Desta ninguém vai cair.

Hello stranger I

Sem querer, referindo-se a outra coisa, resumiu-me assim o sentido do peito, a mesma serenidade a que se abandonam os náufragos, mais tarde que cedo. Era o coração ao largo, a explicação que sossega as noites pelo simples facto de se poderem finalmente explicar. Não te convoco mas tens regressado, discreta mas evidente, presença mais completa, o que se diz da omnipresença. Entras-me pela noite adentro como quem volta atrás por ter esquecido as chaves ou um beijo e, quando a manhã me desperta, o dia é novo. De novo. Alucino, não repares, mas é na loucura que melhor me encontro, precipício de todas as moradas que valem a pena.

Num segundo a vida muda(-nos). Usámo-nos de todos os tempos verbais. Trocámos as voltas ao destino e por um momento fizemo-lo refém. Nosso. Ainda sorrio sempre que lembro como o enganámos bem. Como nos amámos bem. Hesitei na palavra, mas é a verdade e não há que ter medo do amor, talvez só da verdade. É também assim que sei. Enquanto sorrir.

Recuso-me a impôr limites à felicidade, aprendi contigo o truque. Não quero contar as vezes em que fui feliz. E, porém, o corpo sabe. O corpo, essa fronteira, sítio de atravessar. Espaço de cercos e conquistas, derrotas e rendições, até que a natureza se dome e se possa chamar casa. Aprende, aprende o meu corpo. Toma-me a boca porque entre um sim e um não, há um talvez que se sustem. O mais bonito do silêncio é, afinal, as possibilidades que lhe cabem. O que quero não é o que espero, o que escrevo nao é o que faço. Somos todos uma luta entre quem somos e quem queremos ser. Existimos no conflito de sermos possíveis perante o que é impossivel. Somos esse conflito.

E, todavia, há histórias que se começam e se acabam no mesmo dia e outras que são de repetir todas as noites no embalo dos filhos. A história repete-se, a vida não. Meu amor, o futuro são memórias por fazer.

Hello stranger.

Não te enganes: se se notar uma primeira estranheza nos olhos, é só porque as pupilas demoram a ajustar-se à luz.

Ainda tenho de pensar melhor nisto.

Chamaram-me optimista porque resolvo um problema de cada vez, à medida que vão aparecendo e sem lhes dar muita atenção. E ainda não sei se isto é optimismo de facto ou somente preguiça. Talvez apenas ums confiança exagerada na sorte, a tal serendipidade, uma suspeita de que poucos problemas há que possam merecer a minha real preocupação. No final, tudo se resolve. Há quem confie que até a morte.

Alta definição ou Esta música não me acende

Não gosto de pessoas que se referem com facilidade ao 'dom da escrita'. Geralmente são as mesmas que não têm 'o dom da leitura'.

No easy love.


I feel alive when I'm close to the madness.

Se fosse comigo

Há-de estar por aqui por ser uma dessas perguntas das noites mais longas, talvez ainda primeira do que aquela de deus, já que a humanidade sempre se mostrou mais real do que este, quer nas dores que inflinge, quer no incrível de executar impossíveis. Pensar nisso é assim imergir numa dúvida subsistente que veio não sei de onde mas que ficou para ser um alerta ao sentido dos dias. Porque a isso, não há como escapar. Se é certo que nem tudo a preto e branco faz sentido e que a vida não tem lados por onde a possamos observar e julgar, somente lacunas e relevos onde nos vamos ajustando à circunstância de sermos pessoas de fazeres, pensares e sentires, é igualmente verdade que até a chuva se recusa a ir com o vento se para aí estiver virada e que as pedras existem firmes na sua convicção de serem pedras por mais pontapés que levem. O luxo de ser imparcial está reservado apenas aos mortos. Escreveram que o mal acontece quando as pessoas de bem tapam os olhos e eu queria tanto desacreditar-me disso.

Todavia, é preciso relembrar as aulas de Filosofia e o professor Fausto no seu nome adequadíssimo enquanto lhe escutamos a lógica das premissas, proposições e outros afins, a voz de tenor enquanto me censura a importunação num dia em que não sei o que me deu, pois que sim que a vida é uma enorme rotina e que nada daquilo realmente importa à felicidade das almas – não mais do que me faria feliz agora uma daquelas sobremesas, toucinho do céu, ou um daqueles pãezinhos com queijo, meu toucinho do céu – mas que aquele não era o tempo para dizê-lo, por agora calar e escutar, a menina está a ser muito inoportuna, mesmo que a palavra tenha sido outra bastou a adrenalina de dizê-lo, no final uma recompensadora vaidade perante a turma, vendo bem, poucas as vezes em que não hesitei na vida, só mesmo nisto e no amor.

Mas voltemos atrás - já que nisso o tempo é-nos favorável, a vida afinal é bela, e mal se nota a intermitência na ordem natural destas ideias - para sumariar o que me trouxe e tão-pouco me abandona. A Filosofia, como sempre, para resgatar o que possa existir de verdade ou para assertar que não há verdade que nos salve e a que possamos agarrar-nos nem na mais tempestuosa tormenta. A palavra, para encher chouriços, perdão, um texto que se resume a três frases cuja importância se confirmaria pelo simples facto de ter isto começado nelas, como quem começa com o fim já em mente, tanta coisa assim na vida e nós que teimamos em enganarmo-nos só porque gostamos de  fingir-nos surpreendidos, ah, não estava nada à espera. E, finalmente, a lógica, a mesma que desafia os ímpetos do peito, para concluir que a indiferença conduz a uma inacção, mas nem sempre uma inacção resulta duma indiferença.

Não tenho medo da minha indiferenca mas assusta-me a minha incapacidade de acção. E, porém, já ela dizia que é pelos actos que vivemos, não esqueçamos.

Ainda não vi o Portugueses pelo Mundo na Sibéria

Falar de coragem (de deixar a família, os amigos, os costumes, o sol, a comida e blablabla) ao falar de emigração é, não somente ridículo, senão também insultuoso para quem de facto usa de coragem. A não ser que tenhamos recuado no tempo e exista um risco real de se morrer de escorbuto num porão duma qualquer barcaça que, contando com meses de viagem, pode ou não chegar ao seu destino ou, como há não tanto tempo assim, que vão passar a fronteira a monte com um saco de roupa às costas, ou tenham sido remetidos para o exílio e sem possibilidade de contacto com o exterior, não vejo onde esteja essa coragem toda que choram por aí.

Emigrar tem tanto de corajoso como tem o pescador que vai ao mar todas as noites: são escolhas com implicações, não sentenças insolúveis. Não nos enganemos então: é preciso mais coragem para ficar e mudar o que está mal do que para fechar os olhos e partir. O estrangeiro há muito que não é um sítio, é uma mentalidade.

Não preciso de mais.

E depois de um sim ou não há sempre um amanhã.

Cabem em nós todas as vidas que soubermos imaginar. Somos todos os recomeços que nos permitirmos.

A distância não é um lugar mas um desconhecimento.

Eu a reconhecer as casas mas sem saber a cara do Zé Luís.

Quem quer a eternidade olha o céu, quem quer o momento olha a nuvem.

Quando o despertador tocou, já ele estava acordado. Levantou-se com a ligeireza de sempre. Orgulhava-se de ser pontual no trabalho. Lavou a cara e deixou-se ficar a olhar para o espelho por uns segundos. No final haveria de ser assim, ele frente a ele. No final é sempre assim e ele não queria vacilar quando a hora chegasse. Não era pessoa de vacilar. Era aliás também por isso que escolhera um dia ser polícia, não haveria de ser agora. Foi só quando ouviu as primeiras agitações da manhã que abandonou o espelho, a mãe a buscar o saco do pão deixado no portão.

Vestiu a farda com diligência, engraxou as botas e fez a cama antes de sair. Quando entrou na cozinha, a primeira coisa em que reparou foi a fotografia da irmã. Estava no mesmo sítio de todos os dias mas, deu-lhe uma saudade pequenina por já não a ver há quase um mês, e ele quase vacilou ali. A mãe e o pai já estavam à mesa, ela ainda de camisa de dormir, ele ainda adormecido. Deu-lhes bom dia e comeu o papo-seco com manteiga. Comiam em silêncio, como quem tem mais que pensar ou que fazer. Antes de sair para o trabalho, perguntou ao pai se já tinha dado comer aos cães.

Saiu para o quintal, olhou para o céu adivinhando chuva. Agarrou na arma de serviço, encostou-a à cabeça e enfiou um tiro nos miolos. 'tava feito.

(não fosse o zumba e o verão a chegar e temo que nos tornaríamos uma aldeia deprimida. um conjunto de acidentes ridículos de horrendos e dois suicídios num par de anos são dores suficientes até para uma "pacata localidade".)


You caught the bus and I caught the train.

O meu 25 de Abril é uma saudade.

Nós punhamos a mesa e amesendavamo-nos à espera. Foi preciso chegarmos ao vinte e seis de abril de dois mil e dezasseis para descobrir que a palavra existe mesmo, mas que não tem o érre em amersendar como a minha madrinha ainda usa, nuances da nossa ruralidade que leva mais saber que quaisquer outras finuras. Aí está, nunca duvides da sabedoria dos antigos.

Haveria Sumol de ananás ou, se recuar ainda um pouco mais, Frutol vindo do Petrolim ou da loja da Ilda. Haveria cheiro a fumo e a gorduras, as batatas fritas sempre oleosas demais, o jantar atrasado e a minha mãe a mandar vir, expressão tão curiosa essa, mandar vir, os gatos a passearem-se junto aos tachos e o meu padrinho a mandar vir e, mesmo à segunda, continua a suscitar curiosidade, como um amor que nunca se esqueceu e que encontramos passados anos, coisa mais linda, mandar vir. Haveria a minha prima a mandar vir com o meu tio e eu a desejar nunca ter filhos mal-educados, e a minha outra prima a prestar vassalagem ao namorado e eu a desejar nunca ter filhos submissos. O meu avô com a camisa pingada de tinto cada vez mais bêbado e a repetir as mesmas histórias e algumas a terem piada até. A minha avó a mandar vir com o meu avô para não importunar as pessoas. Começava o jazz.

No final da noite, voltávamos apertados os quatro na carrinha, a chauffage no máximo porque até carrinhas velhas merecem o luxo dos estrangeirismos, e o meu pai deixava-me pôr as mudanças enquanto não chegássemos à estrada, mesmo antes de se acabar o pinhal. Nos dias seguintes, alguém deixaria de falar com alguém por algum diz que disse, um recalcamento calcificado persistente, ou uma qualquer questiúncula idiota. Esperar um ano e repetir.

O meu 25 de abril é só uma saudade dum tempo que já foi.

O dia que era para ser.

Festejemos todos porque somos todos livres. Coloquemos cravos na lapela e cantemos as conquistas, saudemos a rebelia, e choremos o que se perdeu como se fôssemos latifundiários expropriados de terra. Melhor que antes, melhor que nada. O 25 de Abril é um quase, o dia que era para ser.

Chamem-me ingrata.

Tal como sucede com Mário Soares, desprezo com a mesma convicção os Capitães de Abril. A quem se atribui paternidade não se pode esperar mais do que paternalismo, mas ainda nos admiramos. A Liberdade não tem pais, só tem filhos.

Estar em paz é melhor do que ter razão.


Diz-lhes que eu fiquei.

Quando acordaram de manhã, na mesma cama, ela disse-lhe que queria ter um passado com ele.

É verdade, a vida só é passível de ser entendida olhando para trás mas só é passível de ser vivida olhando em frente. Paradoxo insolucionável, é também por isso que continuamos: para que um dia possa fazer sentido.

Gira o disco e toca o mesmo.

Escrevo ainda só para não perder a prática. Isso e os títulos. Tudo me custa cada vez mais e não é a idade. Ontem perdi três das tuas fotografias de que mais gosto. No fundo, sou uma pessoa supérflua.

We are double in ourselves.

É uma daquelas perguntas das noites longas, elefante na sala caminhado atrás de nós em passos pesados, lentos, intermináveis. A pergunta ignora a resposta por medo dela. Condenas aquilo a que não consegues escapar, existencialismo de algibeira que se corrompe tão facilmente.

O mesmo nó na garganta. Fechamos os olhos em repulsa e condenamos em voz alta, cerramos o punho e batemos no peito porque nós não, nós somos diferentes, nós somos definitivamente melhores do que aqueles, melhores do que aquilo. A dor é nao sabermos, porém, agulha num palheiro que existe mas não se vê. Não eras tu, ali, com aquelas pessoas, naquela situação, naquele momento. A humanidade torna-se circunstancial. Afinal, regras são para cumprir, fiz o que mandaram, e quem és tu agora para me julgares.

Não deixes porém que te iludam ao ripostarem que não havia escolha porque até acordar é escolha. Que não te iludas também tu, animal domesticado que cala e consente. Podes ser fantoche, mas que te permitas ver os cordéis em movimento. Depois, que te envergonhes, sim, mas que assumas o que só a ti pertence. Tens a responsabilidade de ser livre. As tuas escolhas são a tua individualidade, o manifesto mais bonito da tua liberdade. A cada dia, espero que escolhas a vida. 

(depois de ver Experimenter e Le Jeux de la Mort)

Vendo bem, já mudei de casa mais de dez vezes.

Em mudanças como na vida, o melhor é carregares contigo o menos bagagem possível.

É assim que sei.

Lê-la é sempre querer conhecê-la.

What did you expect?

Só sofremos de amor e de uma obra por cumprir.

O espaço entre nós é o espaço em nós. São ruínas e pó, ideias tangentes do que o futuro guardava. Tão perto para lhes notar a ausência, tão longe para serem verdade. Há uma mágoa persistente em quem desiste cedo demais. Há uma inquietação fascinante no que vai do nada ao nada, transubstanciação que é milagre e mistério, ser e estar unidos na mesma disposição verbal e tão desencontrados no horizonte. A vida cristaliza-se e não sei onde encontrar-te. Diz-me que há um sítio onde nos guardaste, invisível. A lógica promete, mas não cumpre, o tempo passa, mas não há um único dia. Ganhei medo ao ridículo e ao silêncio, resposta que não vem, porta que não atravesso mesmo que esteja aberta. O espaço em nós, o espaço entre nós. Convoco a vontade, a mais sábia das virtudes, para que a razão não me deturpe o gesto. Porque o corpo não tem sentimentos, só sentires, não tem princípios, só fins. A razão protege-me mas não quero ser salva. Quero a chama da boca e o abismo de qualquer crença, mesmo a mais absurda. Quero o rosto e o resto. Quero-te bem. Quero-te tão bem. Quero-te, também.

Ainda a narrativa.

À primeira vista é um falhado que veio ali para falar-nos do seu fracasso. Não era uma dessas pessoas que falhou e vem agora falar-nos de persistência, aprendizagem, nunca desistir dos sonhos, blablabla pardais ao ninho. Ainda não foi bem-sucedido para se poder dar ao luxo, como outros que por ali aparecem de vez em quando para exercícios prolongados de narcisismo, de vir falar-nos de como batalhou, batalhou e conseguiu. A verdade é que ainda está na merda ou como o pôs, eufemismo simpático que tanto podia servir ao propósito próprio de desculpar a franqueza como àquele de não assustar uma futura classe trabalhadora que ainda não faz ideia da vida, está “sob um elevado nível de stress profissional e pessoal”.

Todavia, não se queixa. A qualquer momento pode desabar tudo, mas ele prossegue. Não desliga o telemóvel por medo de ir parar à prisão se nao prestar atenção suficiente. Tem de despedir amigos todos os dias e conseguir dormir à noite. Tem os olhos do mundo em cima, nenhuma margem para enganos, atacado todos os dias por todos os lados, quem manda, quem obedece, quem regula, quem compra e quem vende. Nao há desculpas. É ele contra todos, David perante Golias. Não o diz com pena ou para lhe enaltecermos os feitos. Quando baterem as 16:30, não vai querer saber de nós para nada. Abre as mãos e diz “é isto”.

Tem um certo orgulho no seu falhanço, uma espécie estranha de liberdade que encontrou no sítio mais inóspito e por isso mais inesperado e por isso a mais saboreada. A falta de expectativas é o seu escudo e o seu brasão, aquilo que lhe permite decidir sem medo. Ele vai com tudo. Quando outros falam de lucros de milhões, o que ele quer é apenas respirar, manter-se à tona da agua é missão bastante. Em sete anos passou de mais de quinhentos milhões negativos para cinquenta milhões negativos ao dia de hoje. Parece muito porque é muito.

O único momento em que se irrita é quando lhe perguntam se entra em politiquices, jogos maquiavélicos de poder e disputa. Diz-nos que não sabe em que mundo vivemos, mas, no dele, não há espaço para jogos. Não há cá pokers p'ra ninguém. De resto, há nele uma serenidade muito grande, coisa que se diz vir da adversidade. Nunca baixa os olhos, não tem vergonha nenhuma para exibir, está de bem com a sua nudez e, sendo feio, isto quase o torna mais bonito, a pessoa mais bonita daquela sala de aula.

À falta de sucesso, inventou para si outra medida. Não se mede pelos outros. Trocou a narrativa. Não poderia por isso ser um falhado.