She smelled of daisies.


Ainda.

You have a heart and I have a key, lie back and let me unlock you.

Quem quer, arranja maneira. E, querendo, disseste a verdade. Beijei-te nesse momento mas nem viste.

Procuro-te como se procura um erro.

É possível avançar para a vida como quem vai ao engano.  É possível atentar no erro estando consciente, perfeitas condições de sanidade. E até possível que se ambicione a esse erro e com determinação o persigamos. Que desejemos ardentemente o castigo, o ruído das ilusões a quebrarem-se como bilhas na calçada, porventura até um pouquinho de dor, só para garantir que ainda conseguimos sentir. Não te deixes levar por aqueles que dizem que os erros servem para aprendermos. Olha para mim, ainda agora. Há coisas que não queremos aprender, Madalena. Há erros como sobremesas, valem a vida toda. Se puderes, não queiras acidentes, a involuntária cadência dos caminhos. Se puderes, que escolhas os teus erros. E que sejam os melhores.

75-30-25.

Volto a fazê-lo. Não é a primeira vez. Noto-lhes o desapontamento, a incompreensão, até mesmo uma certa incredulidade. Os contornos da boca ajustam-se, o olhar perde-se, não o dizem em voz alta mas nem é preciso. Esmaga-me aquele olhar. Não é a primeira vez, mas há vezes que custam mais que outras. Porém, como explicar-lhes isto sem o pesado julgamento do sangue? A vida toda pode mudar na ponta de uma escolha. Opto pelo caminho mais curto, aquele que se furta a questões e preocupações e digo baixinho que não faz mal porque a mentira é da condição humana, sobretudo aquelas que são necessárias. As tais de densidade mais leve, cor menos aguerrida. Encho o peito para lhes mentir como quem assume a responsabilidade de o fazer bem feito, a fim de tornar a mentira mais pura e justificada. Quase como se a mentira fosse assim mais honesta. Existem mentiras cheias de honestidade, digo-te já.

Por eles, ensaio o perdão da ausência e, no limite, recordo as diversas moradas que me habitam, aquela só mais outra. Afinal, não se pode prioritizar o que e inerente em nos. De nada vale decidir entre a fome e a sede, tento. Não falo de egoísmo, ainda me dói a palavra. Faço por convencer-me do seu propósito, errante dessas coisas do sentir, e haverei de dizer em maquiavélico alívio que os fins justificam os meios. Mesmo que sejam hipotéticos, mesmo que sejam só coisas da minha cabeça. Se puder tocar só mais uma vez a felicidade, que interessa tudo o resto que pende na balança? Os caminhos do coração são sempre certos.

As intenções são destinos de metade, rendas que não chegam a amadurecer, e a minha intenção era boa. Repara, Madalena, as intenções são sempre boas. O importante, Madalena, é não baixar os olhos.

Adoro o teu pragmatismo, disse ela, e eu constatei que ainda não me conhece.

Na vida sou teórica, no trabalho sou prática.

Portugal: o teu Produto Interno é Bruto.

Não há  nada como ter de passar um dia inteiro a tratar do Cartão de Cidadão numa conservatória Portuguesa para nos lembrarmos logo que Portugal só é bom para férias.

Não há angústia existencial quando se está na pastelaria a hesitar entre um mil-folhas e um éclaire de chocolate.

Na passagem da fronteira sou sempre quem esquece tudo e ali se recomeça. Atravesso territórios outros que não cabem nos pressupostos espaciais de sermos raizes debaixo do sol em lenta espera. Deixo para trás a casa, as contas, as pessoas e as rotinas. Por esta hora, não recordo já o código postal, sequer o que faço. O mundo entra em pausa, finalmente. Respiro pensando na alegria que é respirar e assusto-me sempre com a facilidade com que a vida se muda na geografia da memória, o pensamento já tão distante e em vôo livre. Debaixo do sol, o meu único problema é agora decidir se é ainda cedo ou não para se comer um pastel de nata.

Porque no dia que eu partir, não é a minha vida que eu quero ver passar à frente dos meus olhos. É a tua.

Quando lhe nasceu a filha, passou a ter medo de morrer.

My home is a girl with eyes like wishing wells.


Tudo o que te disser, tudo o que escrever, sou eu a perder-te.

Nunca entrei dentro da dor. Todas as minhas dores sempre foram passageiras, fragmentadas ou estrangeiras, quase como parentes em segundo grau. Talvez seja por isso, não sei, que por vezes sou oblívia à tua dor. Distraio-me com facilidade. Sei que existe e que veio para ficar, porém. Mais que isso, sei que não posso fazer nada a respeito, o que me frustra e me paralisa na mesma medida. Só existo e parece-me tão pouco.

Há dias em que noto-lhe as sombras. São palavras ausentes, silêncios que duram demasiado tempo e também hiatos de felicidade, ecos de felicidade, a vida que já não se completa. Noutros, és torrente de esbanjar e não te poupas às vontades. Nenhuma tentativa é vã, tentasses tu. Pouco mais lhe conheço. Nunca perscrutei a tua noite. Nunca quis ousar a visita às ruínas da tua saudade ou sequer incomodar-te os pensamentos, mesmo esses. Sobretudo esses. Esta história não me pertence. Mesmo escrevê-lo é já algo a que me furtaria de boa-vontade, mas é preciso que saibas e que não tenhas dúvidas. Bem sabes como sou fraca com as coisas de sentir, ou será do dizer, e como me ofende o turismo da tragédia. Habitei sempre nas fronteiras desse território que delimitas tu. Nunca te pedi ou pedirei mais do que a resposta que me dês e está tudo bem. De ti, sempre quis pouca coisa, apenas tu.

Nesses dias, observo-te o natural sentido prático de quem não insiste nem desiste mas ama o seu destino tal como ele é porque o passado é uma história que não podemos mudar e o futuro ainda está todo por fazer. Nesses dias, como em todos os outros, não sei para que te sirvo. Afinal, sempre levaste muito bem a vida pelos caminhos que te aprouve, antes e depois de mim, e o coração sempre foi insular. Mas nesses dias, meu amor, que saibas que nunca adormeces sozinha porque em todos cabes no meu abraço. Beijo-te o cabelo, a hipérbole da boca, e a dor afasta-se um bocadinho, só por esta vez, Simona. Sim, dói porque estás viva. Dói, mas estás viva.

É preciso continuar a meter o coração pelos atalhos.

Quando penso ou sou presenteada com boa comida, lembro-me sempre de ti.

Most people find a disorientating mismatch between the long-term nature of their liabilities and the increasingly short-term nature of their assets.

Desisto com facilidade. Se não me ouvem, se não entendem o que quero dizer, se não me atendem no restaurante. Calo e espero que aprendam por si. Saio e levo o meu dinheiro a outro lado. O tempo é precioso para se ser paciente com o que não o merece. Infelizes daqueles que acreditam, como contam as revistas e os sonhadores, que nunca se deve desistir, pois morrerão cansados. Sou dessas pessoas que desistem. E não tenho vergonha.

Os escritores não têm de sentir nada, ou querer significar nada, têm é de escrever.

Aos poucos, vou perdendo o sentido de decoro: comprei um livro chamado “Read This if You Want to Be a Great Writer”.

Blessed is the man who, having nothing to say, abstains from giving us wordy evidence of the fact.

O Bruno de Carvalho é o sonho molhado de qualquer académico Português nas áreas de Gestão e da Psicologia: que caso de estudo mais rico e fascinante sobre liderança, gestão de equipas, ética, inteligência emocional, gestão do conflito, comunicação!

They say you're basic, they say you're easy.


O coveiro que o diga quantas vezes se apoiou na enxada e o coração que o conte quantas vezes já bateu para nada.

Questionou o que era isso, uma morte digna. Ela tem razão: todas as mortes são indignas.

Extinguimos a pena de morte, mas mantemos uma pena de vida.

A propósito do debate sobre a eutanásia (o Ouriquense reúne tudo o que vale a pena saber-se), lembrei-me da história dele. Morrer é, de facto, mais difícil do que parece.

A profissão de acompanhante está altamente subvalorizada.

Não pagámos £16 para ver o concerto, mas pela companhia uma da outra.

E murmurando-me, ao partir, "a escrita cresce", consolou-me.

É fácil cair nessa tentação, mas não te queiras enganar. Não confundas a falta de jeito com a falta de tempo.

Diet meal replacement shakes.

Quando até querias oferecer comida ao sem-abrigo que decidiu aportar esta noite à porta do prédio e não encontras nada que se sirva em casa. À falta de melhor, tivemos, eu e ele, de contentarmo-nos com água.

Donde no puedas amar, no te demores.

À minha pergunta, respondeu que ainda não estavam assim completamente apaixonados para isso. E àquela resposta, indo para mais de seis meses, fiquei eu a perguntar-me, quase com dó da sua esperança. Se não até aqui, quando?

Percorríamos um futuro já passado.

Não é preciso ser atento para notar que, em comum, só temos o nosso passado. O mesmo ponto de partida, referência geográfica que me começa mas que não me limita. Não conhecem as músicas que oiço, as séries que vejo, os livros que leio ou os locais que frequento, as pessoas com que me dou, esta língua com que trabalho. Mesmo de ti sabem pouco. Mesmo a estes textos, são indiferentes. A nossa relação existe apenas porque existiu o passado e o passado é sempre um sítio demasiado frágil, longínquo, para a gente habitar. Não sei se elas já o pensaram também, mas há coisas que não se devem perguntar a fim de que não se tornem reais. Apesar disso ou talvez por isso, esforçamo-nos, umas mais que outras, umas mais que outras vezes. Sempre que vou, faço por vê-las. Cocó, ranheta, facada. São a minha evidência de que é possível, uma raridade bem sei, viver do passado.

Ensaio sobre ela.



Ainda faz um tempo bom p'ra desperdiçar comigo.

O amor ainda mais sincero quando não se sente nada, não se encrava na garganta, não tropeça, não nos envergonha, não nos faz pensar.

Não estou apaixonada por ti. Não sinto nada mas, se fosse ontem, chamar-lhe-ia amor. Hoje, chamo-lhe amor. Se fosse daqui por um, cem anos, séculos dos séculos em sagrada liturgia, continuaria a chamar-lhe amor. A pureza de que nos tomámos é ainda das verdades mais seguras que carrego. Há uma inquebrantável força na consciência da felicidade. Ser-se feliz, sabendo-o. Não por me teres amado mas por me permitires a liberdade de amar-te. E se isto não servir para nada, ao menos serve para os poemas.

Há milagres, não há só truques.

Há noites. Sítios. Cheiros. Certas palavras. A saudade insinua-se como uma mulher de rua. Passo-lhe ao lado como quem finge não a ver enquanto o corpo se acorda indiferente ao meu esforço. É em ti que penso, mulher. Tu, força e fraqueza que sempre me vence. Há esses dias em que preferia que me devesses e viesses a dormir nas minhas palavras como antes. Antes, e não saber que ponto de referência nos limita, antes mas de quê.