Mas e se repentinamente lúcidos descêssemos ao estrume do que somos e eu te pudesse amar por cinco minutos apenas?


Os teus olhos proibiam-me estas circunvoluções estéreis.

Não deixes de te perguntar entre a árvore e a ave.

Quem acompanha a dor que escolhemos, o espaço que ocupamos, a maneira de dizer coração.

Os sentimentos eram-lhe como decisões. Ela tem razão quando fala da coragem de prosseguir numa escolha, não basta dizê-la, é necessário assumi-la, que nos consuma. Assim os sentimentos não eram em si coisa que lhe aparecesse ou que se pudesse nutrir, abandonar. Decidia amar e fazia disso uma responsabilidade, quase um dever. Os seus sentimentos eram por isso impermeáveis à distância das coisas e às abundantes convenções, mesmo as mais primárias. Quando ela decidia, estava decidido.

O que disseste foi para ser dito, não para ser lembrado.

Se eu não te conhecesse, poderia ofender-me. Os detalhes que guardo com maior estima são os que mais depressa esqueces. Ainda ontem me apresentavas aquela canção que guardei como se guarda um tesouro - não és dessas pessoas que se partilham com leviandade - e hoje já ma apresentavas de novo, ignorante do que se fez e disse debaixo do sol de Agosto com vista para o futuro. Vivemos assíncronas para as miudezas do sentir, é o que é. Só posso rir, feliz porque te conheço. Quem sabe te esqueces um dia também de nós e “as palavras que quase foram, quase puderam” assentam no sítio onde pertencem. Quem sabe, se depois do fim só existe o princípio.

Em novembro os segredos são mais vivos.

Não é apenas a cidade ou o pretexto de encontrar a memória mais feliz por destino, embora eu seja desse género de pessoas capazes de se contentar com uma sombra, a alegria primitiva que se forma no intervalo das ausências. Veja-se, de resto, como nos entretemos nós de tempo a tempo ou, melhor dizê-lo, de vida a vida, verdade mais exacta. Insisto em voltar como quem precisa de álibi para preservar uma saudade. É verdade que se importaram novas pessoas e novos hábitos e tu já nem sequer te passeias por aqui. Terei também eu, como ele argumentou primeiro, uma certa vocação para a solidão. Mas é aqui que a alma responde, ainda.

Tão fraca metáfora: um rio Ou O amor? Não me fodam.

Gosto da poesia simples, a que não engana e não oferece enigmas, a que não se vende como terapia e não cede aos lugares-comuns. Aquela que me fala como se fala, uma pessoa conversando com outra pessoa, sofrendo das mesmas maleitas, hesitando por sobre as mesmas catástrofes de se ser humano. A poesia? Não me fodam.

Ir ao Café Lenita, no Senhor Roubado, só para conhecer o rosto de Raquel Nobre Guerra, ou cruzar-me no Adamastor com Manuel de Freitas, grata de existirem e nada lhes dizer. Obviamente.

Madalena, é uma questão de números: Game Over

Para apurares da tua felicidade com um livro, conta o número de versos que te servirão para títulos de posts.

Madalena, é uma questão de números: MiiT Coffee

Para apurares da tua felicidade com um café, conta o número de vezes que usas o Shazam.

Madalena, é uma questão de números: Configuration Requirements Document

Para apurares da tua felicidade com o trabalho, conta o número de suspiros longos que soltas.

Belo como o tremor de mãos de um alcoólico.

De Inglaterra, trouxe este horror ao Inglês americanado: o modo apressado como arredondam as sílabas, como se não respeitassem a forma e o tamanho das palavras, a sua minuciosa anatomia, os cantos pontiagudos com que nos ferem, meu deus.

I don't mind if there's not much to say.


Já estamos em Novembro e ainda não emagreci o suficiente para poder engordar no Natal.

Talvez fosse possível apurar como entras na vida pelos actos mais simples como, por exemplo, comer um pastel de nata. Observar-se se te chega como ela é ou se a carregas de adornos, açúcar e canela em pó. Notar se a levas por inteiro e intensa, como ela, a quem bastam duas trincas, ou se és mais como eu, de pequenos e demorados paladares, procurando prolongá-la até onde der, ficar ainda a saborear a lembrança do sabor, já ido tudo. Descobrir ainda se és cuidadoso no trato, pompa e circunstância de quem leva a vida à colher, ou se te lambuzas dela, as mãos sujas.

Faz de mim o aveso do teu partir.

Comovem-me as tuas desculpas na mesma proporção em que me chegam os teus olás, quando só te sei sorrir. Sempre te usaste bem do peso das palavras.

É a velhice, Marisa, disse-me ele.

O modo mais rápido de envelhecer é consentir estar-se velho.

Hug or call your loved ones tonight when you get home.

Não sei que lhe diga. Conta-me e noto que espera a minha reacção, paciente. Há um silêncio na linha. Talvez espere que chore ou que grite, mas eu não sei que lhe diga. O que é que se pode dizer? Respondo o mínimo expectável, questiono a minha humanidade. Não sinto nada, só uma vergonha de nada sentir. 

É a segunda vez que me acontece. Felizmente não estava no escritório nesse dia de absurdos súbitos. Recordo a tristeza, mas não a minha. Não me consigo sequer lembrar do nome. Estava e agora já não está. Lembro-me, porém, da vergonha.

Como se morre aqui?

Não gosto de pessoas que dizem “falecer”, como se fosse um eufemismo para “morrer”. Não é o falecimento que mete medo, é a morte.

D.Sc. ou Be so good they can’t ignore you.

Madalena, se é para cometeres um erro, escolhe um que não te saia muito caro.

The Impostor Syndrome.

Há dias adormeceram enquanto eu explicava como se gerem programas. Ontem chamaram-me “opinion leader”.

Os founders são os novos doutores.

Como no Nos Alive, não importam os concertos, mas mostrar que se esteve lá. Assim o Web Summit. Aguardo ansiosamente que passe de moda.

(isto)

Tédio Talks.

No fundo, os coachs são psicólogos com LinkedIn.

“Solta-te, sente, és incrível.”

Tolero as pessoas do coaching do mesmo modo que vegetarianos e outras seitas: respeito desde que não mas tentem impingir.

Badass

O fantástico de uma Kathleen Zellner é que, ao contrário de um Harvey Spector, é real.

No meu País.

No meu insólito País, as pessoas passeiam de calções e chinelos em manhãs solarengas de final de Outubro.

I’ll find a way to slip into your skin somehow.




I wanna fuck your love slow
Catch my heart, go swim
Feel your lips crush
Hold you here my loveliest friend.

(os teus olhos grandes de ver tudo)

Quem pode o amor?

Nessa altura eu ainda não sabia nada. Era tudo tão novo, aquela excitação febril e adolescente quase doente dos apaixonados, e eu pensava que eras comum. Tentei impressionar-te com a cultura, mas nessa altura eu ainda não sabia nada. Tu não te lembras. Foi em Lisboa, no Largo da Trindade, perto daquele restaurante em que haveríamos de jantar muitos anos mais tarde, não sabendo à data que o amor era coisa de durar assim. Eu, pelo menos, nunca o suspeitei. Nem do jantar. Tinha o CD do Charles Aznavour no carro e pus a tocar, demasiado alto, claro está, como ainda a oiço hoje, agora, a minha música preferida dele, La Boheme. A mão embala a palavra, o gesto repete-se. E terei certamente olhado para ti, provavelmente sorrido, provavelmente batido os dedos no volante, como faço, como sinto falta de fazer, agora que pouco conduzo. Provavelmente embriagada no ritmo em crescendo, os olhos fechados por um segundo, distraída de tudo o que não fôssemos ali em nós. Travei a fundo e quase bati no carro da frente. Eu ainda não sabia nada, eu sabia tão pouco. O Charles Aznavour morreu e foi isto que me deixou. É apenas isto o que sei dele. O medo e o amor sempre juntos. Sempre o medo e o amor.