New year, same resolutions: dos filhos.

Surpreende-me ao dizer que gostaria de me ver como mãe. Que acha que eu daria uma boa mãe. E, não tendo disso a certeza, reconfortou-me ainda assim ouvi-lo.

New year, same resolutions: o poliban.

Não deixa de impressionar que seja 2023 e ainda há quem diga “poliban”.

Nem o sol nem a morte podem ser olhados fixamente.

Nunca tinha reparado nisso e que um livro nos revele algo, mesmo o óbvio, já seria motivo bastante para dele gostar. É absurdo que se diga “os meus sentimentos” para lamentar a morte de alguém. Os sentimentos, que tantos ocultam, não ousam ou deles não conseguem falar, tantas vezes reservados e reverenciados como coisa de merecer, são ali facilmente todos oferecidos sem mais critério. Aqui os tem, os meus sentimentos. Existem tantos, que caberá ao interlocutor decidir quais quer aceitar, se para a ocasião são mais adequados sentimentos de amizade ou de tristeza ou de alegria ou de raiva. Você decide. Os meus sentimentos, porque não sei quais são, nem o que fazer com eles. São todos (os) sentimentos. Receba-os e faça com eles o que bem entender.

If you can’t handle the heat, then get out of the kitchen.

A Ex-periência é o sonho molhado de qualquer psicólogo ou terapeuta de casal. Mesmo quando tentam o show, resvalam logo para a realidade. Que a vida me livre de querer (voltar a) estar com alguém que atira com cantar de galo um “Tu não vives sem mim” ou que parte para um reencontro porque estão ambos a ficar velhos. Tanto pouca auto-estima, tanto medo da solidão, tanta realidade que dói.

My body is a cage.

Pior do que a sacralização do sexo é a sua instrumentalização como moeda de troca e negociação, ambos bons velhos costumes. A ideia de usar o sexo, geralmente pelas mulheres, como recompensa ou castigo, envergonha-me. A ideia de usar o sexo como ameaça e sofrimento, geralmente pelos homens – as violações como habitual arma de guerra – repugna-me. Como é que conseguimos transformar algo tão bom em algo tão mau?

Do primeiro bebé do ano.

Entendem a nacionalidade como algo tão mas tão especial, que acreditam que só deva ser atribuída a quem a mereça. O anúncio do primeiro bebé do ano deveria ser um não-assunto. Ponto (para quem não notou o ponto final). Não tendo sido filho de pais Portugueses, é agora um não-assunto que mostra porque é que racismo e xenofobia continuam a precisar de ser assunto. Ainda mal começou o ano.

We are losers on the verge of something great.

Ou cantas ou assobias.

Nasce-se por acaso; morre-se por acaso. E esta casualidade deveria bastar para que não vivamos, também, por acaso.

On this site nothing happened.

Existe, discreta e pequena, quase imperceptível a quem passa e a desconhece, uma pequena placa cravada num muro na rua principal de Eton, escola-mor dos destinos do Reino Unido, que dita “neste sítio nada aconteceu”. Sorrio sempre. Não só pela ironia audaz da sua localização, mas também pelo sentido filosófico da coisa, a celebração da ausência, do anónimo e do não-evento numa época em que fazer chuva ou ir à praia é notícia e que todos queremos ser notados. Nada aconteceu. E ainda bem.

O da água e da lava e do dragão e do fogo e da força e de voar e de invisível.

Eu: - O que pediste ao Pai Natal?
Madalena: - Um relógio e super-poderes!

Do orgulho comigo.

Dormiu a noite toda fora de casa, sem alarido ou preocupação. Acorda feliz e orgulhosa de si. Tanto, que vai perguntando a todos “estás orgulhosa comigo?”. Rio-me e corrijo-a. Nos seus cinco anos, ainda não atinou com as formas do dizer, que se diz “de mim” e não “comigo”. Todavia, o sentido irreflectido das suas palavras não é menos verdadeiro, talvez até mais acertado. Confundem-se o objeto e o sujeito na mesma vontade. O orgulho que procuramos terá de partir de nós primeiro, é uma confirmação o que buscamos.

Cancers should beware of snipers today.

Terá sido das viagens que mais me marcou e há tanto a dizer que será, necessariamento, pouco e emaranhado agora à distância de meses. É, porém, um desses casos não raros em que não se consegue falar, mas onde também é impossível ficar calado. Assim a Bósnia e Herzegovina e, particularmente, Sarajevo, sem esquecer o caminho até lá, com a natureza a exibir-se em cada canto. Em Mostar, o primeiro contacto com a guerra. Do not forget. Marcas de balas nas paredes, mas também em persianas ou num portão, a fazer lembrar a realidade. O cheiro e o fumo dos Ćevapi que se prolonga noite adentro e o cheiro a pão quente nas pekaras logo de manhã cedo. Romãs, também. A ponte, claro está, e a beleza de encontrar-me sozinha ali no revelar do dia. As pedras reluzentes da calçada, não da chuva, mas do uso. O pôr do sol a engolir a vila sem pressa. Depois, Sarajevo, como se fosse ainda 84 e o Vucko nos saudasse à chegada. Onde as religiões se misturam e o velho e novo convivem. Para que lado olhaste mais demoradamente? Antes de Londres ou Paris, já Sarajevo era prova viva de multiculturalidade. Os homens sentados nas oficinas no bazaar de tempos otomanos a bater o estanho. O cheiro no ar a café. Bósnio e servido com o mesmo ritual de outros tempos, na dzezva. Susan Sontag à espera de Godot, a resistência também através da cultura, que nunca deixou de se mostrar. As centenas de livros queimados. As rosas no chão, insuportáveis. A montanha que os abraçava e que foi então ameaça, com o bobsled cravejado de buracos de balas, um símbolo de orgulho e conquista subitamente tornado armadilha. Uma cidade em que todos se davam bem e por isso foi tão inconcebível o que lhe aconteceu. Even we don’t understand what happened to us. O cerco mais longo da história moderna. Para onde se olhe, há marcas nos edifícios. O campo olímpico transformado em cemitério e faltou espaço. As personagens convertidas ora em heróis ou vilões conforme a época e sítio. Pede-nos desculpa se em algum momento parecem um povo antipático. Culpa as feridas de guerra, que ficaram em todos e ultrapassam gerações. War was inside me, contou ela, para quem uma garrafa de água e uma cebola foram o melhor presente de aniversário. Refere-se a nós com uma reverência e gratidão que não merecemos, pois somos nós, os friendly tourists, e os nossos países, os dadores, que vão reconstruíndo a capital. Ambicionam, como outros, à utopia da UE que lhes prometa fundos e proteção. A mesma que lhes faltou. Bem-aventurados aqueles que construiram o túnel e escaparam ao Snipers Alley. Civis mortos indiscriminada e ininterruptamente. Cancers should beware of snipers today, brinca o jornal. É insuportável a ideia de que seres humanos pagaram e se deslocaram em bando aos fins-de-semana para matar outros seres humanos por lazer, qual safari. Só escrevê-lo enche-me de asco e horror. Bem-vindos ao inferno. E nem se fale de Srebrenica. Como é possível que não se fale mais do que ali aconteceu? Na Galerija 11/07/95 fiz-me de forte, primeiro. Imaginava ao que ia, mas mesmo assim, logo a supresa. Ouvir falar de Portugal, em Sarajevo, numa galeria sobre o massacre de Srebrenica. Uma das viúvas diz não saber se ama ou se odeia Portugal – a derradeira camisola que o marido levava naquele dia tinha na etiqueta “made in Portugal”. A crueldade dos relatos e das fotografias chegam num extremo. Bonecas degoladas e minas debaixo de cadáveres. Parece que na guerra permite-se tudo, até que percamos a nossa humanidade. E se as atrocidades são chocantes, é o desamparo que me dilacera. Safe area, uma merda. The bearer of this card is under the protection of the UN forces, uma merda. United nothing. United nothing. Enganados, humilhados, discriminados. E aqui, não aguentei a dor e a vergonha e tive de levar as mãos à boca num choro descontrolado que me obrigou a sair da sala para não perturbar os outros. Olha-se para a Ucrânia, para o Afeganistão, Sudão e conclui-se que não aprendemos nada. Um dia visitaremos memoriais e choraremos a nossa impassividade. O mundo é um constante clima de guerra pontuado por breves períodos de paz, dizem e talvez seja verdade. Na Bósnia, nota-se essa paz frágil, uma tensão quase palpável no ar à conta de conflitos vizinhos e nacionalismos glorificados, não acordem o monstro. Sarajevo é uma história de luz e escuridão. É 2022 e, quando perguntado sobre em que parte da capital se está, o taxista responde “na parte Sérvia”. Quando entre as ruínas daquele hotel encontrei um azulejo onde se lia, nas costas, “made in Yugoslavia”, era ainda 2022.

Find your lane. Swim your race.

Nas poucas forças que sobravam, choraram de alegria. Conseguiram não morrer e esse foi o seu maior feito. Quão injusto pode ser um mundo em que viver é uma conquista?

Era de grau dois ou três, o da tua mãe?

Irremediavelmente, por força dos programas da tarde – desfiles de miséria – ou da novidade da doença, agora próxima, lá aparecem a comparar misérias, quais doutos em literatura comparada.

Impor-lhes uma revelação é demasiada responsabilidade.

Começa a falar alto e a atropelar-se nas palavras, repetindo-se. No que o entusiasma ou enerva, sou como ele, para o bem e para o mal, não há como negá-lo. Referia-se ao episódio de um amigo que o desiludiu, sem saber que o conta a quem o irá desiludir. A ignorância, dizem com razão, é uma benção.

Obviamente.

A traição dele não era o problema, mas a sua ingratidão (ela, que sempre foi tão poupada, nada esbanjadora como outras) e o vexame público (já teve tantas amigas, para quê o divórcio agora?).

Deal breakers.

Pior do que ter namorada, é que a chame de “companheira” e escreva “conheces” com cedilha.

Eu tenho um amor pa' declarar e coisas a declarar ao fisco.

Às vezes também tens a sensação que isto, entre nós, não vai dar em nada?

Escrever é um exercício de realidade cruel. Escrever é tornar real. Reviver, retornar. Escrever é-me penoso, por isso. Necessário, por isso. Escrever é confirmar que as palavras não saem daqui, não chegam a lado nenhum, nem inspiração, nem provocação, sequer tesão. Escrever é afirmar que não é como antes, já não estás aqui e esmerar-me para sair incólume, impune, dessa diminuta tragédia que me poderia consumir imediata no inesperado de uma canção. Nem tanto. Basta uma palavra. Não se menospreze o que muda uma vida. Escrever é estar à vista de todos – acabou. É não conseguir desviar os olhos.
 
Tenho-me esforçado para não escrever, confundindo causa e efeito. O coração agora feito pedra. Mas por vezes distraio-me. Já passou tanto tempo. Vou confiante à procura do embate como quem se aventura em testes de stress. Desafio-me. Quanto consegues tu aguentar? Quanto até que doa? O tempo tudo apura e tudo coloca no seu lugar. Com o devido tempo, tudo se torna insignificante. Até o nó na garganta, aquela decepção. Resolves as minhas inseguranças e feitos no mesmo monossílabo. Há uma clarividência desconcertante na descoberta das nossas diferenças. Do contra, diria o meu pai.Tê-las-ás visto primeiro, sempre foste mais perspicaz do que eu. Sempre lá estiveram, bem sei, mas, o meu tempo e o meu encantamento eram outros. De repente, foi um vislumbre. De repente, não sei se te reconheço e isso entristece-me. Desconheço agora a profundidade dos teus medos e a altura dos teus sonhos. O trivial assoberba-nos. São sempre miudezas, claro está, e a convivência mais não é do que essa edificante negociação de tolerâncias, a beleza em saber vir ao de cima, todavia, a dúvida impõe-se. Recuso o teu peremptório não, somos melhores do que isso. Se quiséssemos, resultaria.
 
 
É um cansaço escrevê-lo. Para quê ainda isto? Já passou demasiado tempo. Nessas alturas de dúvida, matizo as memórias e olho-te como estrangeira procurando saber quem és e o que me queres. Vacilo, a objectividade esmaga.me. É ingrato que o faça. Deveria ser fácil e envergonho-me da minha demora. Amei esta mulher. E depois olho-te com olhos de ver, cubro-te inteira no meu olhar, afundo-me nos teus olhos límpidos, tu nem notas, ou oiço o teu riso desembaraçado, a tua argumentação infalível, palavras que só tu poderias dizer, ou o gesto simples e convicto de quem é justo e bom, puro sentir, e é nesse momento que sei e lembro e tudo se torna óbvio. Foi por isto. 
 
Não te preocupes, ainda. Não se confunda uma esperança com uma constatação.

Did you ever have someone kiss you in a crowded room?

Caem com estrondo e pouca edição, estiveram demasiado tempo contidas. A mesma excitação, um pequeno medo no próximo passo. Uma pressa qualquer. Uma qualquer falha de sincronização. Aqui me rendo, dando o corpo às palavras como quem dá o corpo às balas.

I loved her against reason, against promise, against peace, against hope, against happiness, against all discouragement that could be.

Quando uma pessoa deseja uma coisa durante muito tempo, é muito difícil deixar de a desejar, isto é, admitir ou dar-se conta de que já não a deseja ou de que prefere outra coisa. A espera alimenta e potencia esse desejo, a espera é acumulativa relativamente ao que se espera, solidifica-o e torna-o pétreo, e então resistimos a reconhecer que malbaratámos anos enquanto aguardávamos um sinal que, quando finalmente aparece, já não nos tenta, ou nos dá uma infinita preguiça de acorrer à sua chamada tardia de que agora desconfiamos, talvez porque não nos convém mover-nos. Acostumamo-nos a viver dependentes da oportunidade que não chega, no fundo tranquilos, a salvo e passivos, no fundo incrédulos de que alguma vez venha a surgir. 
 
in Os enamoramentos, Javier Marías

I can still taste you. I try to write with your taste in my mouth.

No princípio era o corpo. Havia a conveniência e o acaso. Quando foi que decidimos complicar as coisas?

Trigger.

És-me gatilho.

Passivo-agressiva e falsa relaxada.

Acredito que uma boa relação é aquela que tem utilidade, sobretudo, a de nos refinar. Talvez seja por isso que, mesmo quando não entendo ou concordo contigo, haverei de continuar a estimar a nossa: conversas que são como exames de consciência.

Quem muito sente, muito cala.

Sei-me injusta no afecto que cobro e que não sei dar. É um paradoxo triste, este, e uma inconveniência que outros não nos permitem ignorar. Porque é sempre o afeto que buscamos. O Globo de Ouro que importou à Anabela Moreira foi tão-simplemente o abraço do pai.