Conta-me historias daquilo que eu não vi.
Enlouqueceria se não tivesse por que esperar. Até pode ser impossível, pouco importa. Na esperança é mais crítico o impacto do que a probabilidade, traz mais alento o potencial do que o real. Até pode ser o trivial. Um aniversário, as férias, o final do mês, uma solução, o teu regresso. O que salva a vida é a espera.
Invejar o teu capricho e a tua rebeldia. O teu equilíbrio. O teu termóstato.
O corpo deixa rasto e deixa sede, tem cuidado. O corpo não engana, é uma apoteose. O corpo tem memória. O meu corpo lembra o teu corpo com uma precisão ancestral. Esta noite tem o teu contorno. Ocupa-me. Tenho vontade do teu corpo e dizê-lo é tentar a sorte de quem entra ao fogo. I’m the lucky one. Na tua pele só há verdade e eu quero tanto ser feliz.
Bonito serviço.
Quando o grande amor da nossa vida e o grande falhanço dela foram ou são ainda experiências coincidentes, indestrinçáveis – uma mesma e única coisa: bonito serviço – o menos que pode dizer-se é que da hecatombe, entre mortos e feridos só nós é que não havemos de escapar.
Rui Caeiro, in Livro de afectos
Os olhos: grandes, espantados de serem tão grandes.
Li “Gatos
e Homens”, de Rui Caeiro, e tive de voltar atrás para confirmar o título, tão
convencida de que o que escrevera era sobre ti.
Os sentimentos atrasam.
O amor não te mobiliza por aí além. Quando ele chega é porque é o tempo do amor. Limitas-te a berrar até que passe.
Rui Caeiro, in Gatos e Homens
Não há laços mais firmes que os impossíveis.
Eu – queres ser egoísta ou queres ser altruísta?
Ela – quero ser uma sereia!
(a dias dos 3 anos)
A curiosidade, a fúria, o alarme, o pânico. O medo, não.
Convence-me (e a si mesma) de que consegue já andar de bicicleta sem as rodas de apoio. Convence-se tanto ao ponto de querer mostrar-me o feito, ela que até ali sempre andou com elas. Avança determinada e, quem sabe por isso mesmo, consegue. Ao fim de um par de voltas, anda sozinha e sem tropeços. Está feliz e destemida e não tem pudor em dizê-lo. “Eu sou a Manalena S. S. e não tenho medo de nada!”, grita. E eu, que sempre suspeitei dessa coisa do orgulho, arrisco que talvez seja algo muito parecido com isto que sinto.
Sobrinhos, oiçam a vossa tia.
Não confundam a indiferença
com a paciência. Até para esperar é preciso tomar parte activa.
O grito para dentro.
É do que mais me aflige, não conseguir gritar no momento certo. Envergonho-me das vezes que devia tê-lo feito e não consegui. Acontece-mo até nos sonhos, tento e o grito não vem. Só o pânico, a suspensão, a queda. Há uma qualquer articulação presa em mim. Não consigo gritar. É contra isso que escrevo. É por isso que escrevo.
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