Memórias de Cuba: Jardines del Rey.

Resorts all-inclusive: espaços que levam o maior número de obesos por metro quadrado.

Memórias de Cuba: just one person? Why?!

Se a minha auto-estima estivesse em baixo, estaria desgraçada com a falta de sensibilidade dos demais, que se questionam e se entreolham em espanto na minha condição de pessoa sozinha num resort nas Caraíbas. Como se o paraíso não estivesse também destinado a solteiros, divorciados, ou viúvos.

Memórias de Cuba: isn’t it? Right?

Viajava sozinha, procurando a legitimização da sua escolha ou inevitabilidade nos outros. Queria a palmadinha nas costas, a validação de quem insistia em ser à margem em vez de ir na corrente. Encostava-se a quem viajava sozinho, para se saber menos sozinha, como aquelas pessoas que vão para os bares de hostéis fazer amigos. Autosabotava a solidão, pois, na verdade, nunca a quis. Por acidente, foi assim que me vi a ter de aturá-la o resto do dia.

Memórias de Cuba: se acabó el drama.

“I hate drama”, disse ela, reclamando e questionando o preço de tudo junto de empregados de bares e restaurantes.

Memórias de Cuba: why be happy when you could be interesting?

“You are a very interesting woman”, disse ela.

Memórias de Cuba: até as cores da bandeira.

Não deixa de ter a sua piada, o comunismo cubano: oferece as mesmas oportunidades, todos no mesmo patamar, sem privilégios ou servidões, e afinal o povo quer é tentar a sua sorte a subir na vida; critica o imperialismo americano, e afinal todos tentam fugir para a América. A igualdade de oportunidades é muito bonita, sim, mas não quando estas são niveladas pelo mínimo.

Memórias de Cuba: conselhos aos viajantes.

Levem bastantes Euros e não os troquem todos de uma vez. Não há nenhum festival do charuto e não, não é último dia.

Memórias de Cuba: antes que anoiteça.

É um País suspenso na história do tempo. Mal se aterra, sente-se um calor denso, muito próximo da pele, rente ao chão. Havana é uma cidade em decadência, um príncipe que desfila em roupas de pobre. Não Havana, aliás, mas La Habana. Os gatos esquálidos, entulho e aterro, ruínas, muitas ruínas, em estado acabado ou para lá a caminhar. As ruas enormes e por isso o endereço sempre entre uma rua e outra. Não só o pragmatismo, mas também o brilhantismo dessa geolocalização, pois também nós não somos estanques, não nos podemos olhar como um ponto no tempo, somos sempre entre uma coisa e outra. Os cubanos, os puros e robustos, de dança sempre pronta. Tabaco, a vitamina R, de rum, aguardente. A América ali tão perto, para quem venha de pés molhados ou enxutos. A procura desenfreada por euros, a qualquer preço, melhor do que o MLC. O Malecón sempre disponível, o maior sofá do mundo. O wifi a conta-gotas, vigiado, restrito, possível, mas desligado. O que interessam as notícias do mundo a quem vive noutro mundo? O sumo de guava e de manga e de ananás. Os mojitos, El Presidente, Cuba Libre, e, sobretudo, a canchanchara. O capitólio, réplica perfeita do outro, oh perfeita ironia. Por La Habana, lo mas grande. O museu automóvel a céu aberto. A Havana velha e a nova, central, aquela mais fora de mão e onde o turista não chega, mais pobre e talvez por isso até mais autêntica, com as suas pessoas sentadas na beira da porta, de onde se antevê o sofá, o frigorífico, a mesa, a televisão, os seus mitos e oferendas crioulas. São vivendas senhoriais, coloniais e coloridas, de janelas e portas altas. Filas por todo o lado, desde cedo, mesmo que as prateleiras das bodegas e farmácias continuem vazias. Um cubano morreria de assombro se um dia se encontrasse em frente a um hipermercado. De repente, paramos a walking tour porque alguém está a vender ovos, e é tão difícil encontrar ovos. A crueldade do tão longo embargo americano, mesmo que tenha costas largas, e que persiste por embirração mais do que outra coisa. Só o povo verga e cede. O Telégrafo, hasteando uma orgulhosa bandeira gay no parque central de Havana. E imaginar Hemingway não muito longe dali, na Bodega do Meio, no Floridita, no Ambos Mundos. “O nosso herói nacional”, José Martí, assim, não o Fidel ou o Che, e perceber que percebo pouco. Paladares, à conta da novela brasileira. E aquele, o mais bonito, La Guarida, e as toalhas de mesa a secarem ao sol numa das salas do palacete, qual filme, o filme. E depois Viñales, em contraste. Um parque de campismo gigante onde todos se conhecem. Mauro, Merengue, Caramelo, Lucenzo. A natureza na sua plenitude, descansada e discreta, não se passa nada, só os cavalos e bois e turistas. Cayo Jutias, virgem imaculada. Lagosta, camarão, ou peixe. E os colectivos, pessoas debaixo de pontes e junto a cruzamentos, exibindo o dinheiro na mão e, mesmo assim, não há boleia para estes, não pagam em euros. Por la revolución, todo. Os campesinos unidos produciendo para el pueblo. A propaganda por todo o lado, a revolução por todo o lado. E também a surpresa, quase 50% de mulheres no parlamento, a Mariela Castro. A luta contra o banditismo e os muitos comités de defesa da revolução, Cederistas, o elogio da vigilância e da denúncia, tão longe da nossa Revolução. E depois, sobretudo, acima de todas, a Trinidad de galerias e gaiolas, de arte e pássaros, respectivamente, ou seria o contrário. Nas condições certas, viveria ali e não sei dizer mais, pois custa sempre falar de quem gostamos. E, finalmente, Cayo Coco e Guillermo, quando se entra dentro dos postais e a água é mesmo daquele azul turquesa, e tiro e coloco os óculos para confirmar que estou a ver bem. A Playa Pilar será porventura a praia mais bonita onde um dia atraquei e reconheço ali a nú o meu privilégio. De resto, há o alívio do privilégio em toda a visita, o saber que existe um lugar a voltar, mesmo que agora todos os assuntos se quedem e as urgências se tornem passageiras. Cuba é uma fantasia, uma catástrofe bela a acontecer e de que não conseguimos desviar o olhar. Outro tempo, outro mundo.

Hey, you: go ahead and break my heart again.

O amor foi feito p’ra gente ficar feliz, explicou-me ela.

Há quem insista na permanência da ausência, caixinhas dentro de caixinhas, e desate a inaugurar monumentos à sua perda, quão mais grandiosos e sofridos, melhor. Há quem queira cristalizar o tempo, como se ele não fosse fluído e sempre nos escapasse. Há quem faça do amor um mausoléu e dê por si a confundir o amor com a coisa amada, o reflexo de um reflexo. Temo as inquietudes que me servem e recrio a memória como me convém. Demorei-me. Isto é um mausoléu, eu sei. Todavia, há clarividência nesta decisão. Há firmeza nesta decisão. Os fantasmas não são de acordar se nunca os conheci adormecidos. Co-existimos na mesma morada, mas respeitamos o espaço de cada um. Sem eles, seria outra. Não te preocupes, por isso. Há propósito. Acima de tudo, que decidas bem onde e a quem te dedicas. Que os teus mausoléus sejam estrutura, não argumento. Com tanto por onde escolher, que nunca sejas daqueles que se dedicam à incapacidade de ser felizes.

É um delicada catástrofe encontrar assim o amor.

Somos acometidas da mesma inusitada sede de saber. Desdobramos palavras por curiosidade e por excitação e corremos ao dicionário a confirmar putativas suspeitas. Tu esclareces o NB e eu o PS e acho que é só por decoro que não reconhecemos mais vezes o quanto nos complementamos, aprimoramos e fortalecemos juntas, minha pérola de keratina. Dizer que gosto disto é pouco e será uma delicada catástrofe que eu não encontre mais quem me arrebate assim na dicção de uma palavra. As palavras dão-me alegrias e tristezas, mas, no teu caso, não sei que faça, dão-me sempre tesão.

O amor não é um poema de Petrarca, é apanhar as cuecas do chão.

De vez em quando, vêem-me à cabeça cenas ou diálogos de “Scenes from a Marriage”. Deviam escrever-se (mais) ensaios sobre esta série.

But friends don't know the way you taste: não para fazer entrar o desejo, mas para o deixar sair.

O espaço entre nós no meio da cama, fronteiras do porvir. O corpo a conter o desejo mineral. Uma vontade intimidada por respeito. Passo a noite acordada à espera do sinal que não chega. Sou uma chama ténue a alumiar o escuro.

Telefonar sem qualquer motivo é sinal de amor. Quando há motivo, até as Finanças nos ligam.

Sim, pode bem passar-se algo do género, mas isso não é relevante nem lhe interessa. (...) Não. A si apenas deve interessar o que sente e não o que recebe ou não recebe. Sei que tudo o que eu possa dizer não o fará sentir-se melhor, mas aqui não me posso abster do seguinte lugar-comum, expondo-o à ideia gasta, e, contudo, verdadeira, de que o amor não é uma transação comercial, não estamos na mercearia, o outro não nos deve umas moedas de troco ou determinados produtos ou mercadorias. Não faça essa cara, não revire os olhos, entregue-se à pertinência deste chavão. Como o Sol não brilha para si, conforme disse Angelus Silesius, nós também não vivemos para nós, mas para iluminar quem amamos. Somos uma espécie de candeeiros.

 Afonso Cruz, in Sinopse de Amor e Guerra

Tudo passa. O que julgamos que permanece é apenas o que passa devagar.

Dei por mim a querer falar dos teus olhos cheios de regressos e esqueci-me que sempre foram límpidos. Esquecer é a minha persistente sina e o maior terror.

And the thing about confidence is no one knows if it’s real or not.

Aprende também tu a tratar os teus defeitos, mesmo os menores e os mais irritantes, como inevitabilidades biográficas.

Já não é possível dizer mais nada mas também não é possível ficar calado.

O problema não são os fantasmas, mas a mediocridade. Que não passe de mais do mesmo.

A Teresa, numa das provas finais do Masterchef.

No final de contas, é apenas uma mulher à procura de um abraço. Detive-me nesse segundo. Repeti-o na box, até, por duas ou três vezes. Há o desamparo de não saber o que fazer com tanta alegria e o impulso de avançar de braços esticados até encontrar quem esteja disposta a recebê-la. A ampara-la. Aquela era uma mulher crescida à procura de colo e de realidade. É uma cena bonita de se ver. Sempre tive queda para mulheres bonitas e fortes, mas com fendas de fragilidade.

Slava Ukraini II

“Primeiro os nossos”, dizem em contestação com o apoio e atenção prestados aos refugiados. Todo o nacionalismo é uma nascente de ódio.

Slava Ukraini III

É certo que até na guerra há whataboutism, somos e continuaremos hipócritas. Amamos o próximo como nos ensinaram, não o distante.

Slava Ukraini I

Não conheço outro País com tanta vontade de pertencer à União Europeia quanto a Ucrânia e que esteja (disposto) a pagar tanto por isso. A este ponto, somos nós que temos de merecê-lo.

Slava Ukraini

Não admira que o processo de lições aprendidas seja dos mais dificeís de estabelecer nas organizações. Se nem como indivíduos e humanidade aprendemos com a História, quanto mais.

Palermo, palerma: You’re body is perfect.

Não há como visitar cidade estrangeira para nos convidarem para um café no meio da rua. Não estou habituada a isto, eleva-me o ego. Cheira-me, porém, que não era bem selos, afinal, aquilo de que ele andava à procura.

Amar-te é ampliar o espaço da tua liberdade.

Sabes que a vida segue estranha quando ficas mais excitada por, num repente e logo para o dia seguinte, marcares uma noite fora durante a semana numa cidade não muito longe daqui, do que por passares um fim-de-semana em Palermo. As melhores excentricidades são as que surgem abruptas e a arrancar o fastio do quotidiano pela raíz.

Senhoras e senhores, convosco esta noite o fantástico espetáculo de magia da Julie da República Checa.

Nos seus quatro anos de ficção e aventura, conta-me que está de férias na República Checa. Não no Algarve, uma República Dominicana, ou uma Nova Iorque. Tenho uma afilhada com classe.