Onde é que aprendeste o que é o infinito?


Anda viver comigo
Colamos o nosso umbigo
E não passaremos frio
No nosso lugar estranho
Um filho, um livro, um disco, uma árvore.

É só quando estou ao sol que me sinto emigrante.

Tomo o pequeno-almoço em Londres, almoço uma sopa de lombardo e um bitoque en Entrecampos, passo pelo Continente do Vasco da Gama para comprar bacalhau, e à noite estou na minha cama, em Oxford. É só quando estou ao sol que me sinto emigrante.

Chama-me sempre amor.

Não diz "sótão", diz "sobrado". Há palavras que nascem para ficarem eternamente suspensas na infância e esta é uma das minhas.

Se tivesse de ir sozinha, poderia dar-se ter medo de subir ao sobrado: as escadas íngremes e sempre tão instáveis, uma luzinha estéril que ainda hoje alumeia mal os cantos, a ideia de um "safanico" a aparecer entre o monte de batatas e subir-me pernas acima ou morder-me os dedos. Nunca aconteceu, porém. Era no sobrado que estavam os tesouros mais valiosos, colecções de posteridade e memória, não porque houvesse muita mas porque a minha avó guarda tudo. Roupas minhas, do meu irmão, da minha mãe, das minhas tias, de toda a gente, trapos coloridos, restos de lãs, brinquedos, peluches, coisas por acabar e coisas por arranjar, malotes, arcas velhas, sacos dentro de outros sacos dentro de outros sacos, e também fotografias, muitas, algumas já sem cor e outras já sem rosto, e a balança de braços e pesos que nunca enganava o meu avô, medidas de alqueire, quartas e oitavas. Subíamos ao sobrado pelos motivos mais fantásticos que podiam durar um dia inteiro mas, na maioria das vezes, poderia ser uma razão tão utilitária como ver se já lá vinha o homem da fruta ou para onde seguia a ambulância, que se via e ouvia à distância de duas aldeias vizinhas. Do sobrado não víamos o mar mas víamos o tempo para amanhã: o meu avô sentava-se àquela janela e dizia que amanhã ia chover.

Ontem resolveu-se um mistério familiar. Parece que o Floriano, o filho do Pardaluxo, contou ao meu pai que conhecia muito bem os meus avós e até se lembrava de ter ido à boda de um casamento no sobrado. Depois de umas rápidas inquirições na lista de casamentos que fazem uma vida, ontem lá se descobriu que o casamento era afinal dos meus próprios avós, que juntaram ali vinte a trinta pessoas para comemorar a coisa. Quando lhe contei da saga, riu-se muito e adicionou um par de detalhes que eu não sabia. Faz hoje anos e chama-me sempre amor.

Logo se vê.

Só o que é conhecido pode merecer a tua inquietação.

Ama o impossível, porque é o único que te não pode decepcionar.

Não acredito no que chamam "crise". Acredito na cobardia, pouca ética e falta de imaginação de quem se justifica com a crise.

Nenhuma vitória se ganha se se não puder perder.

A queixa parte sempre de uma ilusão de insuficiência. Por vício, cegueira ou abandono, há quem acredite que não há outro remédio e se dedique com afinco à inutilidade da auto-piedade e complacência. Mas repara que há sempre opção.

Não permitas, por isso, que outros tomem as decisões por ti. Tens, tu, a liberdade e a responsabilidade do teu destino, em cada acto que fazes e em todos os que deixas por fazer. Sempre que te queixas, culpando outros, nada mais fazes do que transferir para terceiros as consequências de uma escolha que é, por direito e dever, tua. Sempre que te queixas, é primeiro a ti mesmo que ofendes, à falha da tua decisão, tomada ou omitida, com ou sem dolo. És dotado de livre-arbítrio e, nota, tens poder de escolha. Não te queixes.

Filho, ouve a tua mãe.

É importante repetir-to porque é importante que o guardes: sê o melhor naquilo que fazes, para que possas ser tu a decidir onde e com quem queres trabalhar.

Conas & enconados.

(...) Não podíamos estar assim se fossem só os animais que mandam. Há também muito jogo e trunfos na manga dos animais que obedecem. Há uma mediocridade doentia que se promove para fazer nada, para calar, para seguir com a feira o mais cabisbaixa possível. E é isto. Mas vem sempre um fazer de sinaleiro, armado em sério, apito nos beiços, estabelecer o ponto de ordem, pôr o seu pintelho na salada. Como se o nosso problema fossem as pesporrências, como se o problema não fosse o partido geral de conas & enconados que traz isto tudo pacificado com a noção de que estamos todos na merda, mas de que a culpa (estranhamente) mora lá longe, do outro lado, servindo-nos até de bode expiatório para a panhonhice que aqui reina.

Língua Morta, 19/02

O amor é como chegar a casa.

Deixo cair o medo e rendo-me toda à fragilidade mais evidente. Adio a mágoa que chegará um dia (a mágoa chega sempre), porque ela tem razão quando diz que a dor não se procura. O passado não se repete e o futuro, pertencendo-nos, é sempre matéria desconhecida e em construção. Ouso palavras que a memória não perdeu mas às quais a vontade e a saudade moldaram o significar. São tratados da alma, estes que vão do peito à boca e só poderiam contar-se no chamamento da tua pele, quando desabamos no mesmo lado do querer. Isto que sinto fez-se maior do que o hábito.

Olho-te para ver o que vês, os mesmos tempos de rinocerontes e dinossauros, os mesmos sonhos que te dão a cor aos olhos. Oiço-te para desinquietar as verdades, ler a beleza das coisas simples no menor dos gestos. Entendo-lhe bem o susto e o fascínio mas não troco já a ideia mais genial pelo concreto da boca. Toco-te porque há uma certa inevitabilidade no conforto do corpo a que não consigo furtar-me, aquele sorriso no cansaço mais esperado. E conto os dias, porque há pessoas que são casa.

Enjoy the little things.

Sou feliz só por preguiça.

Sou feliz só por preguiça.
A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença.
É preciso entrar e sair dela,
afastar os que nos querem consolar,
aceitar pêsames por uma porção de alma
que nem chegou a falecer.

Mia Couto

A anatomia do toque.

Quando a noite está para adormecê-la, um pouco antes de se abandonar ao corpo, agarra-nos a mão devagar mas com firmeza, ou por vezes só o polegar, por ser o que está mais a jeito. Prende os dedos nos nossos como quem deita âncora em terra para que não a levem as ondulações irregulares do mar e a sua respiração é livre de qualquer inquietação. Está segura. Há na anatomia do seu toque a mesma certeza que se encontra em todas as coisas simples. Toca-nos os sentidos como quem chega a casa e não quer mais partir. E, quando adormecemos, dormimos sempre bem.

Sonho que se sonha junto.

É possível que em diferentes pontos do mundo, a diferentes horas da noite, duas pessoas estejam a ter o mesmo sonho sem que o saibam. É possível ser esse o sonho capaz de mudar o mundo, escusemos Freud de outras interpretações. O choro é tanto resultado de uma tristeza como de uma alegria, e o que nos assusta é ainda o que mais nos fascina, fogo que tememos mas do qual não conseguimos afastar o olhar. Nessa noite sonhei e por pouco não toquei a realidade.

Another Bella Swan, yet with even bigger daddy issues.

É o alarido que se cria em torno do filme, que revela o porquê do filme ser (ainda) necessário. Assim se contradiz a dita banalização do sexo: o que é banal não exige alarido.

Repetir até acreditar.

Durante muito tempo, encontrei todos os dias aquela frase a caminho do trabalho, manhã e fim de tarde, idas e vindas: “nós não somos a Grécia, nós não somos a Grécia, nós não somos a Grécia, nós não somos a Grécia, nós não somos a Grécia”. Não querendo antes ser comparado com a Grécia, Portugal quer agora, à força toda, ser a Grécia. Olho para tudo isto e parece-me apenas que somos um País que não sabe o que quer.

Is it real or just something we think we know?

Sou de business (e Caranguejo) ou A extraordinarização do mundano

Falavam de liderança como a extraordinarização do mundano e foi aí que tive a certeza de ser aquilo um desperdício de tempo. Enganavam-se: é o amor o que torna o mundano extraordinário.

Here’s the theory: you’re in charge.

Repara que o poder não está em quem dita a ordem mas em quem decide se a acata ou não. Não se trata de algo que se dá mas sim algo que se recebe. Só tens poder, se outros to derem.

Dizem que são precisos, em média, 66 dias para formar um hábito.

O problema do burro velho não é não conseguir aprender línguas novas mas antes não conseguir esquecer as línguas velhas.

It’s not a problem for us. It’s a problem for history.

Não olhava para trás nem mascarava a realidade. Aquilo tinha acontecido e tinha sido ele quem fez acontecer. Nem sempre clarividente, a verdade é sempre crua. O seu orgulho estava na sua mestria pois até morrer exige competência. Dorme sem sobressalto, vive sem remorso, e espera daí compreensão. Nenhum fantasma lhe assalta a existência porque existir é coisa de vivos, os que deixou sobrarem. Não lhe assustam punições porque não sente a culpa. Fez o que precisava de ser feito e tudo é modo de interpretação. Lembra que são os vencedores quem define os crimes de guerra. Aquele crime não era portanto um problema para ele. Era um problema para a História.

The act of killing: relax and Rolex

Não queriam ser assassinos, queriam ser actores. Não queriam ser sádicos, queriam ser homens livres. Queriam ser melhores do que qualquer gangster do cinema.

Somos os tais (bebé).


Até te canto o Bô tem mel.

Se hoje fosse Outono, chamar-te-ia meu amor.

Não é a relação que legitima o sentimento, é o sentimento que legitima a relação. Não é o tempo que legitima o sentimento, é o sentimento que legitima o tempo. Não são os outros que legitimam o sentimento, é o sentimento que legitima os outros. O sentimento vale por si, vive por si, morre por si.

A sua riqueza mede-se pelo número de prejuízos que pode suportar.

Não te enganes: uma má decisão não faz uma má pessoa.