Can you hear, when I say?


I have never felt this way.

Dos problemas enquanto falácias lógicas.

Sendo difícil, a vida é porém simples. As coisas são como são e uma interpretação raramente coincide no facto. Virtualmente, todos os problemas são falsos e só a morte é problema sem solução. Há tantos caminhos, como disseste. No egocentrismo de quem não é capaz de se olhar em perspectiva, inventamos não poucas vezes problemas que não estão lá. Na estranha dificuldade de nos afastarmos de nós mesmos e relativizar, ignoramos possibilidades que seriam óbvias. Quando disse que não tinha problemas, pasmaram de assombro, surpreendidos. Pediram-lhe que olhasse melhor, mais fundo, de certeza que haveria um problema, alguma coisa a curar, alguém a perdoar. Afinal, toda a gente tem problemas. Não o conseguiam acreditar que ela, na sua pronta determinação, se anunciasse sem problemas, nem ao menos um pequenino. Também eles, em face do simples, procuraram complicar como se, por ser simples, fosse incompleto ou desconecto da realidade. Não admitiam que se pudesse tratar um tema tão complicado de uma forma tão simples. A simplicidade parece-lhes a eles complexa.

Nos momentos de desassossego, volto ao meu amor pelas coisas simples como o caminho mais certo para o que se sabe importante. Olho o que se tatua na carne para melhor me lembrar, sempre do lado esquerdo porque é esse o lado do coração, como me ensinaste. Nas aves que me voam do braço, guardei para sempre essa lição. Dizem-me de partidas e regressos, dizem-me a liberdade, a simplicidade, o amor, tão perto umas coisas das outras. O teu nome, aquele. Quando me desassossego, é sempre ali que volto. Amar o destino como ele é, simplesmente, e encontrar aí todas as soluções.

You can usually see the person's arm holding out the camera in which case you can clearly tell that this person does not have any friends to take pictures of them so they resort to Facebook to find internet friends and post pictures of themselves, taken by themselves.

Quando chega alguém, senta-se à janela, ocupa a fila seguinte. Ninguém se senta no assento do lado. Todas as filas do autocarro vão ocupadas, todos os lugares à janela, à esquerda e à direita, apenas uma pessoa por fila. Do autocarro, às compras online, até à recente moda dos selfies com sticks: pedimos amizade a estranhos nas redes sociais, e vamos a cada dia ficando mais distantes uns dos outros.

But you have something to look forward to.

Disse que, ao contrário de mim, que podia esperar pelos meses de sol, ela não tinha nada por que esperar pois, ainda que a temperatura subisse, o céu continuaria da mesma cor. E eu, que não queria, vi-me acabada de chegar de Lisboa e a dar-lhe razão.

Saudade (é o ar que vou sugando e aceitando).

Ainda o amor puro.

A felicidade começava nela sempre pelos olhos, que se tornavam maiores, mais redondos, mais brilhantes, límpidos. Dois sóis se fosse dia, duas luas se fosse noite, coisa miraculosa e capaz de fazer acreditar finalmente num sentido para o mundo. Fosse feliz e os olhos encher-se-iam logo todos de luz. Só depois a sua felicidade alastrava ao resto do corpo, que a acolhia pronto como terra a receber água, a pele a ficar ainda mais suave e luzidia, aquele toque o mais agradabilíssimo. De todas as partes, importa porém realçar a boca e os sorrisos mais bonitos que se poderiam alguma vez criar numa boca. Quando sorri feliz, tudo se suspende para dentro daquele sorriso. É um sorriso cheio de verdade e salvação, que lhe acentua a beleza e que seria capaz de redimir a todos os pecados. Quando está feliz, ela sorri muito e a toda a hora. Sorri ainda na sua voz de criança feliz enquanto cede ao primeiro sono, já a tropeçar com esforço nas palavras da boa noite. Gosto muito de ti. Gosto tanto de ti. Olho-a, feliz, com a absoluta certeza de que é aquilo a felicidade e de que não quero sair de dentro daqueles olhos. Aproximo-me mais e abraço-a com firmeza porque a felicidade é coisa de agarrar.

I should have known better: eu sei.

Nenhum sentimento puro acontece à vista desarmada. O que é de dentro só se pode ver dentro.

A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier.

Mesmo que a mágoa venha, talvez não seja agora. Mesmo que a morte seja anunciada, não é esta a hora. Se até ao lavar dos cestos é vindima, e se é seguro o intento e sincera a palavra, que o medo não tolde o dia. A saudade dura a vida toda e o futuro é só amanhã.

That girl makes me wanna be better.


She's fearless, she's free.

Hoje ainda dormia mais.

É a reacção o que (des)valoriza a acção. Não é (só) o que se diz, é (sobretudo) o que se sente. Hoje ainda dormia mais.

A imaginária linha oblíqua do apêndice.

É preciso imaginação e uma assombrosa capacidade de confiar totalmente, metade fé, metade absurdo. Constroem teorias e metodologias na areia do vazio. Apregoam um cientificismo que é, por natureza, artificial. Chamam rigor, previsibilidade e sucesso, sem repararem que tudo é um factor crítico do acaso. Cantarolam as boas práticas, sem notarem que dormem sobre pressupostos. Sorte. Defendem decisões em intervalos de probabilidade, sem perceberem que estão no escuro. O abstracto seduz, a roleta rola, alguém acredita e aposta tudo. Preferimos uma mentira forte a uma verdade fraca. Preferimos que nos convençam, a que nos esclareçam. Lidamos muito mal com a ideia de aleatoriedade, aquela falta de controlo, a rede ausente debaixo dos pés. Somos sonâmbulos à mercê duma qualquer voz, a que melhor saiba argumentar e persuadir. Talvez o maior perigo não seja a ignorância mas o que se toma por verdadeiro. Só saberemos o que não sabemos quando finalmente soubermos.

Há tristezas repreensíveis.

Já Nietzsche rezava que a compaixão é coisa de fracos.

(ilegítimas, diria ela)

Big eyes: you had me caged up like a bird in mid-summer.

Repara que a submissão exerce-se de dentro para fora. A coacção começa, não raras vezes, com uma aceitação, passiva ou activa, do facto. As vítimas são-no, muitas vezes, da sua própria fraqueza.

The shape of the song that we're singing.

Antes que me esqueça.

A primeira palavra dita é sempre a mais perigosa. Era um dia de calor e eu, metade razão, metade sentimento, ainda sei lembrar-me. Na tua boca, a palavra era sempre uma ousadia à espera do meu momento mais distraído para acontecer. Era preciso que conhecesses todos os passos do caminho, da frente para trás e de trás para a frente, para que não tropeçasses sem querer nessa palavra. A tua determinação não permitia acasos desses. E ela veio, com a mesma inocência e simplicidade das coisas verdadeiras. Nesse dia, eu deixei de saber o que fazer, admitindo que as palavras também se gastam e que não pode haver ciência no que é particular. No medo de não saber melhor, deito-te sobre o meu peito, confiando que podes ouvir ali todas as respostas. Tudo o que nem sei dizer.

Sink back into the ocean

A primeira reacção é de repulsa física. Um nojo que vem de dentro. Evitar a todo o custo o toque daquele corpo sujo, porco, conspurcado. Não me toques, não te atrevas a tocar-me. Depois vem a mutilação de todos os desnecessários, o que não importa e passa a importar, como se esse esclarecimento de retrospectivas pudesse iluminar a ignorância ou apaziguar a violência da descoberta. Quem, quando, quantas vezes, onde. O porquê, a única que valeria de algo, é sempre a última pergunta, repara. 

A primeira reacção é de excitação. Uma aventura em que embarcam juntos, gozam juntos, e regressam juntos. Pelo meio, perderam-se muitas vezes em muitos corpos. Cruzam-se, olham-se, tocam-se. Observam-se como estranhos por uma vez. São donos e senhores de si e o desejo nos olhos dos outros é também o desejo deles. Quando a noite acaba, são sempre uma escolha consciente num mar de possibilidades imediatas. O risco é calculado e recompensado. Não fazem perguntas, repara.

O corpo que chama é o mesmo que afasta. A boca que beija é a mesma que cospe. A liberdade é além do consentimento mas o que é consentido é sempre com sentido.

Bury the evidence: 7

Por vezes bastam juntar-se duas mentiras para fazer nascer uma verdade.

Exemplo: 3

Quando lhe perguntaram do melhor golo, respondeu: "o próximo". É o melhor do mundo e isso é também porque sabe que nenhum sucesso se faz de passado.

Como é que se chamava mesmo aquela menina de 10 anos, na Nigéria?

O problema fundamental não foi o ataque à liberdade de expressão, pois que acontecem atentados piores, a liberdades maiores, todos os dias. O problema fundamental foi isto ter acontecido à pobrezinha da Europa, esse símbolo manifesto de harmonia, multiculturalismo e tolerância. O que chamam agora de revolta não é mais do que um cagaço grande de sermos europeus. O resto é conversa e já foi perdoado.

There's no point in saying anything but the truth.

A vontade não se guarda.

Pessoas como nós, independentes. É quando brincamos ao futuro que mais tenho medo de acreditar em ti, mesmo que me contes que os demónios não existem. A boca pode dizer todos os nomes e eu, que quero tudo, sei que tudo querer é também uma forma de se ser injusto. Invento-te verdades que bem poderiam ser mentira, o que não vou gostar de ouvir. Quantos segundos podem passar entre um dia e outro, quantas certezas reclama a memória? O que segura, sendo sentido, não é o mesmo que prende, e o amor não se diz. O corpo não acalma, só pede. O peito concede porque o mundo começa e termina a cada grito. Na minha ausência, tu és todas as sombras da noite, a desconhecida que quero levar p'ra cama. A vontade não se guarda e a minha ignorância é abençoada.

A felicidade precisa de testemunhas.

É mais fácil esconder a infelicidade do que a felicidade. A verdadeira felicidade, de tão imensa, não se contém, é uma exposição que é tão acidental quanto necessária. Eu cheguei e todos perceberam que estava feliz.

Os invisíveis.

Estão na cama. Ela está aninhada nele, a cabeça pousada no seu peito, os olhos cerrados pela preguiça da manhã, ainda mal habituada às cores do dia. Dorme como quem dormisse na mais confortável cama do mundo. Ele, meio sentado, tem uma mão atrás da cabeça, a outra agarra o cigarro, que leva à boca com gosto. Olha em frente, mas para lado nenhum. Poderia dizer-se que leva a lentidão extenuante que vem depois do sexo. Sorri, como quem inesperadamente encontrou num dia frio o calor dum sol de inverno.

À mesa da cabeceira têm tudo o que lhes coube por sorte no mundo, três ou quatro sacos de plástico mal cheios. Pertencem àquela rara raça de pessoas que ficam felizes por pouco. E seria este o cenário mais normal, não fossem estas pessoas fazerem daquele canto casa, debaixo da cobertura duma das lojas da moda, numa das ruas mais movimentadas duma das cidades mais cosmopolita do mundo.  Estranhos invadem a sua privacidade todos os dias, sujam-lhes o chão, olham-lhes nos olhos ainda por lavar e no cabelo despenteado. E eles despreocupados, espreguiçam-se, sorrindo.

Também não tenho grande jeito para o desenho.

Disto já não há.

Já não há empresários, só há empreendedores. Já não há fraquezas, só há áreas de melhoria. Já não há crianças mal-educadas, só há crianças hiperactivas. Já não há falhanços, só há desafios. Já não há ofensas, só há humor. Já não há julgamento, só há opinião. Já não há medo, só há respeito.