But I love it.


She told me, don't worry about it.

Viagens na minha terra: um preâmbulo ou um epílogo, depende sempre da perspectiva.

A vida é um exercício de esquecimento. Escrever acontece como uma rebelião, um atentado à ausência, lugar de memória. Guardo o que puder para que se possa salvar. Na escrita está tudo o que não quero esquecer. A tua boca, o teu nome, o teu toque. A noite é longa e o amanhã espera. Escrevê-lo ainda de novo só por precaução: a tua boca, o teu nome, o teu toque.

Viagens na minha terra: ela parte-me o pescoço.

Surpreendeu-me na demora do abraço, ele mais insistente do que eu. A bochecha encostada à minha num calor que sabe a saudade e a regressos (depois dele, só conheço outra pessoa com bochechas assim). Abraçou-me como a alguém que lhe fez falta ou como quem gosta de nós. Ainda não me pede nada, ainda não me julga. Em troca, surpreendo-o também no meu conhecimento das cancões que aprende na catequese ou ao ganhar-lhe em todos os jogos e a superar recordes. Ensino-lhe os nomes dos dedos só para que se ria de todas as vezes enquanto repete o médio, o dedo do toma. Há uma autenticidade no seu riso que espero que demore a perder. Conto-lhe do gelo no Ártico onde vivem ursos, gordos e grandes como ele, meu amor, meu urso polar. Vai já ganhando medida e vontade própria, a escala métrica da sportzone já lhe sugere um tamanho maior de pneus para a bicicleta. Canta como se fosse o rei maior da parada mas envergonha-se a dizer boa noite à rapariga da caixa, toca todos os brinquedos da loja mas é com o mais simples de todos que se encanta e que corre a vir mostrar-nos, qual criança que é. Quando a madrinha vier vamos à neve. Quando a madrinha vier vamos ao bowling. Quando a madrinha vier jogamos ping-pong e à bola. É ele que me torna mole. Para ele sou futuro, toda a felicidade que ainda há-de vir.

Viagens na minha terra: o próximo haverá de ser uma máquina fotográfica.

Sabe enumerar todos os presentes que lhe “di”. Os de fazer na escola, os dos anos e os das festas. Vai buscá-los e mostra-mos com cuidado, ainda impecáveis, quase todos por estrear. Sabe que está a envelhecer. Solta um “credo!”, com uma entoação que me faz rir de familiar, para se referir ao espanto com que encontrou uma parenta no último funeral, que está “velha, velha, velha”. Está a ganhar medo. Confia-me o local do tesouro, panos, fotografias, aventuras em que ainda se quer meter, tristezas ainda por resolver e que a apoquentam o sono, um intervalo que medeia entre a novela e a cama em que se deita sozinha quando o gato anda fora às gatas. Quer deixar tudo dito, tudo pronto, tudo em paz. Diz-me que por vezes, à noite, dá por si a chorar. E eu, mal-educada para os afectos, não sei o que responder-lhe. Olho-a como quem ouve. Oiço-a como quem ampara.

Viagens na minha terra: o fantástico de ainda existir Cerelac.

Não sei há quanto tempo não nos víamos. Talvez fossem sete, talvez fossem dez anos ou mais. Primeiro houve o desconforto de não saber o que dizer. Depois houve o desconforto de percebermos que não havia nada para ser dito. Restou-nos o trivial. Disse que eu estava igual, e pareceu-me igual também ela.

Toda a gente sabia das gémeas, desafio dos professores, inquietação para quem não lhes caísse nas boas graças. Foram da minha turma, chegaram a ser minhas amigas. A Dora era a mais burra e, não sendo a mais instigadora, era quem mais problemas causava. Na secundária, nas aulas de Métodos Quantitativos, enquanto a professora escrevia no quadro, chamava o Paulinho, levantava o top e mostrava-lhe as mamas. O Paulinho ficava com um riso envergonhado e o resto da turma ria-se do riso envergonhado do Paulinho e louvava a Dora como maluca ou como heroína, na maioria das vezes, sinónimos. De certa forma, as mamas da Dora eram um activo público da turma, a que recorríamos quando estávamos aborrecidos com a importância fundamental da distinção entre um balanço e uma demonstração de resultados ou quando as economias em vias de desenvolvimento pediam uma explicação.

Não se sabe o que teria acontecido à roda da vida se a Dora existisse no sétimo ano, pois uma Dora e um Carlitos juntos, já se sabe, tem potencial. Não tendo mamas, o Carlitos batia punhetas no meio da aula de Matemática e, no entretanto do afazer, chamava as mais incautas para que lhe dessem atenção. Era um rapaz cheio de pressa de ser homem.

Conjurações à parte, o que é certo é que encontrei a Dora. Tem uma vida descomplicada, é mãe e está feliz. Trabalha como caixa dum minimercado de bairro, com horários longos mas que lhe permitem estar de folga ao fim-de-semana, quando pode passar mais tempo com a filha. Babada, tirou o telemóvel do bolso para mostrar-me uma fotografia. Tive inveja dela e comprei o meu primeiro creme anti-rugas.

Viagens na minha terra: opiniões sobre a Bernardina.

Não sabem o que faço na vida, não sabem onde moro, não conhecem o que oiço, o que leio ou o que vejo, não perguntam por ti. Ainda assim, são estas as minhas melhores amigas. Porque há pessoas com quem estamos e há pessoas com quem somos.

Viagens na minha terra: se o apanhasse à frente, fodia-o da cabeça aos pés.

O feminismo é uma lente, ponto de vista. Nunca se sentiu menor, descriminada ou abusada. Ser mulher não lhe é castigo nem condição. Ela muda de lugar e vê tudo.

When love is gone where does it go?


And where do we go?

There is no such thing as a failed soldier.

Ninguém perde por dar amor.

Deixa-me ir embora do teu centro.

Não te preocupes. Sabes que a memória afronta o tempo mas o tempo sai de qualquer batalha vencedor. Não te preocupes, o tempo virá. Para que não me engane a seguir a estrela errada, afastaram-se as estrelas todas no céu. Não descerá à Terra nenhum sinal. Protege-me tudo o que é inequívoco, dolorosamente claro. É também esse uma espécie de amor, o amor duro. Talvez o mais importante até, porque é o que melhor nos prepara. É para teu bem, ainda que só mais tarde o possamos reconhecer. Nunca olhas para trás, eu sei, e certamente será melhor assim. Não há agora nada que me possas devolver.

Queria ter-te abraçado. Devia ter-te abraçado.

Sou daquela categoria de pessoas que volta sempre ao local do crime.

Fui por uma razão, fiquei por outra.

O João e a Cristiana fazem um par bonito.

Há quem volte cheio de arrogância e desdém, a ladaínha já tão sacrificada dos sacrifícios que fizeram e os outros tão preguiçosos, porque isto nunca há-de mudar e são todos farinha do mesmo saco. E há quem volte humilde, não condescendente mas mais tolerante, porque tudo é escolha e afinal as uvas eram verdes e azedas e o País não é assim tão mau. Uns e outros, partimos todos iguais. Mas é na volta, mais do que na ida, que se nota a diferença.

Do Charlie Hebdo aos comentários de blogues.

A liberdade de expressão é uma maravilha para sabermos onde estão os idiotas.

Ricardo Araújo Pereira

Mas não é disso que se trata.

A não ser significarem o que obviamente têm de significar.

De nenhuma convicção é refém, nenhuma data, nenhum lugar. Segue livre pela vida como se lha tivessem dado e por isso lhe pertencesse. Não é uma pessoa geral. Só se envolve no que vale a pena. Para o resto, cede a razão a outros. É dona das palavras, mestre dos argumentos, mas é pelos gestos que vive. Levaria o mundo nos ombros se lhe pedissem. É simples mas não descuida pormenores. É bruta, pura e bruta como as pedras mais preciosas, mas adormece sempre como um anjo, as mãos juntas como quem reza. Um dia alguém lhe terá pedido para que fosse feliz e por isso, todos os dias, ela é feliz.

Looking for a stranger.


chatroom. tonight.

Let's keep in touch: Cancer have a hard time saying goodbye.

"Se por acaso encontramos um amigo que não vemos há décadas e ele nos pergunta "Que tens feito?", respondemos que vamos indo, devagarinho e tal, nada de relevante, trabalho e família, "Sabes como é". Depois do abraço de despedida, que representa um resto de afecto, uma memória de nada, cada um segue caminho por lados opostos da rua. E não nos espantamos que isto aconteça sem um baque, sem remorsos ao assumirmos que os anos deslizaram irrelevantes, enfim, trabalho e família."

Afonso Reis Cabral, O Meu Irmão

Só em literatura dizer é fazer.

Considerando a grandiloquência invejável de alguns advogados, contadores de narrativas dramáticas e cativantes, não deixa de admirar que não haja mais advogados escritores no mundo.

Reasonable doubt is for the innocent.

Na sua origem primeira, a presunção de inocência é um conceito bonito. Até prova em contrário, somos todos livres de culpa e dessa culpa não nos cabe defendermo-nos mas que no-la imputem. O ónus da prova está no olho acusador por princípio e, igualmente por princípio, havendo dúvida, esta deve ser favorável ao réu. In dubio pro reo. O problema é que não é rara a beleza que não seja artificial. Para toda a presunção de inocência há uma prisão preventiva a rigor. Disso até Sócrates sabe. Resta-nos por isso questionar a venda nos olhos da Justiça, entre quem afirme que garante assim a imparcialidade da senhora e quem jure a pés juntos que a tem aos olhos para não ver a bela merda que faz.

The question is not if you’ve seen Making a Murderer yet. It’s how long did it take you to watch it.

Preciso de falar disto com alguém: Steven Avery e o sobrinho são inocentes ou culpados? É preciso muita conspiração ou muita teoria dela?

Hear this. See this. Feel this.

Chega um dia em que somos todos desconhecidos de vista.

“Estou em Oxford, Reino Unido” e isto vais ser longo.

Gosto de vir ao café e ficar sentada nos cadeirões junto à janela que dão vista para a praça. Ou para o largo, não sei, sempre fui má com o mais quotidiano e óbvio da vida, praças e largos, camisas e camisolas, botas e botins, afectos e contas de dividir. É uma praça ladeada de árvores altas e edifícios laranja acastanhados, casas com comércio em baixo, ou lojas com casas em cima, depende de que perspectiva se olhe. Às Quintas e aos Sábados fazem aqui o mercado, com pão e legumes biológicos e quinquilharias e coisas usadas a bom preço. Tem um ou dois restaurantes, uma casa de apostas, as barracas dos kebabs, a antiga estação dos bombeiros, uma fileira de táxis sempre à espera, e um ou dois cafés, entre os quais este onde me encontro, numa imitação cara de cafés italianos com duas ou três jovens empregadas, geralmente italianas ou espanholas, acabadas de chegar e com um Inglês tão fraco como o meu mas igualmente treinado para entender à primeira o essencial do negócio: “small moka, with cream, to drink in”. Aqui é diferente de Londres, as pessoas sentam-se, de facto, no café. Têm mais tempo ou menos pressa.

Trago sempre um livro e procuro sempre o mesmo sítio, junto à janela da entrada, inteira e a ocupar toda a parede. Agora ando a ler “O meu irmão” oferecido, claro está, pelo meu irmão e que não podia ser mais perfeito mesmo que lhe tenha encontrado uma “cocha” em vez de “coxa”, e que já não sei distinguir se é gralha ou novidade do acordo ortográfico porque na realidade nunca me interessei por saber o que mudou, mesmo que isso me tenha causado um pequeno embaraço quando errei o “pé-de-atleta”. Um bom livro, um bom assento e uma vista, e sou novamente eu. Basta um dia assim para quase aspirar a fazer da escrita vida e tornar-me passageira errante pelos cafés do mundo. E a música, claro está. Porque neste tipo de cafés há sempre uma música de fundo que é a adequada e que nos leva a memória até a outro tempo mas nunca longe demais, Mumford and sons e afins.

Hoje não está um dia bonito mas está um dia melhor e os mais atentos conseguem decifrar distintamente pequenas nesgas de azul entre as nuvens. Vir ao café deixa-me quase sempre mais atenta. Sem querer, dou por mim atenta na minha distracção. Acontece-me muitas vezes, coisas do signo ou da lua. Pouso o livro e fico só a olhar as pessoas. Faz muito tempo, contei-te que não havia nada de interessante a meu respeito e tu retorquiste que eu estaria de certeza enganada, que achavas que eu era daquelas pessoas que ficava horas a observar os outros, a imaginar-lhes histórias, a olhá-los por dentro, e que isso era interessante. Bom, talvez não exactamente assim mas algo muito perto disso. Nesse tempo havia ainda aquela distância que nos aproximava a cada dia, pedindo sempre mais, pedindo tudo. Talvez agora já possamos concluir que isto nada tem de interessante e que passar a tarde no café a olhar os outros é só um exercício de solidão em que me vou aprimorando à falta de melhor para fazer num Domingo à tarde.

Mas sobre a praça, ainda. A estação dos autocarros é já aqui ao lado e por isso vêem-se a toda a hora pessoas a passar com malas. Nisso, ainda se parece com Londres, mas talvez apenas nisso. Não é porém uma praça central nem uma praça bonita. Há pombos e há famílias com crianças, algumas ainda bebés, mas não chega para fazer desta uma praça central ou praça bonita. Ninguém vem para aqui tirar fotografias excepto os casais apaixonados mas, esses, já se sabe que podem tirar fotografias em qualquer lugar, não precisam de mais nada senão daquela paixão.

Quando chego à página duzentos e quarenta e oito, quando o Miguel deficiente e os pais já velhos ficam isolados no Tojal, já o sol se pôs, 16:08. Por dentro da janela do café, o céu parece agora todo da mesma cor. Um azul uniforme. Morno. Magnetizante. Então oiço de novo a minha voz dentro da cabeça, sempre mais calma e mais bonita do que a minha voz fora dela, “estou em Oxford, Reino Unido”. Digo-o para me lembrar das infinitas possibilidades, do mundo a girar e do inesperado sempre disposto a acontecer. Quantas vezes ainda me surpreendeu o amor e a vida, quantas vezes a relatividade de tudo e o fascínio de existirmos, eu e tu, no mesmo instante de aqui e agora. Por isso, continuamos para ver o que vem depois. Esperamos. Pagamos para ver.

It's affection always.


So what does it mean if I tell you to go fuck yourself?
Or if I say that you're beautiful to me.

Vê lá tu que drama.


Shiuu, deixa passar, deixa esquecer.

Tenho medo de tornar-me uma pessoa triste.