In the heart of the unexplained.


We are here to laugh at the odds and live our lives so well that Death will tremble to take us.

Experimentar uma vez só que fosse era o bastante para prender a vontade para sempre. Era então preciso cuidado, muito cuidado. Poderia falar-se de uma droga: a tua boca, aditiva como uma droga. E eu, tão perdida, tão extasiada, querendo mais, já sem conseguir parar.

I no longer want it all, just some comfort and some sex and only a minor love.

Por necessidade, ela escolhia ser impossível. Sabia que a partir do momento em que começasse a acreditar que era possível a vida começaria a doer-lhe. 

Oh, I don’t mean you’re handsome, not the way people think of handsome. Your face seems kind. But your eyes - they’re beautiful. They’re wild, crazy, like some animal peering out of a forest on fire.


It was like the beginning of life and laughter. It was the real meaning of the sun (her hands).

A visão do paraíso já é ser paraíso.

There's a bluebird in my heart that wants to get out.

Era preciso um tempo para o descanso dos corpos, primeiro. Um tempo para a preguiça desleixada e tão convidativa, também. Um tempo para a habituação das texturas, formas e tamanhos porque nunca se sabe se a pele não ganhou outra tez, um cheiro novo a revisitar. Um tempo ainda para a harmonização das vontades, saber ler o que foi deixado para ser lido e os outros sinais de vida própria e independência, conhecer os limites da intrusão para assim poder ludibriar o medo da rejeição, escapar ao consentimento forçado pelo hábito ou pela fragilidade das altas horas, porventura. Era preciso que fosses tu, que fosse eu, e que não se tratasse de novo de um engano. Todos os tempos eram então necessários e todos tinham o seu momento certo de serem, um pouco como ela contava sobre as idades. O tempo podia faltar ou sobrar mas não se perdia nunca, era o que pensava enquanto lhe olhava a boca tão definida, tão apetecida, a sua boca de saciar, o lugar mais puro do corpo, a sua boca. Esperava, por isso. Só mais um pouco, mas já muito pouco, antes que o tempo não chegasse. Só mais este instante. Talvez tu ainda chegasses.

E o que faço eu?


Because I think about doing things to you.



O que fica (para a história).

Era verdade que aquela diferença a fascinava. Não era só verdade, aliás. Era por demais evidente. Mais ninguém escrevia verossímil como quem dizia verossímil, usando da mesma facilidade de quem respira, nenhuma outra pretensão senão aquela de respirar. Ou elucidar paradoxos ainda antes das oito da manhã, por exemplo. Havia nela algo criado para desconcertar a consciência e que não se ficava pelas palavras. As palavras eram em si somente um princípio. Eram aquelas perturbadoras singularidades dela que desafiavam a sua periclitante existência de pessoa geral, como uma claridade que apelasse por definição à inquietação, o seu caos ali tão a descoberto. Por isso ela dizia que nunca ninguém lhe falara assim e essa era a verdade, a evidente. Ela, por seu lado, sabia disso mas não lhe cabia acreditar. Há momentos em que acreditar não chega para mudar nada, outros em que não é de todo necessário. Talvez este fosse um desses momentos. 

O que a faz regressar, aquela diferença que a fascina, é algo muito distinto do que a faz ficar, porém. Vem pelo que as diferencia mas é pelo que se lhes assemelha que fica sempre, porque a familiariedade traz um conforto que só se poderia encontrar na dobra da pele. Seriam essas as coisas mais simples, persistir tambor, aquilo que existia no imediato do peito e sem lugar a outros truques e defesas. O riso alto, o choro solto ou as palmas das mãos na alegria, o grito na fragilidade do corpo, o desabafo, a mesma esperança nos dias, a mesma vontade de criar o mundo. Aquilo em que eram mais próximas de si e dos outros. Eram todos os gestos irreflectidos, expostos na superfície de todos os medos e desejos, aquilo que a fazia ficar. Ela vinha por uma estranha necessidade de ser mais mas ficava pelo mesmo imperativo da vontade, quando eram iguais. Vinha pelas grandezas mas ficava sempre pelas coisas pequenas, aqueles olhos grandes de dizer tudo, as covinhas que nascem no sorriso mais puro, a forma indecente como retoca o cabelo.

Want you to make me feel like I'm the only girl in the world.

A natureza que a mandatava era a mesma que a limitava.

Nākamā pietura

Dizem o teu nome de mulher como se fossem todos juntos às putas. A boca muito escancarada, os dentes amarelos e um travo amargo a cerveja barata, enquanto riem na expectativa das virilhas quentes. Ouvia-os nos seus gritinhos resfolegados de excitação e apetecia-me defender-te a honra como se faz a uma amante: talvez partir-lhes a boca e obrigá-los a beijar nos lábios doridos as tuas partes negadas, as mais podres e mais fétidas. Não era, de facto, a ordinária imunidade do dinheiro o que fazia a arrogância de muitos turistas. Bastava-lhes a sua natural estupidez.

Espero-te chegar se me vier.


Não temos tempo de temer a morte.

Era o tipo de pessoa que não conseguia fechar a vida no peito e dormir descansada. Acreditava que assim a sufocaria. Acima de tudo, acreditava que a vida era coisa de ter livre e indomável e que qualquer forma de cativeiro seria por isso uma ofensa da maior crítica, uma espécie de acto contra-natura. A vida era para levar no desequilíbrio do mundo, no arriscado das mãos, cheia até cima. Ela via pessoas a levarem copos de imperial assim, até cima, e espantava-se sempre com aquela dinâmica, inexplicável até à gravidade. Maiores as pressas, maiores os tombos, e, se fossem levados com a convicção do inabalável, o olhar no longínquo do horizonte e a mesma confiança nas mãos, nunca entornariam. Ela era o tipo de pessoa que olhava para a vida como uma imperial. Que viesse cheia até cima e do nada ter-lhe às mãos. Que fosse coisa de molhar, coisa de sentir pelo corpo. E, se lhe acontecesse a ela molhar-se, que fosse coisa de fazer rir, a mesma leveza de uma imperial, porque ela não tinha tempo de temer a morte.

Despair is the greatest sin.

Sê forte nas tuas fraquezas porque a fraqueza não incita respeito. A fraqueza cheira-se, como os cães cheiram o medo e o cio.

You say you don't know.


The desire for desires.

Esperas. Esperas pelas 18h, pela sexta-feira, pelas férias, pelo toque de saída. Esperas que o despertador toque, que as horas passem, que a noite chegue. Esperas pelo autocarro, esperas na fila de trânsito, esperas a tua vez. Esperas o próximo episódio. Esperas pelo resultado. Esperas que alguém chegue e que te veja. Esperas que ela seja feliz, que tu sejas feliz, que eles sejam felizes. Esperas os filhos, esperas os netos, esperas a reforma. Esperas que o dinheiro chegue até ao final do mês. Esperas que nunca te aconteça a ti. Esperas que se faça justiça. Esperas que esteja tudo bem. Esperas que um dia deixes de esperar. Só esperas.

I was always an unusual girl, my mother told me that I had a chameleon soul.

É quando está distraída a cantar. É esse o momento de todas as evidências. Tudo uma evidência, tudo evidente.

There is no beauty without some strangeness.

Entre as arrumações de papéis, encontrar uma folha branca, escrita na minha letra, e que dita apenas: “não quero ser o Al Berto”.

Out of our way now, we're going for gold.


And you get dizzy because of her charisma.

Acreditava que nada lhe era impossível e por isso era feliz.

If i dazzle you with cultural references will you go home with me? I

Tolero pessoas cultas mas entediam-me pessoas eruditas. O mesmo para os blogues, como se lhes faltasse um toque grosseiro e real de quotidiano. Sem imperfeições, sem vícios, sem carne, logo, desinteressantes. A erudição é cansativa, só romance. Não sabendo mais, sabe porém melhor quem é metade romance, metade putaria.

If i dazzle you with cultural references will you go home with me?

Não se enganem: cultura é uma coisa diferente de erudição. A cultura encontra-se na rua, a erudição nos livros.

A realidade é que não há velhos.

A realidade é que não há velhos, só desistentes da vida: os que aos trinta anos calculam a reforma, aos quarenta jogam golf, dos cinquenta em diante temem o coração e a próstata.

(no Tempo Contado, que me leva a perguntar por que é que ainda não li nada do J. Rentes de Carvalho até aqui)