito bonita de se gostar.

I would like to check-in, please.

Falta-me um quarto de hotel e a sua sensação de novidade. Um quarto de hotel é o meu espaço de impossíveis. Um sítio de fazer memórias no fulgor de tudo poder acontecer.

Tão frágil.

Diziam que o sábado era o dia mais desinteressante para dançar. E que o missionário era a posição mais desinteressante para foder. É o que dá queixarem-se de barriga cheia.

L., Lux Frágil

Leio com mais interesse os diários do Lux do que boa merda que anda para aí.

Comboio noturno para Lisboa.

É poético que existam centenas no mundo apaixonados por um livro que não existe.

O esquecimento activo é uma das condições do movimento.

A box pára-me as gravações nos últimos minutos de filme, ridicularizando a minha espera atenta e ansiosa. Nunca saberei se os protagonistas sobreviveram, se se separaram ou se tiveram a coragem de decidir diferente. Ignoro se viveram felizes para sempre ou o quanto de real há na história, que mistérios se decifraram, quem era afinal o assassino. Negam-me o fim. No princípio exasperava-me. Depois apercebi-me que fora da televisão, na minha vida, não é assim tão diferente. Há pessoas cujo percurso acompanhei por um período de tempo, espectadora nuns casos e narradora noutros, mas nunca omnisciente. Deixaram-me, também eles, na ignorância de como seguiu a sua vida e eu deixei de importar-me. Contudo, esta interrupção brusca continua a trazer-me uma sensação estranha porque tenho consciência de que havia mais. Qualquer espécide de saber é arriscado. Já não era a esperança, como tanto me sucede, mas a certeza, e com isso o meu desinteresse que deixa de ser desleixo para ser decisão. Desejo-lhes sorte, apago, sigo para o próximo.