O que buscamos uns nos outros é sempre a noite.

Uma viagem de comboio: do amor, uma história simples.

O amor tanto é de quem o sabe dar como de quem o sabe aceitar.

Uma viagem de comboio: das memórias, uma lembrança.

Não são os objectos, as cartas, as fotografias, os postais, nem os vídeos. São as memórias. As que vivem contigo, as que te matam, as que te mudam, as que te fazem. A primeira queda a sério, uma ou outra humilhação e um ou outro sucesso, as mágoas, o primeiro beijo, o dia em que tiraste a carta, o dia em que se conheceram, todas as mortes, a primeira vez, a última vez, aquela discussão, as palavras que ficaram para ser eternas, o reencontro nos olhos límpidos dela, as viagens, os cheiros, os gostos, as vozes, o toque, as cores, os sentimentos que um dia foram, as piadas mais parvas mas que eram as vossas, as histórias, a História, as canções, o primeiro riso, o primeiro choro, o primeiro dia de escola, o dia perfeito, o dia mais triste da tua vida, o dia que fez os outros. São as memórias.

As memórias que te pertencem porque foste tu que as fizeste. As memórias que te pertencem porque tas fizeram em ti. E também as memórias que tu não pediste mas que não consegues apagar, outras que tu inventaste e que não te saem agora da cabeca. És memória e esquecimento, equilíbrio de paz e dor. Podes acumular honras, dinheiros, factos, pessoas, mas contigo só levarás memórias. Escolhe com cuidado aquelas que queres fazer e ainda com mais cuidado aquelas que queres guardar.

Uma viagem de comboio: dos medos, uma divisão do mundo.

Há pessoas que hipotecam o futuro com medo do presente e há pessoas que hipotecam o presente com medo do futuro.

Uma viagem de comboio: das mágoas, uma comparação.

A mágoa é como água que se atira: raras vezes é possível magoar sem sair magoado.

Das partidas: abraços.

Abraçou-me e não sei se foi por mim ou por ela.

Das partidas.

Só deus sabe. Estão todos no mesmo sítio, sob o mesmo céu. Partilham os mesmos metros quadrados de chão, o mesmo ar, e vão todos para o mesmo destino mas ninguém sabe de outrem além de si. Alguns não sabem ao que vão e vêem ali uma oportunidade, outros só encontrarão o engano. Não se sabe se vão por férias ou por negócios, se regressam ou se partem, se ficam cinco meses ou cinco anos. Não sei quem deixam, quantas pessoas, quantas perdas, quantos sonhos ou quantas saudades. Não sei do que fogem, ou o que procuram, se vão por medo ou por ambição, se é desespero ou coragem. Talvez alguém os espere, talvez não. Cada partida deixa um vestígio, cada regresso uma esperança. Eles vão mas só deus sabe onde.

Dos regressos: a amizade é trinta quilómetros p'ra lá e outros trinta p'ra cá.

Atá as amizade mais filosóficas precisam dos seus incentivos mais triviais. A amizade é mundana e do tamanho do que se caminha. No meu caso, a amizade continua a ser trinta quilómetros p'ra lá e outros trinta p'ra cá.

Dos regressos.

A cada regresso levo a mesma desconfiança e o mesmo medo. Quanto terá mudado o mundo desde a última vez. Quanto terei eu mudado. Qual o momento em que nos tornamos desconhecidos sem que o notemos a tempo. Qual o momento em que as palavras perdem o sentido e nos deparamos, sem agitação, com o vazio porque reconhecemos já a inevitabilidade de que são feitos todos os fins. Quando foi que me tornei estrangeira reflectida na inocência do meu afilhado, que me pergunta quando volto para o meu País. Quanto de mim ainda está naquele sítio e de quanto já me livrei. Há quem regresse para a saudade, para a vanglória, até para a vergonha do queixume. Mas os meus regressos são sempre viagens de ida e volta, de garantia e confirmação, validar hipóteses e procurar a tranquilidade das certezas, mesmo que sejam mínimas. Umas vezes enchem-me, outras esvaziam-me.

Moça 'tás no ponto.


És partida e chegada.

Ninguém te influencia, ninguém cria em ti. Tudo quanto és, em ti existia. Ainda que indecifrável, ainda que incompleto e tosco, ainda que terra inculta, tu és o solo onde a semente se dá ou não. Porque entre o ovo e a galinha, o nascido e o criado, até sobre o big bang há quem duvide. Porque nada nasce de nada e todos os actos de paz, todas as guerras, antes de se deitarem em força ao mundo, começam primeiro no coração do homem.

Valeu a pena vir a Portugal só para ver o anúncio da depuralina gorduras.

A insegurança é como a gordura: não é bonito andar com ela toda à vista.

Just as long as you stand (by me).

E a liberdade aqui tão perto.

Não te enganes: frontalidade é algo bem diferente de má-educação. Nenhuma frontalidade deve ser um confronto, menos ainda uma afronta. Nota bem: a frontalidade não permite tudo. A frontalidade, mesmo a aplaudida, não te exime de nada, nem da estupidez.

(como adoro o facebook.)

O silêncio é de ouro

Respeitar o silêncio não é consenti-lo, mas antes entender quando é tempo de aceitá-lo e quando é tempo de quebrá-lo.

Não se mandam cartas de amor registadas I

O amor é sempre um acto de fé.

(repetido, porque é importante repetir)

Não se mandam cartas de amor registadas.

A vida podia ser outra coisa qualquer porque nem mil versões servem para contar uma história. A verdade, as omissões, os acidentes, os ocidentes, as contrariedades, as contradições, são episódios que se perdem entre os dedos de uma mão aberta. Aproxima-se o dia do livro, a feira do livro, e eu penso sempre que as páginas desta minha vida podiam ser outras. Parece que foi há tanto tempo mas foi ontem, parece que foi uma escolha mas foram tantas. Neste dia de sol, eu tanto podia ser mulher da terra, cortando a rama às cebolas, como podia ser executiva na capital, nome e renome num fato inteiro como manda o preceito. Quem sabe, professora da língua mais bonita, quem sabe, dona de casa atenta aos programas da tarde, enquanto os miúdos não chegam da escola, ele ainda no campo. Até preta de mares naufragados, até índia, até dona de tudo ou simplesmente ser ninguém.  Tu podias ser a jovem promessa do País, atleta de alta competição mundo afora, artista de circo ou consolação num sítio distante de crianças risonhas, podias ter enveredado pelas coisas úteis e justas, ou entrado na anonimidade duma aldeia esquecida do mundo. Nesta tômbola de sortes, podia enumerá-las a todas sem a nenhuma ser fiel. Podíamos todos ser outra coisa. A vida acontece a cada instante e podemos todos ser outra coisa.

Podia a vida de duas pessoas nunca ter-se cruzado e permitido o tempo e o espaço que continuassem despercebidas, ilesas e sem adulterações. Houve porém um dia em que as conspirações se desfizeram e o mundo atracou todo na mesma circunstância de existirmos tu e eu. O extraordinário da vida encontra-se nas suas manifestações mais ordinárias.  Estás, como ela disse na limpidez das palavras mais simples, na história da minha vida. É por isso que sei e não temo. Venha o que vier, levo-te dentro de mim, olharei por ti, porque hoje, pensando n'ontem, guardo a mesma certeza naquela vivenda que era virada para o mar. Porque um dia, não esqueço, trouxe todos os dias. Um dia, soubemo-nos cuidar.

Baby that's not all.


Leva a amizade a sério.


Nenhuma tristeza se faz de futuro.

Não te enganes: a tristeza é auto-sustentável. Não desiste, não se cansa, mas fica ou vai como quem toma uma decisão.

Vida súbita.

Lembra-te disto: também a vida é coisa de acontecer-te a qualquer momento.

O mundo distrai-nos da vida, a vida distrai-nos da morte,

Terás sido tu, ou a vida, quem me habituou mal. O mais provável é que tenhas sido tu. O mundo distrai-nos da vida, a vida distrai-nos da morte, e por vezes, esqueço-me da facilidade com que tudo pode acontecer. Morreste e ressuscitaste tantas vezes, em episódios que seriam sempre impossíveis, que habituei-me a achar-te imortal. Tu és imortal e ninguém poderia duvidar disso porque eu tenho provas em casa, relatórios e exames e diagnósticos e prognósticos. Quase deixei de saber preocupar-me contigo, porque passava a ser esse um esforço inútil de desnecessário.
 
Não é que gozes da morte mas sempre a olhaste de frente, como igual, uma mão que lava a outra e a balança de repente equilibrada, porque o tempo, o amor, a vida, são de dar e receber, e todos os dias se morre, todos os dias se nasce. Por isso, para ti, vida e morte não são inimigas ancestrais em lutas diárias pela conquista das almas cansadas, doentes, desprevenidas, bem-amadas, mas é aquela tão discutida questão da igualdade, a mesma que dança na boca dos diferentes, mas a falharem todos a ideia primeira e última, a fundamental, mas que tu já tinhas entendido, numa precocidade que ninguém soube adivinhar à avó, quando nasceste. Porque não se degladiam, afinal, em noites de trovoada, como diziam, mas são amigas, amantes, irmãs, iguais. A vida está dentro da morte como a morte está dentro da vida e não se pode dizer o nome duma sem invocar o nome da outra. Isto é o que tu sabes. Isto, o que tu sempre soubeste de antemão.
 
Talvez fosse por isso que não se encontra medo nos teus olhos, embora seja de supor que o guardes nalgum lugar escondido da vista, porventura, no mais fundo do peito. Nunca se ouviu o pranto na tua voz, queixume algum, e as tuas alegrias e as tuas dores, sempre as resolveste sozinha. Eu, mal-habituada e insensível, quase crente, obrigo-me por vezes a ignorar as coisas da lógica e continuo a defender a tua imortalidade. Mato a tristeza à nascença, esvazio pensamentos por um pequeno de paz e vendo-me à noite em vergonha às senhoras e senhores dos milagres, enquanto continuo a abençoar as maravilhas do corpo porque ela tem razão quando diz que a dor existe mas não se procura. E raramente, só raramente, tenho este medo.

Refugees don't need our tears. They need us to stop making them refugees.

Não precisas de levantar os olhos como se procurasses resposta ou salvação: o céu e o inferno acontecem, todos os dias, na terra (e no mar). Abre os olhos.

Like I'm the only girl in the world.

Vem mas é para casa.

Só conheço a intimidade que nasce na pele, no riso e no choro. De tudo o que poderia ser, escolho ser todos os detalhes que guardei. Para aquilo que me abraça, nunca sei generalizar. A minha saudade tem sempre o teu rosto.