Quem te viu ainda te vê.

A casa parece-se finalmente com uma casa e isto pouco tem a ver com a arrumação dela. É preciso habitá-la, dar-lhe gasto, impregná-la de cheiros, esforços, memórias. Hoje foi o dia em que entraste na tua casa e te deitas no sofá bebendo ginja com propriedade. A tua casa tem história. A tua casa é tua. Todavia, trata-se de um pormenor logístico, burocrático. Quem te conhecesse saberia que a este sentir não é alheio o facto de termos hoje jantado. Entro nos teus olhos grandes como quem entra em casa, à moda de poema e, se a poesia não servir para nada, que sirva para falar ao menos dos teus olhos. Falávamos da descoberta da amizade, da liberdade que a sustenta e, até nisso, és rara. Haverei de insistir que nunca conheci ninguém assim. As amizades, poucas, aconteceram-me e nisso tomo apenas uma parte pragmática e não-pensante. As amizades revelam-nos. Há algo de muito belo na consciência da amizade e acredito que talvez seja isso o que de mais valioso possamos deixar, essa marca em alguém. É uma pergunta que me coloco demasiadas vezes, como cobradora oportuna. O que te deixei, o que te deixo? Será a carência que me devolve o foco ou é esse estado de crítica reflexão que mo exige? A conversa não era sobre mim e, apesar disso, traço paralelos que me apaziguam. São ciúmes, isto? Talvez não seja assim tão avançada. Quisera eu ter-te mudado a vida, um ímpeto de salvadora da pátria a que não me esquivo por costume e feitio. Quisera eu trazer-te algo, por mais fugaz que fosse. Mas, a casa. Eras tu.

A verdade obriga. Fala simples.

 Hoje é outro dia em que não escreves. Hoje é outro dia em que sinto a falta da tua escrita.

Da literacia emocional.

Não se pode pedir inteligência emocional a quem não tem sequer literacia emocional.

Da idade adulta.

Lembro-me do dia em que percebi que "agora não posso morrer". A este soma-se o "agora não posso ficar desempregada". Ser adulta é isso, restrições que se acumulam.

Já estás no castelo?

- O que é uma tia?

- É uma Marisa.

When you wanna dance off your demons but they also want to dance.

Alertas que tanto dão para a Bolsa como para relações.

Rendimentos passados não são garantia de rendimentos futuros.

Pietà.

Uma distração. Um esquecimento. Exaustão. Talvez seja o mais insignificante dos pormenores. Bastou. Era Quinta-feira e bastou esse momento, um segundo multiplicado por sete horas, para mudar uma vida inteira. O passado que existisse, o futuro que viesse, acabaram ali. Isto já é outra coisa, outra história, não aquela que começou como todos os dias às sete da manhã. Um momento, espera, pronto, ruiu. E vê-se agora um homem em desespero com a filha nos braços, corre para o meio da estrada, mete-se à frente do trânsito, implora que lhe levem a filha, que a salvem. Ainda tem esperança, ainda não sabe ou não quer acreditar. Vê-se os outros filhos a perguntarem pela irmã. São pequenos, também. Talvez a idade os proteja, talvez julguem apenas que a irmã se demora, voltará amanhã para ir à escola. Serão sinalizados. Levarão consigo essa marca indelével, um novo guião de rotinas. Porventura, haverão de decidir retirá-los daquela família. Para seu próprio bem, dirão. Mas quem, senão o tempo, sabe o que é para nosso bem? Vê-se uma relação a esfumar aos poucos, quebrada por aquele momento. Ou que talvez estivesse já moribunda e esta fosse só mais uma forma de chegar ao mesmo destino. Aquele homem que agora vemos no meio do trânsito queria ter sido pai e mãe naquele dia, mas chegou tarde. Quer desculpar aquela mãe, quer desculpar-se a si, e não consegue, está tolhido de raiva e de angústia. Para a maioria de nós a vida é dura. A vida não é para os que se ficam. E ele já não sabe se quer ficar. A partir daquele momento, viver passou a acto de resistência. Daquela mulher, não nos atreveremos a dissertar. Se a dor não é comparável ou transaccionável, poderemos apenas presumir os estilhaços daquele coração e o caos em redor como se arrancado do peito. O poema fala da sorte de não vermos os filhos morrerem antes de nós. Talvez ainda maior sorte seja não termos nisso uma culpa negligente.

Peso pesado.

O que mais mata é a culpa.

Não te distraias.

Ela deixa-me cigarros. Ele pede-me ajuda. São imensas as formas de demonstrar amor. Todas são estranhas e certas.

Zero-sum.

Ela perderia o conforto financeiro, mas ele perderia tudo.

Da sensibilidade.

Concluo que uma das competências mais importantes de qualquer consultor/formador/orador é a de saber ler uma audiência, adaptando o discurso às circunstâncias. Também nas relações. Daí o meu espanto com quem, passado tanto tempo, ainda não se sabe ler ou adaptar. Será incompetência, desinteresse, ou uma absoluta ausência de empatia para com o outro? Tenho-lhes uma pena sincera.

O que é nacional (não) é bom.

Isto do Zmar revela muito. Estou em crer que as ideias de Povo e Nacionalismo, letra maiúscula, fazem-nos mais mal do que bem.

I just wanted you to see everything that I could see walking in the night sky.

Segue o corpo. Dá-lhe pousio e esgotamento.

A ideia de intimidade é tão rara e poderosa que chega a haver quem a ache revolucionária.

Julião, os corpos cansam-se, o desejo não.

 


SL / TP.

As relações deviam vir com Stop Loss/ Take Profit.

Como um cão que sabe que o que foi amor não reconhece o esquecimento.

São sempre imensos os escombros que nos formam, descabidos os atalhos, tão profundo o que é não-dito no que se diz. A memória faz pactos à nossa revelia. Cabe-nos depois decidir, de forma mais ou menos consciente, o que é de revelar e de ocultar, o que é jogo de descoberta e até onde consentimos quem se embrenha em esforços de arqueologia. Por vezes assomam vestígios à superfície. Hoje, por exemplo, não me lembrei do que preferias esquecer.
 
Naquela tarde não te contei igualmente que The Great Gatsby faz-me necessariamente recuar a ti e às tantas noites a ouvir Together dos The XX. Em loop e num volume provavelmente exagerado para aquelas horas da madrugada, entre demasiados cigarros e a garrafa que acabava cedo. Era uma fúria e um embriagamento de escrever e, para mais, poesia. Tu nem sabes que esta é das imagens mais nítidas que guardo da minha estadia em Londres, aquele canto da sala, o vício do fumo e da tristeza, a anestesia nos programas do Jeremy Kyle. Tu ainda não tinhas ressuscitado e eu também não. Um coração partido é uma merda, essa é que é essa. Mas, ao menos, fez-se disso alguma coisa e as palavras sempre são terapia mais barata. Não se deve desperdiçar a dor. Por isso, quando me perguntaste sobre o que era o The Great Gatsby respondi, com excessivos atalhos que tu dispensarias, que era sobre um homem, agora milionário e excêntrico, que reencontra o seu grande amor de juventude e percebe que o dinheiro não é tudo. Não obstante a expectável evolução positiva dos mercados, nada a ver connosco, portanto.

O silêncio é tentação e promessa.

Saberás que te procuro como quem precisa de um relógio para trazer cadência ao tempo?

There is a crack in everything.

Todas as fendas são férteis.

Abril.

Não te enganes: a possibilidade de escolha é um privilégio.

Nem.

Apanhou este hábito de trocar o “não” por “nem”, logo, em vez de um assertivo “tu não me ouviste” ou “tu não sabes”, as suas afirmações são de um jocoso julgamento e diminuição. Por mais que tente, estou-lhe sempre em falta.

Do intacto.

Eles: - portaste-te bem?
Ela: - sim.
Eles: - e os outros meninos?
Ela: - não.

Isto todos os dias.

Uma pessoa assim como a Marisa.

A bajulação vem sempre de um lugar de subserviência. Quem a outro eleva, a si se rebaixa.

Da consultoria.

Há quem não os oiça. Pagam-me então para lhes dizer o que querem ouvir ou o que querem que outros oiçam. Sou um instrumento, sigo ordens.