Let me be clear.


You are entitled to nothing.

Dreams should last a long time.


I hope to arrive to my death late, in love, and a little drunk.

Acontece-me nos momentos mais inoportunos: a meio de frases, ou quando te enervas, ou quando estás a dormir. E não te digo nada, convencida de que sabes tudo.

De una manera inexplicable, de una forma inconfessable, de un modo contradictorio.

O amor é uma conspiração segredada a dois.

The best place to be is somewhere else.

Passaram-se coisas. Passaram-se meses, sítios e pessoas. Era preciso registar como fui a Copenhaga ensaiar futuros, ou aquela sensação de negro por todo o Berlim. Era preciso escrever de como o sol se põe a horas de lua na cidade que me guarda o coração, ou de como dei comigo no hotel das putas e na balada do Esteves recusado, menos do que gostava, mais do que esperava. Era urgente que ficasse aqui porque tudo o resto é passageiro, este o sítio da memória. Falar de Malta como falei de Buenos Aires só para poder repetir que em todo o lado se vive e que em todos te sei o pulso. Passou-se tempo, mas não quero que me passes tu.

A quem é pequeno, qualquer um parece grande.

O mal tornou-se banal ao ponto do normal tornar-se extraordinário. O bem é escândalo. A facilidade com que se encaram corpos lacerados no meio da rua entre a sobremesa e o café, voyeurismo de fazer audiências, contrapõe-se ao louvor exacerbado com que elevamos a heróis quem nada mais faz do que aquilo que julga ser o certo a fazer. Vamo-nos medindo pelo que não temos, pelo que não conseguimos, pelo que não somos e é por essa medida, mais vazia que cheia, que nos observamos uns aos outros. É a nossa incapacidade, a nossa conivência, a nossa preguiça e a nossa indiferença que faz heróis. A nossa pequenez, o seu heroísmo.

(a propósito disto)

Don’t pray for Venezuela

As mulheres são esterilizadas para não terem de sujeitar os filhos à pobreza. Multidões alimentam-se dos animais do jardim zoológico para não sucumbirem à fome. Vendem-se caixões de papelão.

Ando cada vez mais impressionada com a falta de espelhos que abunda no mundo

O primeiro: com o sinal para peões vermelho, atravessa a rua à grande e a mandar vir com o carro que lhe apitou porque “deves achar que por teres um Porsche és mais do que os outros”.

O segundo: com a filha pela mão, sem esperar que todos os passageiros saiam do comboio, força a entrada respondendo com violência a uma rapariga que tentava sair “why are you pushing me, you stupid bitch?!”.

Faz sentido.

Everybody got their reason.

As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam: mais ou menos isto.

Uma espécie de repugnância, de nojo, de zanga crescia em mim numa onda de marés, e apetecia-me empurra-los, Joana, apetecia-me bater-lhes, apetecia-me enxotá-los em direcção do portão, apetecia-me insultá-los até que recuperassem a insolência, o desafio, o orgulho, o desprezo, a firmeza, até que levantassem o queixo da mesa e me fixassem, no refeitório nauseabundo e húmido, sorrindo de altivez e de sarcasmo.

António Lobo Antunes, em Conhecimento do Inferno

As pessoas que eu mais admiro são aquelas que nunca acabam.

Em contrapartida, aquelas que mais desprezo são aquelas que nem sequer começam. Pessoas que vivem no medo do medo, à superfície da vida e sem entrar na água, sem ambições ou objectivos, tão assustadas que preferem fechar-se ao mundo e aos outros, tão pessimistas que não aceitam a felicidade ou a ideia dela, tão tristes, uns tristes. Convencem-se que a sua passividade e cobardia são inevitáveis e que, no fundo, talvez até mereçam ser assim. São estes os coitadinhos da vida, subjugados e sofridos até mais não, vítimas que não conseguem deixar de ser vítimas numa atitude que mais parece masoquismo, porque os outros conseguem, mas eles não são capazes, porque os outros não estão nas mesmas condições que eles, porque eles são únicos e os outros são maus. Sacrificam até a liberdade por não aguentarem a responsabilidade de tomarem decisões. Preferem, até, que nada se altere porque o desconhecido dá uma carga de trabalhos, ui que susto, apesar de tudo até que não se está mal assim.

Aceitar ser vítima é troçar da liberdade. Quem não se respeita, não pode esperar dar-se ao respeito.

(some-se a isto uma personalidade atada de quem não sabe fazer nada sozinho e acorda a querer a papinha toda feita – e agora o que é que eu faço, Ana? -, porque ufa como é extenuante talhar um caminho e tomá-lo como nosso!, e uma carência extrema que endeusa todo aquele que lhe dê atenção, e temos a personagem principal do novo livro da Ana Zanatti. Meu deus, livra-me disto.)

É tão cinzenta, a Alemanha.

Só me sinto emigrante quando passa a canção “Para os braços da minha mãe”: choro sempre.

Portugal: voltei, voltei, voltei de lá.

Vou sempre com a mesma apreensão e regresso sempre com o mesmo alívio: para o bem e para o mal, está tudo igual.

Divisões do mundo ou E vai na volta o escritor Luiz Pacheco entrou

O mundo divide-se também assim: quem acha que Luiz Pacheco foi o maior pulha que aí andou, bêbado, maldizente, e a comer tudo o que andasse, sem honras de se apelidar escritor; quem gostaria de ter convivido com Luiz Pacheco, de bom grado lhe abriria as pernas, e acha que é dos escritores mais reais que por aqui passou; e quem não faz a mínima ideia de quem estou a falar.

(gosto muito de Luiz Pacheco, essa espécie rara de Bukowski Português)

Ah rapazinho (dos incapazes de enconar a vida)

Como este tipo é real, como este tipo é tranquilizadoramente real, pensou, até no hálito espesso de bagaço, até na vulgaridade obsequiosa das feições: um homem concreto, verdadeiro, sólido, ancorado no mundo lógico dos impostos, das multas por estacionamento proibido, das costeletas à salsicheiro e dos pequenos ódios conjugais. Um homem como os homens e as mulheres da Cervejaria Trindade, verifiquei, as mulheres e os homens frustrados e azedos da Cervejaria Trindade na noite em que conheci o escritor Luiz Pacheco. Eu estava encostado ao balcão com o Zé Manel, a ouvi-lo falar da tristeza, da solidão, da perplexidade da sua vida, no interior daquela enorme piscina de azulejos povoada de vozes, de tilintar de copos, de roçar de tecidos, era em março e as pessoas mergulhavam o nariz na espuma da cerveja como os cavalos na praia, uma nuvem de fumo pairava sobre as nucas de cera, demasiado brancas, das pessoas, as feições de estearina e os cabelos suados das pessoas, e vai na volta o escritor Luiz Pacheco entrou, com dois sacos de plástico repletos de jornais nos punhos, um boné à Lénine na cabeça, os olhos protuberantes de tartaruga magra atrás dos óculos que os impediam de tombar no chão num ruidozinho de louça. Vinha perdido de bêbado e as mulheres e os homens frustrados e azedos da Cervejaria Trindade, as mulheres e os homens sem talento da Cervejaria Trindade troçavam dele, remexiam-lhe nos sacos, tiravam-lhe o boné, puxavam-lhe as abas da gabardina enodoada, riam-se-lhe nas costas o azedume de leite podre da inveja ou apertavam-lhe a mão como se aperta a mão aos augustos no circo, num misto estranho de condescendência e de desprezo.

- Caralho – pedi eu ao Zé Manel -, pela tua saúde tira o velho das unhas destes cornos. São os netos dos cabrões que jogavam pedras no Rato ao Gomes Leal, são os impotentes que se queixam de que neste país só se faz merda e que quando aparece alguém que não faz merda desatam a rosnar de fúria e de ciúme diante da tesão alheia por sentirem o trapo murcho nas ceroulas, por não serem capazes, por não serem definitivamente capazes de enconar a vida.

- Este é o António Lobo Antunes – disse o Zé Manel na sua voz afectuosa e doce que transformava as palavras em ternos bichos de feltro. Trazia Le Monde consigo como os tipos do século XIX as bengalas de castão de prata, e eu pensava Le Monde é a gravata dele ao olhar-lhe a roupa lançada com descuido sobre o corpo pequeno, a pulseira de cabedal, o cabelo escorrido sobre a gola da camisa. O escritor Luiz Pacheco oscilou ligeiramente nas pernas inseguras: o seu orgulho pungente, a sua insuportável ironia, reduziam os pénis dos impotentes a engelhadas coisinhas moles de mijar, enrolas nas calças numa vergonha de lombrigas. Uma farripa descolorida oscilava como uma pluma contra os azulejos da parede. Deitou a gabardine para trás, desembaraçou-se dos sacos e esbofeteou-me a cara, com ambas as palmas, num júbilo divertido:

- Ah rapazinho.

E éramos os três únicos sujeitos vivos naquele cemitério de tremoços. 

António Lobo Antunes, em Conhecimento do Inferno 
(cheguei tarde a Lobo Antunes mas dizem que todos os grandes amores se querem últimos.)

Sou de business ou O meu portfólio é maior que o teu

Quem trabalha em empresas prestigiadas, começa por apresentar-se dizendo onde trabalha; quem não tem um grande nome por detrás, apresenta-se com o cargo; quem nem isso, usa o número de anos de experiência ou qual o ano em que implementaram o seu primeiro escritório de gestão de projectos; em último caso, há ainda quem diga o número de projectos que tem no portfólio. O mundo dos negócios é uma disputa de egos: mijam todos no mesmo sítio, mas não deixam de olhar-se a ver quem tem a pila maior.

Sou de business ou KPIs

Não é quantas pessoas aplaudem ou o resultado dos inquéritos de satisfação finda a conferência, é quantos tiram fotografias aos teus slides enquanto estás a apresentar.

Desta ninguém vai cair.

Hello stranger I

Sem querer, referindo-se a outra coisa, resumiu-me assim o sentido do peito, a mesma serenidade a que se abandonam os náufragos, mais tarde que cedo. Era o coração ao largo, a explicação que sossega as noites pelo simples facto de se poderem finalmente explicar. Não te convoco mas tens regressado, discreta mas evidente, presença mais completa, o que se diz da omnipresença. Entras-me pela noite adentro como quem volta atrás por ter esquecido as chaves ou um beijo e, quando a manhã me desperta, o dia é novo. De novo. Alucino, não repares, mas é na loucura que melhor me encontro, precipício de todas as moradas que valem a pena.

Num segundo a vida muda(-nos). Usámo-nos de todos os tempos verbais. Trocámos as voltas ao destino e por um momento fizemo-lo refém. Nosso. Ainda sorrio sempre que lembro como o enganámos bem. Como nos amámos bem. Hesitei na palavra, mas é a verdade e não há que ter medo do amor, talvez só da verdade. É também assim que sei. Enquanto sorrir.

Recuso-me a impôr limites à felicidade, aprendi contigo o truque. Não quero contar as vezes em que fui feliz. E, porém, o corpo sabe. O corpo, essa fronteira, sítio de atravessar. Espaço de cercos e conquistas, derrotas e rendições, até que a natureza se dome e se possa chamar casa. Aprende, aprende o meu corpo. Toma-me a boca porque entre um sim e um não, há um talvez que se sustem. O mais bonito do silêncio é, afinal, as possibilidades que lhe cabem. O que quero não é o que espero, o que escrevo nao é o que faço. Somos todos uma luta entre quem somos e quem queremos ser. Existimos no conflito de sermos possíveis perante o que é impossivel. Somos esse conflito.

E, todavia, há histórias que se começam e se acabam no mesmo dia e outras que são de repetir todas as noites no embalo dos filhos. A história repete-se, a vida não. Meu amor, o futuro são memórias por fazer.

Hello stranger.

Não te enganes: se se notar uma primeira estranheza nos olhos, é só porque as pupilas demoram a ajustar-se à luz.

Ainda tenho de pensar melhor nisto.

Chamaram-me optimista porque resolvo um problema de cada vez, à medida que vão aparecendo e sem lhes dar muita atenção. E ainda não sei se isto é optimismo de facto ou somente preguiça. Talvez apenas ums confiança exagerada na sorte, a tal serendipidade, uma suspeita de que poucos problemas há que possam merecer a minha real preocupação. No final, tudo se resolve. Há quem confie que até a morte.

Alta definição ou Esta música não me acende

Não gosto de pessoas que se referem com facilidade ao 'dom da escrita'. Geralmente são as mesmas que não têm 'o dom da leitura'.

No easy love.


I feel alive when I'm close to the madness.

Se fosse comigo

Há-de estar por aqui por ser uma dessas perguntas das noites mais longas, talvez ainda primeira do que aquela de deus, já que a humanidade sempre se mostrou mais real do que este, quer nas dores que inflinge, quer no incrível de executar impossíveis. Pensar nisso é assim imergir numa dúvida subsistente que veio não sei de onde mas que ficou para ser um alerta ao sentido dos dias. Porque a isso, não há como escapar. Se é certo que nem tudo a preto e branco faz sentido e que a vida não tem lados por onde a possamos observar e julgar, somente lacunas e relevos onde nos vamos ajustando à circunstância de sermos pessoas de fazeres, pensares e sentires, é igualmente verdade que até a chuva se recusa a ir com o vento se para aí estiver virada e que as pedras existem firmes na sua convicção de serem pedras por mais pontapés que levem. O luxo de ser imparcial está reservado apenas aos mortos. Escreveram que o mal acontece quando as pessoas de bem tapam os olhos e eu queria tanto desacreditar-me disso.

Todavia, é preciso relembrar as aulas de Filosofia e o professor Fausto no seu nome adequadíssimo enquanto lhe escutamos a lógica das premissas, proposições e outros afins, a voz de tenor enquanto me censura a importunação num dia em que não sei o que me deu, pois que sim que a vida é uma enorme rotina e que nada daquilo realmente importa à felicidade das almas – não mais do que me faria feliz agora uma daquelas sobremesas, toucinho do céu, ou um daqueles pãezinhos com queijo, meu toucinho do céu – mas que aquele não era o tempo para dizê-lo, por agora calar e escutar, a menina está a ser muito inoportuna, mesmo que a palavra tenha sido outra bastou a adrenalina de dizê-lo, no final uma recompensadora vaidade perante a turma, vendo bem, poucas as vezes em que não hesitei na vida, só mesmo nisto e no amor.

Mas voltemos atrás - já que nisso o tempo é-nos favorável, a vida afinal é bela, e mal se nota a intermitência na ordem natural destas ideias - para sumariar o que me trouxe e tão-pouco me abandona. A Filosofia, como sempre, para resgatar o que possa existir de verdade ou para assertar que não há verdade que nos salve e a que possamos agarrar-nos nem na mais tempestuosa tormenta. A palavra, para encher chouriços, perdão, um texto que se resume a três frases cuja importância se confirmaria pelo simples facto de ter isto começado nelas, como quem começa com o fim já em mente, tanta coisa assim na vida e nós que teimamos em enganarmo-nos só porque gostamos de  fingir-nos surpreendidos, ah, não estava nada à espera. E, finalmente, a lógica, a mesma que desafia os ímpetos do peito, para concluir que a indiferença conduz a uma inacção, mas nem sempre uma inacção resulta duma indiferença.

Não tenho medo da minha indiferenca mas assusta-me a minha incapacidade de acção. E, porém, já ela dizia que é pelos actos que vivemos, não esqueçamos.

Ainda não vi o Portugueses pelo Mundo na Sibéria

Falar de coragem (de deixar a família, os amigos, os costumes, o sol, a comida e blablabla) ao falar de emigração é, não somente ridículo, senão também insultuoso para quem de facto usa de coragem. A não ser que tenhamos recuado no tempo e exista um risco real de se morrer de escorbuto num porão duma qualquer barcaça que, contando com meses de viagem, pode ou não chegar ao seu destino ou, como há não tanto tempo assim, que vão passar a fronteira a monte com um saco de roupa às costas, ou tenham sido remetidos para o exílio e sem possibilidade de contacto com o exterior, não vejo onde esteja essa coragem toda que choram por aí.

Emigrar tem tanto de corajoso como tem o pescador que vai ao mar todas as noites: são escolhas com implicações, não sentenças insolúveis. Não nos enganemos então: é preciso mais coragem para ficar e mudar o que está mal do que para fechar os olhos e partir. O estrangeiro há muito que não é um sítio, é uma mentalidade.