Mas sinto que sabes que sentes também.


Eu nunca piso nenhuma margem, não sou senão corrente.

Sou instante. Sorte seria ser linha numa biografia, margem de atracar.

Como se fosse possível ir de verbo ao segredo de uma boca.

Talvez não tenha passado dum exercício de poesia. Já se sabe que romantizo tudo, tu, melhor do que ninguém, hipérbole do meu sentir. Não reparaste, com certeza, mesmo sendo quem repara em tudo. A verdade é que uma pessoa pode passar a vida toda sem se aperceber. Não seria, então, de estranhar. A memória, porém, é criatura estranha, acentua e ignora a seu belo prazer. No depois, todas as histórias de amor são bonitas e, mortos, todos somos santos. No final da vida, fomos todos felizes.

A linha imaginária do poema, anatomia abstracta que nunca decifraste, algures localizada entre o diafragma e o ponto retórico duma convicção, existe, afinal. Toquei a vertigem por duas vezes, como se o poema ali se escrevesse todo, um reencontro que era tanto de vontades como de identidades. Assombrei-me no que de nós se reconheceu, não só o corpo, mas o cheiro, o futuro, o que dizem da vida. Reconhecemo-nos como quem chega a casa. A mesma familiariedade de cada divisão, o sítio dos livros e dos tachos, a disposição solene dos móveis e bibelots, a forma como a palavra se constrói e coincide, um gesto a suceder ao outro num encadeamento que só a intimidade permite.

Certamente, não reparaste mas, foi assim quando primeiro sorriste contra os meus lábios, a felicidade a aparecer-me, como seria de esperar, pela boca. Faz tempo, ainda havia neve nas ruas. Depois, aquela eternidade de Verão nos olhos. Alguém que se olha e ali se pede e se dá licença, alguém que pergunta e outro que responde num rito que tem tanto de sagrado quanto profano. Eu, Marisa, tomo-te a ti. Este é o meu corpo, tomai e comei. Alguém que agradece e perdoa, como se ali se compusesse de novo uma canção. Obrigada por saberes cuidar de mim, tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou. Encontrei-me nos teus olhos e coube toda lá dentro e, entre aquele segundo e o beijo, disse-te tudo, tudo. 

Decerto não reparaste.

Sleeping together, feet touching, legs touching. Being asleep and together.

O escuro, uma mão, um botão. Um visco. 
Dizem que o amor é isto. 

Sónia Balacó
(perdi o interesse no dia em que usou de reticências, coisinha de esforço) 

Being together is the miracle, being together and caring.

O cheiro dos filhos, o cheiro de casa, o cheiro daqueles que amamos.

Não podia ter tido mais sorte.

De repente, somos apenas os dois. Enquanto olhamos para ela, por ela, diz-me que "não podia ter tido mais sorte" e não sei como não me esvaí ali de emoção, o peito naquele momento demasiado cheio. Dizem que tem o meu nariz.

Desemigrante ou Avec2017

A pessoa que devolve "OMG" quando se vê boquiaberta é a mesma que me pergunta se tenho dificuldades em falar Português quando estou em Portugal.

É noite. Está mar.

14 de Agosto. Chove. Em Inglaterra, sou sempre Inverno.

Ciclos eleitorais.

Ler no Verão, escrever no Inverno.

A vida toda.



Se eu acreditasse em sinais diria que há pessoas que ficam para a vida toda.

A felicidade é ter boa saúde e má memória.

Esquecia-se e, com isso ou por isso, podia sempre repetir a felicidade.

E se ao menos tudo fosse igual a ti.

Não mo confessam, mas sei que se perguntam, sem entenderem. Porventura, como sucede também contigo. É o seu desentendimento que me dignifica o querer. Como se tivesse encontrado uma pedra preciosa, Euromilhõessíssimo, uma trufa, mas nem a todos estivesse reservado reconhecer o que é de tamanho valor ou, encontrando-o, acabando por confundi-lo com uma batata. Um pouco como aquela moeda de 50p que guardo no bolso interior da mala, ou a caligrafia do autor rabiscada naquele livro, ou aquele berlinde transparente que guardei durante anos para um dia to depositar nas mãos porque deixou de ser límpido quando te descobri os olhos. Um pouco, vá, como tu.

My heart is soft, my body is rough.

Obriga-me a abandonar os gestos e a dizê-lo por palavras. Que o diga, se o quero. Porque a vontade é sempre imperativa, o corpo sempre submisso. Explícito o meu querer, cedo sem sacrifício ao seu sentido prático. Não me sujes o vestido. Não me estragues o cabelo. Abreviamos entendimentos e furtamo-nos ao escusado das entrelinhas e meias medidas. Sabemos ao que viemos.

É muito na palavra que coincidimos e nos confirmamos. Mesmo no silêncio, quando a sua mirada parou no achado da minha e assim nos reconhecemos no fundo dos olhos uma da outra, eternidade de verdade e de vida, poder-se-iam também julgar ali palavras. Olhava-la e sabia-se ali abraço, sabia-se sempre, sabia-se amor. Não-ditas estas mas, tão óbvias, tão brutas, tão desnecessárias. É a palavra o que nos abre e nos fecha. É a palavra que nos convoca e nos liberta, que nos inquieta e nos domina. São ainda as palavras que nos molham. Adoro, pois, a sua dicção.

Los letrados.

Lo prostituyen todo
Con su ánimo gastado en circunloquios.
Lo explican todo. Monologan
Como máquinas llenas de aceite.
Lo manchan todo con su baba metafísica.

Yo los quisiera ver en los mares del sur
Una noche de viento real, con la cabeza
Vaciada en el frio, oliendo
La soledad del mundo,
Sin luna,
Sin explicación posible,
Fumando en el terror del desamparo.

Gonzalo Rojas

1000: Those who have, and those who have not.

It reminds me of a little boy of about seven whom I met in Bucharest. My taxi had stopped at some traffic lights. He ran up to me and said: “Speak English?” When I nodded, he stretched his hand through the open car window. “Give money!” he said.

“Why?” I asked him, not really expecting him to understand me.

To my astonishment, he looked at me as if surprised by my stupidity. “You have, I not have,” he explained seriously in his rudimentary English.

There was nothing wrong with the boy’s logic. It was obvious that he had no money, otherwise he would not have been asking me for it. It was obvious that I had money, otherwise I would not have been driving around in a taxi. Even at his age he knew that there are basically two categories of people in a society: those who have, and those who have not.

But accordingly to the egalitarian principles of any communist society, those “haves” should share with the “have nots”. And because there is not much to share anyway, in the end that egalitarianism boils down to the equal distribution of poverty. At least it would in theory – in practice in did not quite work.

Slavenka Drakulic, Café Europa – Life after Communism

Todos os pobres emigram, todos os emigrantes são ricos.

De repente, tornei-me a rica da aldeia.

Been dreaming of this since a child.


5 de Agosto de 2017

Nasceu a Madalena.

Com o corpo não há ensaios.

(...) São os nossos precipícios: os medos como monstros que nos vencem durante o dia, e que ficam moribundos nestas noites singulares Fantasmas que se despem em nós, que nos tomam o corpo, que nos entregam aos outros e dessa forma, ao mesmo tempo egoísta e altruísta, nos devolvem a nós próprios.

Na Ler deste Verão, José Riço Direitinho

Uma noite de fadas e de fodas.

Escreveu a Agustina, e "cito" isto de memória: que sexo e amor são coisas bem diferentes, que um não está ligado ao outro, mas que por vezes coincidem - a quem isso acontece, são os felizes deste mundo.

Desta maneira, aquela coisa de alguém se apaixonar pela maneira de ser do outro, não ligando ao exterior, só pode dar para o torto, porque depois leva-se com um corpo que nunca se desejou, que apenas se fingiu desejar, ou que se desejou como uma obrigação. E o dono do corpo acaba a sentir que o "desejo" que lhe é dedicado é coisa vazia. Dá para o torto, na certa: é uma questão de tempo.

Na Ler deste Verão, José Riço Direitinho

Coisas da minha avó: a cavalo na burra III

Diverte-se a fazer versos sobre a morte.

Coisas da minha avó: a cavalo na burra II

Já mortos todos os intervenientes, eis que descubro uma verdade negra sobre quem sempre vi quase imaculada: a ti’ Dolinda enganou durante uns tempos o ti’ Grilo com o dono da quinta da Palmeira. Nenhum pedestal aguenta o peso do tempo.

Coisas da minha avó: a cavalo na burra I

São todos o mesmo tipo de estabelecimento destinados a servir o mesmo tipo de propósito. Porém, mesmo distando apenas umas escassas dezenas de quilómetros (menos?), podem tomar diferentes nomenclaturas consoante o membro da família que se questione e aldeia em que se localize. Para mim é “o clube”, para a minha tia é “a sede”, para a minha madrinha é “a associação”, para a minha avó é “o salão”. Não é pois de admirar que esta minha família não se entenda.

Coisas da minha avó: a cavalo na burra.

Às 9 horas, as mulheres levavam aos homens o almoço. Ao meio-dia, comia-se o jantar e, à noite, a ceia. Onde foi que trocámos o sentido dos dias?

Livre-te Deus de teres uma mãe cool.

Não gosto de mães que são as melhores amigas dos filhos. São estas as que os acompanham nas saídas à noite, ouvem-lhes parlemices e caralhadas, assistem-lhes a palermices e bebedeiras, tudo lhes permitem. Não sei para quem são estas figuras as mais degradantes, se para o filho, se para a mãe.