There's a reason for the sky to be so blue.


(don't you ever ever doubt.)

20, 21, 22: um ensaio sobre a felicidade.

A felicidade tornava-se contigo brincadeira de crianças, de tão fácil e disponível, ali tão prontamente ao alcance dum bolo bem cozido, manhãs de sereias ou robôts. Há pessoas para quem o futuro chega atrasado e outras para quem chega adiantado e eu não sei ainda que dia é o de hoje mas sei que é feliz esta versão do futuro. Vamos ensaiando a felicidade porque é a prática que faz a mestria. Sentes que me aproximo e puxas-me para ti, dás-me a cara, dou-te a boca, e quando anoitece e os teus olhos são o embalo do meu sono, somos, eu e tu, um casal numa casa.

O que dizem os olhos.

Os olhos contavam tudo. No encontro dos olhos contavam-se todos os caminhos que permitiram aquele momento, todos os dias que fizeram aquele dia, todos os sins e todos os nãos, toda a espera, todos os medos. Todas as certezas se anunciavam ali, ver-te a ser sempre ver-me nos teus olhos, o teu olhar a ver-me por dentro, sete-luas em sete-sóis. Olhos como se fossem por natureza límpidos. Olhares como polaróides na sua paradoxal missão de serem ao mesmo tempo instante e eternidade do sentir, histórias de primeira e de última vez. Não afastes os teus olhos dos meus, desta canção ignoro a despedida. Os nossos olhos detêm-se numa única confirmação, aquela segurança que vem de quem sente fazer a coisa certa, aquela alegria de quem se descobre por fim, ainda uma secreta esperança que tudo perdure puro. Olharmo-nos assim é sempre as palavras a faltarem-me e todas a quererem vir à boca. Há no nosso olhar tudo o que sabemos e, por isso, não precisamos dizer. O nosso olhar é então palavra de beijar, beijos que se incendeiam no vagar da pele e voam na possibilidade de mil horizontes. Os olhos contam tudo e os meus só dizem o teu nome, amor.

Desta paz.

Há uma paz que ninguém sabe. Uma paz que não sabe dizer, que não se pode sequer escrever. Vê-la assim a dormir ao nosso lado, a respiração vagarosa e segura, as mãos prostradas ao aconchego e o calor do toque que se sente só de olhá-la, dorme meu anjo, minha bela adormecida. Nenhum problema no mundo, nenhuma inquietação, sobressalto ou incerteza são possíveis neste momento. Olhá-la e acreditar em milagres, desejar com toda a força que seja feliz. Beijar-lhe o rosto com cuidado e sem a despertar, e querer amanhecer e adormecer todos os dias neste sentimento. Dorme e é-me assim conforto, casa, esta paz.

'Cause there's this tune I found that makes me think of you somehow.

A liberdade, tal como a responsabilidade, é pessoal e intransmissível.

Omitir pode ser proteger e mentir pode ser cuidar. Abandonar pode ser também amar, desistir pode ser já vencer. Uso-me das tuas ideias para reconhecer um altruísmo tantas vezes julgado à pressa. Bem-aventurados os que sabem lidar não apenas com a sua liberdade mas também com a responsabilidade, pessoal e intransmissível, das suas acções, porque pertencer-lhes-á a tranquilidade.

What is done out of love always takes place beyond good and evil.

Existem mentiras mais plausíveis que verdades, verdades mais sufocantes que mentiras. Ninguém leva uma vida a preto e branco, se todas são mil variações de cinza e até os gatunos têm códigos de ética. Ainda que nos facilite as contas e a lógica concreta de existirmos, o mundo não é dual e não se divide em pessoas boas e más. Somos todos bons e maus, heróis e vilões em potência, sujeitos às mesmas intempéries de impulsos e deambulações de sermos força e fraqueza, medo e coragem, memória e esquecimento, tudo aquilo de que não nos orgulhamos, tudo aquilo que não podemos lembrar. As fronteiras do bem e do mal não se fazem em leis e costumes, só existem na tua cabeça e existe a História para nos demonstrar, inclemente e a cada dia, que tudo nesta vida é uma questão de perspectiva. Todos os assassinos se julgam boas pessoas e até Hitler, dizem, adorava crianças. Não queiras assim procurar uma explicação sem que te seja dada a possibilidade de andares nos seus sapatos, viveres as suas circunstâncias. A vida precisa de contexto para ser passível de ser entendida. Diz-me por isso que cortinas de ferro te abrigam, que facas te cortam o peito quando fechas os olhos, que prisões te guardam arrependimentos, omissões e honras, que palavras e que olhares te dilaceram a pele, sobre que temores se edificam ainda os teus gestos. Diz-me que segredos se deitam contigo a cada noite. Diz-me que não preciso de ter medo.

So come on love, draw your swords.

Como quem volta a casa.

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


Manuel António Pina

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter. Ter deve ser a pior maneira de gostar.

A emoção mais real é a do último instante, a vitória mais aflita e a derrota mais dolorosa conhecem-se apenas no extremo do apito final. Não se fale de injustiça sobre o que não pertence à justiça outorgar. É o incerto que nos move os passos e nos aperta o peito. Ninguém avança sobre certezas, nenhuma vida se sustenta de ses. A vida pode decidir-se toda na cadência de um suspiro, uma única pulsação e nenhum arrependimento, entre o tudo e o nada vai um golpe de asa ou um golpe de sorte. Tu, o incerto dos meus limites, gostar de ti até ao último segundo do último minuto. Meu amor, a vida toda é espera, a vida toda é saudade. Adiamos o toque e prometemos o tempo, reservamos a vontade e o melhor que somos e temos. De repente é dia. De repente somos já nós. Porque, dizem, chegamos sempre aonde nos esperam.

A felicidade é um problema de saúde pública.

A felicidade que me levou é a mesma que me traz. Antecipar a felicidade é já uma forma de ser feliz.

Os fortes aspiram a separar-se e os fracos a unir-se.

Elevam-se as fraquezas, glorificam-se as imperfeições, condescendem-se as falhas. Condena-se o orgulho, estranha-se a competência, reprova-se o sucesso. Repara como há mais preconceito sobre os ricos do que sobre os pobres, sobre os bonitos do que sobre os feios. Nota como destes esperas mais e toleras menos. Não queiras ser bonito porque nunca poderás ser nada além de oco e bonito. Não queiras ser rico ou nascer numa família que trabalhou para ser rica porque serás sempre mimado a viver num mundo cor-de-rosa e assim também eu. Não queiras ser o melhor porque gostas é de te exibir e não passarás dum arrogante. Não queiras ser inteligente porque lá estás tu cheio de mania a usar palavras caras. Nivelou-se o melhor do homem pela mediocridade do homem e a humildade irmanou-se à humilhação. Foi hoje que Nietzsche chorou.

A política é uma coisa demasiado séria para ser entregue a amadores.

Revolucionários em estágio, houve quem erguesse um altar de coragem e rebeldia à atitude da Grécia e queriam até que Portugal lhe seguisse o exemplo. Onde estão agora esses que nos queriam ver Gregos?

* título vindo do Delito de Opinião

I'm a heartless man at worst, babe and a helpless one at best.

Em cada instante, o que existe existe num mais além.

(...) o significado de tudo está sempre para lá dele, como o de cada palavra está no todo da frase, como o de cada frase está num complexo de sentimentos, como o do todo dos sentimentos está no estilo de uma época, como o estilo de uma época está no ar que se respira, como o ar que se respira está no ar que se respirou e viremos a respirar, como tudo isso está no destino do homem, como o destino no homem está onde. Em cada instante, o que existe existe num mais além.

Vergilio Ferreira, invocação ao meu corpo
(voltei a ler Vergílio Ferreira e a lembrar-me por que é o meu autor Português preferido)

O caos é uma ordem por decifrar.

Talvez seja de facto o ângulo o princípio diferenciador, nós vemos a vida do lado de fora e eles vêem-na do lado de dentro. Dizemos que são diferentes, desadequados a este mundo, desligados da realidade, apartados da razão. Aceitamos o contínuo do espaço e do tempo, absurdos teóricos e transcendentes, astros mil em deriva pelo negro dos universos, mas só nos dignamos aceitar uma razão e que seja a nossa, uma realidade e que seja a que vemos. A sua sem-razão é animal, a sua inquietação perturbante, cão, latido, ganido, ladrar, morder, calcanhares, carne, sangue, deus, morte. Há uma porta sempre aberta por onde entram e saem sem que pertençam a lugar algum. A loucura é uma porta sempre aberta que só fica bem aos poetas e aos bêbedos. Há uma realidade por detrás da realidade, um sentido por detrás dos sentidos, uma história por detrás de cada história, gritos por detrás dos gritos. A verdade não existe indiscutível e petrificada. A verdade está sempre por detrás da verdade. Chamamos-lhes loucos e eles riem-se na nossa cara.

Uma educação para o medo.

Existem, é certo, vários tipos e modos de medo e pode até dizer-se que o medo de agir é tão paralisante quanto o de reagir. Porém, não devem ser confundidos pois enquanto o medo de reagir é circunstancial, o medo de agir é intrínseco e, portanto, mais lamentável. Faz por tolerar um mas evita a todo o custo o outro pois não é o medo que paralisa, mas o medo de ter medo.

Da arte de estar ocupado.

Não basta estar ocupado. É preciso parecer estar ocupado senão mesmo demonstrá-lo, por isso te perguntam por vezes qual a tua "ocupação". No pior dos casos, chega mesmo a ser preciso comunicar que estás ocupado para que te deixem em paz.

Baby when you're gone I realise i'm in love.

E a vida é sempre assim.

Sammy, observa bem: é assim o amor. Chegar a casa e ter o almoço à espera, doces e tartes e tortas, a manhã começada cedo e acabada a horas e a expectativa do contentamento a cada dentada, porque cuida quem ama, ama quem cuida. Sammy, o amor é uma barriga cheia que nunca mais acaba. É a vontade em ponto de caramelo e sem hora marcada porque todas nos pertencem, o que se reserva e se refoga feito alimento. São as dobras no cabo do chuveiro e as manias todas juntadas na mesma ordem, os cheiros tão confundidos e tão nossos. Sammy, o amor é uma casa onde nos sentimos sempre bem. Adormecer no irrenunciável dos seus olhos, terreno virgem aos perigos do mundo, os dedos nervosos e tacteantes mesmo que a verdade fosse desde sempre conhecida e os pés e as pernas e o corpo sempre enlaçado porque o amor é uma respiração comungada a sincronizar-se no toque da pele. Sammy, nenhum verso é mais belo do que o concreto do encontro com outro corpo, nenhuma palavra mais reveladora do que o gesto. Acordar com o mesmo beijo e a mesma certeza, canções que despertam connosco e a vida toda a ser de repente simples, nenhum problema, nenhuma agitação, nenhuma agenda, nenhuma interrogação. O que eu sinto é exclusivo. Sammy, o amor é todas as respostas. Ver um filme e comer pizza na cama, rir e barafustar por tudo e por nada, inventar futuros com a mesma diligência com que se inventa o destino das sobras mesmo que em nós só sobrem possibilidades e (a)braços, todo o espaço preenchido pelo mesmo sentir de sermos nós, hoje e agora. Cinco libras mas é outra a minha sorte grande, porque eu também adoro esta vida, mi amor, mi gustas tu. Sammy, observa bem: a felicidade é isto.

What more reassurance can I give you? I'm here. I am here.

Se é da sua temporalidade que vem o medo, é também daí que vem a sua força, porque afirmá-lo é já tornar uma circunstância numa escolha. “Eu estou aqui” é então a derradeira suficiência não apenas por ser verdade mas porque todas as verdades são também assim, imediatas.

No fim de contas, são pouquíssimas as coisas que na verdade importam nesta vida.

No fim de contas são poucas as palavras
que nos doem de verdade, e muito poucas
 as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que nos fazem bater o coração, e menos
ainda com o correr do tempo.
No fim de contas, são pouquíssimas as coisas
que na verdade importam nesta vida:
poder amar alguém e ser amado,
não morrer depois dos nossos filhos.

Amalia Bautista

E, se me quisessem fazer ver que a vida era outra coisa que não esta, tão adequada, consideraria apenas desarmar essa tese pelo argumento fácil do meu sorriso.

Nenhum lugar é tão perfeito quanto o futuro.

Quando vieres, os ponteiros dos relógios não vão parar como na casa dos Saramagos, milagre inusual que só se digna acontecer aos poetas. Sobre o tempo, dizem que amanhã haverão de continuar as mesmas nuvens e, a fazer caso no que eles dizem, dar-se-á ligeira descida de temperatura. As marés não se alterarão nem o sol dançará no ar quando vieres. Não haverá rufar de tambores nem comunicados de última hora, não serás notícia no jornal. Quando vieres, ninguém dará conta, suspeito. Só as palavras se alterarão todas, palavras de dizer a serem palavras de tocar, a voz da escrita a ser a voz da vontade, o peito finalmente acalmado nos afectos e silêncios promulgados no cansaço, o mais feliz. Quando vieres, nada muda no mundo, que o saibas já. Mas espero-te com a mesma atenção e a mesma ansiedade. O meu coração a bater és tu.

(vem mas é pra casa)

É urgente cultivar a felicidade.

Pergunta a alguém se é feliz e repara como te olharão desassossegados, como se houvesse um estratagema escrupuloso por detrás da pergunta ou como se questionasses ali sem pudor o oculto de um segredo profundo. Repara como se movem inquietos e perguntarão cheios de agnosticismo o que é isso afinal, a felicidade, quimera tão longínqua como perdida. Haverão de hesitar numa conclusão firme, optando pela ambiguidade tranquila de um talvez, tem dias, o espectro acostumado do miserável vai-se andando, cá se vai indo. Para estes, a felicidade é excepção à regra, deslumbramento exigente e de condições variadas e nunca inteiramente satisfeitas. Repara como lhes é fácil entrar na noite de uma tristeza, um par de incidentes lhes basta para uma eternidade sem fim, porque a tristeza pode ser um vício como qualquer outro. Ela tem razão quando anuncia que já ninguém liga à felicidade. Pergunta de novo e observa. Ignora-te de ti por um momento e repara bem como há pessoas para quem a felicidade é um impossível. E então, de olhos bem abertos, que decidas escolher o encontro com a felicidade a cada dia. Nasceste para ser feliz.