Andrà tutto bene.

Yes there is fear. Yes there is isolation. Yes there is panic buying. Yes there is sickness. Yes there is even death. But.


Eggs now available!

Então é isto. O silêncio. A fragilidade. A incerteza. Então é isto, o medo.

Então é isto, o medo.

Num táxi, início de Março, com o taxista numa tosse persistente: 
Eu: - Are you OK?
Ele – I’m just old.

Os números reais

Os Portugueses têm tamanho obsessão com o estarem a ser enganados que até se poderia supor que vieram da soviética perestroika ou que sofreram o trauma de se descobrirem adoptados. Haja respeito. A paciência é pouca, deve reservar-se para quem a mereça.

It’s just flu.

Não há nada como uma crise para distinguir um líder de um hipócrita.

Caladinha até cantas.

Não há nada como o medo para revelar o melhor e o pior do homem. A provação testa caráteres e destrói moralidades.

Os funerais, de tristes, tornaram-se mais tristes.

Morre-se só.

The Lockdown S01E02.

Eis que o estado de emergência confirma o óbvio: a minha profissão não é essencial.

The Lockdown S01E01.

Eis que descubro que o meu estilo de vida normal chama-se “quarentena”.

I wish what I wished you before, but harder.

Há coisas que não podemos resolver. Só podemos resolver aceitá-las.

De Bárbara a Laura: ela continua.

Cada vitória e cada derrota passaram a ser minhas.

Gabriel Fernandez

Resiste. Ainda. Tem sete ou oito anos. Importa pouco para agora. Consta que é um menino doce. Notam-se lhe as marcas no pescoço. São evidentes as postelas na cabeça mal rapada num repente. Muitas cores, profundidades diversas, feridas recentes onde outras vão cicatrizando. Há bocados em que falta pele junto à testa. Tem um olho vazado, que lhe custa já a abrir, vermelho onde deveria haver branco. As mãos de meter dó, escoriações impossíveis de esconder. O lábio inchado. Os outros miúdos olham-no em espanto quando entra na sala de aula. Ele resiste. Ainda. Acabou o projeto para o dia da mãe e está feliz com o resultado. Fez um desenho colorido e inocente, como só cabe às crianças. Completou as frases deixadas pela professora. Gosto da minha mãe porque. A minha mãe é especial porque. Responde que a sua mãe é a mais bonita como não há igual. Fala de amor. Fazem também vales. Este vale uma ida a despejar o lixo, este vale ajudar-te a lavar a loiça, este vale passar mais tempo contigo, este vale portar-me bem. I’ll be good. Promete que, desta vez, vai portar-se bem. Quer muito portar-se bem. Tiram também fotografias. Ele não se importa, também quer participar. Está todo marcadinho, inchado, destruído, meu pobre menino, mas é dia da mãe e a sua mãe merece. Segura a letra agigantada, um O de Mother, e sorri para a câmara. Faz até um sorriso tonto, quando lho pedem. É a sua mãe e, desta vez, ele vai portar-se bem e e mãe vai gostar dele. Dias depois, a mãe e seu namorado matam-no à pancada. O projeto do dia da mãe continua na secretária, na escola. Fala de amor.

The heart has but one mouth.


Ainda bem que não é de amor que falamos nunca.

(...) Que violentas desrazões nos conduzem ainda
um para o outro, num abraço tão estéril?

(...)
Já só a libido nos consegue juntar,
uma vez por outra. Talvez seja triste,
e quisesses um pouco mais, algo parecido
com o amor. Uma certeza quase feliz.
Indolor. Mas não fomos nós que inventámos
os desabridos desertos do mundo,
esses que sentimos crescer na pele.
Não pedimos um nome, reivindicando com ele 
“um modo próprio de ruína”. Talvez o amor
não exista, triste palavra sem lume lá dentro.

Toco de novo as tuas mãos e já sei
quais serão os gestos seguintes - a cama larga onde repetiremos todos
os mesmos sítios do corpo, a vergonhosa
angústia de converter tudo isso
num poema sem graça: as tuas mãos.

(Manuel de Freitas, Closing Time, in Os Infernos Artificiais)

Não é nas palavras que o se perde regressa alguma vez.

Terás sido quem primeiro me alertou para a fluidez dos sentimentos. Como se fazem, se quebram, se montam, prolongam e transformam. Os sentimentos iam na plenitude da corrente a desaguar no que fosse e, se chegavam a tocar as margens, era apenas para conhecerem o tamanho do que poderiam vir a ser. Não eram contidos por essas margens. Pelo contrário, definiam-nas com a sua força de corrente. Também por isso era difícil, por essa altura, nomeá-los, dar conta do seu peso e medida, precisar onde começavam e terminavam. Onde começa e termina o mar? Qual a hora longínqua que te fez a limpidez dos olhos?

Habituei-me a essa incerteza ao ponto de amá-la. Talvez venha daí o problema de procurar desenredar tempos a fim de os encaixar melhor em definições que, teimas, nos protegem. É um exercício de estilo a que me furto. Tudo está emaranhado. Belo e perfeitamente emaranhado. É por isso que, quando penso em nós, penso antes em épocas, espécie de artifícios de divisão para calar a passagem das estações. Cada época tem o seu lugar, cheiro, hábitos e “um rito de palavras e uma forma de as pronunciar”, como todo o bom passado as tem. Pára. E, se isto é a ser sobre nós, tem igualmente um gosto. Naturalmente. Há épocas com sabor a aveia e banana, épocas de crepes com nutella e outras com sabor a batido de morango. Não sei quantas vezes mudou o meu nome através dessas épocas. O teu foi sempre o mesmo. Amor, minha gata, minha happybird.

Sempre que estava para começar uma nova época – algumas vêm anunciadas – pensei que se acabava ali. Era desta. É desta que te perco. Nunca me tive segura, ainda que possas pensar o contrário. Mesmo agora. A todas soubemos contrariar, com mais ou menos subornos e esforço. No meu desespero calado, tu acabas por regressar sempre e eu sou sempre surpreendida e feliz no teu regresso, mesmo quando demoras e me exasperas na tua brutalidade. Mas tudo é tão frágil. Tudo tão arriscado.

Talvez comece agora outra época – algumas só se percebem depois. Há em tudo uma seriedade digna. Tocamo-nos cada vez menos. Quando chegas, já tens a tua decisão tomada. O toque é uma fronteira e há uma tensão que se antecipa ao momento de solucionar o sono. O que pertence e o que não pertence aqui. Também os gestos se exigem claros, sem motivos dúbios. Os sentimentos apresentam-se em sentido e é-lhes exigida identificação, proveniência e paradeiro. Quando começaram, qual a data exacta em que passaram de um estado a outro, onde se encontravam quando sucedeu aquele episódio, que justificação lhes ocorre para aquele comportamento transgressivo. São sentimentos de régua e esquadro como se fossem a dividir África entre os colonizadores, cabem em caixinhas. O que sinto procura asilo. Sou feita de sentimentos refugiados.

Não é um apelo, cruzes credo. Talvez seja o certo e a vida toda seja uma desabituação, não sei. Fecunda é a ferida que nos abre, escreveu, mas não se mata a sede com pão e eu tenho tanta saudade de te ouvir rir. Já seguiste caminho e eu quedo-me em lamentos inúteis que não sairão daqui. Um dia cansas-te eu eu arrependo-me do quanto insisti. É tudo tão arriscado. Pergunto porquê e não sei. Pergunto para quê e também não sei. Já me demorei tanto nesse pensamento e não temos, nem eu nem tu, tempo para filosofias. Teres lido até aqui já será, convenhamos, uma vitória. Mas, se estou só e tu estás só. É um argumento traiçoeiro de que me muna dos precedentes, reconheço, e há pureza no nada que pode ser melhor do que alguma coisa. Contudo, fomos felizes. A tua mão na minha mão e um incêndio no peito que não vinha do facto de estarmos em pleno Agosto. Se não tivesse conhecido o fogo. Depois logo se via, sem crime nem castigo, sem passado e sem futuro, sem outras linhas invisíveis. Talvez.

Os corpos sabem os caminhos.

No mais fundo da noite, consigo por vezes ainda resgatar-te o riso, lamber-te a textura tão terna da boca. Ouvir-te (ver-te. cheirar-te.) é salvar a memória mais consciente das razões.

Isto não é Bergman, é apenas a vida.

“Estas coisas perdem-se. Primeiro a disponibilidade para a paixão, depois a própria capacidade de alguém se vir noutro alguém.”

(Manuel de Freitas, Os Infernos Artificiais)

Não sei se existe isto de que falo, mas deixa-me reparar um pouco no teu modo ternamente animal de confundir palavras e sentimentos, num quase-silêncio desabrigado e informe.

Referiu-se ao meu afecto como “aquelas merdas” e recordei como ele saiu porta fora, muitos anos antes, quando me referi a “essa porcaria”. O karma é fodido.

O amor é uma anedota que a gente já conhece.

Ironia é, no último instante, ter trocado na mala o pijama quente por uma simples t-shirt, sabendo que a proximidade do seu corpo inflama o calor do meu. A esperança é uma coisa perigosa. Esta anedota, já a deveria conhecer. A sério que acho piada a isto. Quase me ri.

It's Colombia, not Columbia: quiebra canto.


It's Colombia, not Columbia III

O medo chama o medo. É por isso crítico que não o demonstremos, como quando se diz que os cães o pressentem. Para o bem e para o mal, sempre adoptei essa manobra de diversão ou essa falta de lucidez. Como se a melhor estratégia de defesa fosse o ataque. Já dei por mim em sítios estranhos desses de meter medo. Chamo-lhe aventuras. Desta vez, porém, admito que fui imprudente para a minha sorte. Não que fosse extremamente tarde, mas talvez andar de mini-saia numa avenida mal iluminada, com poucos ou nenhuns carros a passar e sem outros transeuntes, palavra cara em ambiente paupérrimo, e onde trinta, quarenta ou mais, sem-abrigos de mau aspecto se encontram enfileirados e despertos e te olham como uma matilha contempla uma cadela com cio, à filme, não fosse a minha ideia mais brilhante para uma sexta-feira à noite junto à estação do Prado num caminho de mais de vinte minutos a pé até chegar ao sítio onde por aqueles dias chamava casa. Fiz o que poderia fazer num sítio onde seria ainda mais imprudente tirar o telemóvel para confirmar as direcções: andei em passo rápido, olhar em frente, confiante, uma mão no bolso e com a outra comendo o meu cachorro quente. Não me digas que sou um cão porque eu sou um cachorro quente. Morrendo de medo sem mostrar medo, dou por mim a confiar em virgens.

It's Colombia, not Columbia II

Veste um pólo verde onde se lê “storyteller” nas costas, o que me deixa de imediato de pé atrás. Líderes, experts e outros que tais, se se auto-denominam, raramente o são. Porém, é um facto que este tem histórias e uma necessidade insistente de contá-las. Consomem-no, entende-se depois. Procura a pergunta certa à resposta ideal e quase nos censura pelas pobres perguntas, o storyteller. Como os melhores coaches, mensageiro anunciado, se lhes dermos o melhor de nós, premiar-nos-á com o melhor de si, promete. Tem um tique de linguagem que o torna irritante. Everyone’s good? That’s great. Vamos agora subir acolá. That’s great. Ainda abunda a prostituição. That’s great. Ainda operam aqui três cartéis. That’s great. O dinheiro que me vão dar de gorjeta servirá para pagar o imposto semanal a cada um desses cartéis. That’s great. Entende-se só depois.

Ainda vive ali com a mãe, na famosa comuna 13, outrora o bairro mais perigoso da cidade mais perigosa do mundo. Vai cumprimentando uns e outros que encontra enqunto subimos pela maré de casas, chapa empilhada em tijolo e colorido em graffitis. Agora estou ali eu e uma cambada de outros turistas. Assegura-nos que não precisamos de ter medo, podemos tirar fotografias à vontade sem que nos roubem os telemóveis e as caras máquinas fotográficas. Onde há gangsters, não há ladrões, descansa-nos. Paradoxalmente, é verdade. Sinto-me bem mais segura ali do que a caminhar no centro da cidade. Estranhamente segura.

As histórias que nos conta são as suas, é óbvio no seu tom de voz quando polariza ricos e pobres. É com aspereza que apresenta o seu lugar de invasor a agir em legítima defesa. Há marcas que se notam nele e pergunto-me se se referiria a si quando diz que todos merecem uma segunda oportunidade. Sobretudo os criminosos, porque o que já foi lá foi e já não se pode mudar. Quando conta dos deslocamentos forçados, da leviandade com que os criminosos decidem que aquela família já não pode viver naquela casa, seja por estratégia ou capricho, há uma desilusão que se sente na sua voz.

Também mais tarde, quando fala das linhas invisíveis. Com espanto, aluna atenta, lembro-me primeiro das linhas invisíveis da anatomia, que tanto ridicularizavas. Só depois percebo a gravidade dessas fronteiras que aparecem e desaparecem conforme dita a vontade de quem manda. A partir de hoje não podes passar nesta rua. E a vida muda. É preciso sair mais cedo de casa para chegar à escola por outro caminho, mais longo. Acabou-se, ir brincar para casa do amigo que mora daquele lado da linha. À conta de linhas invisíveis viu a sua vida delimitada e dois amigos morrerem. Distraídos, passaram da linha. Literalmente. Há agora raiva na sua voz. Diz-nos por mais do que uma vez que somos privilegiados. Quer que, como turistas, tenhamos clara consciência do nosso privilégio, a caminhar ali sem pensar ou ligar a linhas que não vemos e desconhecemos. Nós, privilegiados, quase nos grita.

É uma relação de amor-ódio. Despreza-nos e, ao mesmo tempo, precisa de nós. Não o esconde, não teria porquê. Os locais reconhecem a importância do turismo e não se inibem de clarificar o seu papel na transformação da cidade. Não como consequência inesperada, note-se, mas como ideia estrategicamente concebida, pois o turismo alavanca a economia e distrai os criminosos. A cidade criou oportunidades de turismo para que os turistas viessem, pensamento genial. Por isso as escadas rolantes na comuna 13. Não para os moradores, que bairros de lata os há aos montes pelas montanhas e colinas e sempre se desenrascaram bem sem escadas. Não pela mobilidade, mas pelos turistas. Para que, como eu ali, viessem ver, deixar dinheiro, afugentar o crime. Nós, parasitas, privilegiados e essenciais ao equilíbrio daquele frágil ecossistema.

It's Colombia, not Columbia I

Medellin é grande, muito grande. É por isso provável que nunca se tenham cruzado. Ainda que partilhem da mesma profissão, operam em zonas muito diferentes da cidade e nada no seu trato e caminho os suporia amigos e, ainda menos, conhecidos. São guias turísticos. Sem se conhecerem, coincidem na mesma história, uma mesma reflexão de persistência ante a adversidade. Chamarão resiliência, alguns. Chamaram sobrevivência, eles. Sem se conhecerem, ambos falaram da água pela pescoço. Eles, a cidade, o País, tudo prestes a afundar e sem margem de manobra. Os problemas acumulando, maiores, mais, mais pesados. Insuportáveis ao ponto de uma pessoa se afundar neles. Com eles. Ambos falaram que era fundamental respirar. Desde que não te chegue à boca. Desde que não te chegue ao nariz. Desde que não te cubra a cabeça. Desde que dê para respirar, respira. Desde que dê para viver, vive.

Só assim se explica o orgulho tremendo no metro que poderia ser só um metro se não fosse este o metro de Medellin. Porque aquele fez-se enquanto a violência era pão-nosso, e as carruagens assentavam ao lado de bombas e fuzis. Aquele fez-se nas barbas do crime, num antro de medo, vale onde Judas perdeu as botas em selvas que tudo escondem. Aquele fez-se sem dinheiro, sem experiência, sem sequer ser na capital. Não havia muito que justificasse que se fizesse aquele metro ali. Contudo, era ali que o País respirava. 

(não me lembro de ter andado num metro tão asseado e cuidado)

It's Colombia, not Columbia.

Ia, muito, pelo Pablo Escobar e, do Pablo Escobar, pouco sinal. A cidade já teve a sua dose, quer esquecer. Nem se atrevem a nomeá-lo. Falam de Pablo, primeiro nome apenas, ou do grande criminoso, ou do inominável. Entende-se. Não está tudo ultrapassado, é claro. Há um legado que alguns ainda respeitam e idolatram, sobretudo nos bairros mais pobres e pouco educados. Há ainda cartéis em operação, exploração de menores, sequestros, roubos, e mesmo a comuna 13 não é tão segura quanto a senti, adverte-me a costureira naquela manhã feita taxista e casada com um polícia das operações especiais. De resto, nessa mesma manhã vivia-se um paro armado nas principais estradas, numa tentativa de capturar apoiantes da ELN, já há semanas ignorante dos pactos firmados com o governo. Se nos pararem, somos amigas. Há progresso, sim, mas também há cocaína e selva e guerrilhas suficientes para um sono leve. De Medellin, levo por isso um medo domesticado numa cidade agitada que se vai transformando aos poucos. De Guatapé, o grandioso Peñol e as casas coloridas de zocalos, a autenticidade sem turistas, onde ainda é possível ser paisa e encontrar ruas desertas. Do verdadeiro café, o tinto, à verdadeira bandeja paisa. De Cartagena das ìndias, a buena vida do Gabo, com o Havana e o Café del Mar e a salsa, as micheladas, os sancochos, os ceviches, e a proximidade e a descontração que vem com o caribe, a Playa Blanca e o Getsemani tão bonito, ainda que tudo seja hostel e tours. Sim, se continuar aqui mais uns dias, vou ficar da tua cor.