It's not a love song.

 

You got a real nice cock, Mr. Willoughby.

Matou-se no dia mais feliz da sua vida. Queria deixar a sua melhor memória.

(Three Billboards Outside Ebbing, Missouri merece ganhar um Óscar.)

Quero que se foda o sublime.

Quero que se foda o sublime. A minuciosa construção do absoluto literário. Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exacto. Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso. Quero que se foda o sublime (começa a saber-me bem repeti-lo, o ritmo sincopado conjugado com a limpidez expressiva). Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo. Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar. 

Jorge Roque, in Canção da Vida

Não passeies o teu amor rente ao precipício.

No topo de Machu Picchu, fiz o que se espera da loucura, rente ao precípio. Quebrei o silêncio e o vazio dizendo o teu nome em voz alta, meu amuleto. Ninguém ouviu mas gosto de acreditar que te viraste na cama nesse momento, entrando feliz no meu sonho. Era esta a viagem que me falaste, primeira entre todas.

Tenho um coração, e isto dito assim é um assombro.

A pessoa que abusa dos nomes próprios, máscara mais perfeita da confiança, é a mesma que se desequilibra e se estranha no chamado do seu. Reparo-o agora como anunciação: àqueles que amo, não os beijo. Àqueles que amo, não os chamo. Escapa-me o sentido de dizer em voz alta quem sou. Eu sou eles, eles são comigo. Ela troça, cantando 'say my name´.

You should only read what is truly good or what is frankly bad.

Li, finalmente, algo de Adília Lopes, Bandolim. Dali, aproveitei apenas uma coisa, o conhecimento sobre a teoria das catástrofes, conceito belíssimo, quase ao mesmo nível da descoberta fantástica da micro-nação de Liberland. Imagine-se, hoje vou construir um País. 

Saber escolher quais os livros a comprar e quais aqueles a pedir pelo Natal é, de si, uma arte que não deve ser menosprezada.

Devias querer vida em vez de palavras.

Porventura, nunca fui tão notada profissionalmente quanto agora. Do mesmo modo, nunca me senti tão inútil. Talvez apenas no sono sejamos reais.

Isto serve para quê?

O mistério não pede que o expliques. O mistério pede que sejas misterioso.

Fico sem perceber se gostaste, disse. E eu penso que, tal como de deus, o menos interessante que se pode discutir é se existe ou não, também dos lugares, de um filme, de um livro, de uma música, ou de outra peça de arte, a maior inutilidade é dizer-se se gostamos ou não.

Pero mi amor no hay problema.



Ouvi tanto dos Tukas del Peru, Felices Los 4, Enrique Iglesias, Piso 21, Luis Fonsi e companhia recentemente que quase estou com medo de querer ir p'ro zumba.

Apontamentos de uma viagem: Anita tira um ano sabático para ir ao zoo visitar os animais em vias de extinção.

De um lado, eles, que se dispõem em fila, nas suas roupas tradicionais, e fazem habilidades em troca de uma moeda. Do outro lado, aqueles outros, os das experiências como quem preenche checklists e que partem, aventureiros e sozinhos, em busca do autêntico. Haverão de dizer um dia que aquilo era a liberdade, inúteis ou indiferentes às grades por onde seguiam observando os animais do zoo. Alguns, tiram fotografias às crias e imprimem-nas em papel de alta qualidade, a colocar emolduradas na parede da sala, por cima do sofá.

Apontamentos de uma viagem: Das profissões.

Para atestares da real utilidade da tua profissão, procura-a num país em vias de desenvolvimento.

Apontamentos de uma viagem: Taxis.

O nível de desenvolvimento de um país mede-se pelo percentagem de taxistas entre a população.

Apontamentos de uma viagem: Os Livros.

Encontrei Lobo Antunes entre outros génios da literatura universal, na montra principal de uma livraria em Lima, onde os livros são embrulhados em plástico nas estantes. É este ano que voltamos a ganhar o Nobel.

Apontamentos de uma viagem: Nacionalidade.

Nas vidas do trabalho, sou do UK. Nas vidas da vida, sou de Portugal. Pertenço, cada vez menos, aos dois.

Apontamentos de uma viagem: Hierro Brothers.

Quando cresceres, lembra-te do The Writer’s Coffee e do HB Bronze.

Apontamentos de uma viagem: Peru.

No início, conquistado pelos colonizadores; agora, conquistada pelos países vizinhos. Ainda assim, não se queixa ou deixa de sorrir. O Peru é aquele parente pobre que arranja sempre mais um espaço à mesa e que oferece a própria cama a quem o visita.

Apontamentos de uma viagem: Frida.

Nutro um secreto fascínio por esses amores turbulentos, como o de Frida e Diego. Como Saramago, também ela parou os ponteiros do relógio, não porém pelos mesmos motivos. Primeiro, quando pediu o divórcio. Mais tarde, quando re-casaram.

Apontamentos de uma viagem: Mexico City.

Na Cidade do México há carruagens do metro só para mulheres e crianças.

Apontamentos de uma viagem: Uyuni.

Há uma certa delicadeza, quase um verso, em visitar-se um cemitério de comboios. Há uma magia tão bela, quase pura, quando o céu se espelha na terra, em Uyuni.

Apontamentos de uma viagem: La Paz.

De La Paz, é fácil assinalar o Mercado de las Brujas mas, não é isso que me convence. O que me cativa é o culto do presidente, Evo Morales, e a sua fotografia em todo o lado, até na porta do teleférico, o mesmo que serve de meio de transporte diário às milhares de pessoas que habitam a capital com maior elevação sobre o nível do mar. Em breve, terei de ir à Rússia.

Apontamentos de uma viagem: Puno.

A Manuelita, mulher com cara de Manuelita, abraça-me na despedida como se fosse sua sobrinha e vem à porta dizer-me adeus. Os outros, que me esperavam dentro da carrinha, olham-se surpresos. Não imaginam que apenas conheci a Manuelita ontem. É assim. O taxista apresenta-me: primeiro bebem, depois dançam. Às vezes, o contrário, começam na dança e acabam na bebida. Independentemente da ordem, dança-se e bebe-se. No dia em que cheguei não foi diferente mas havia uma luz nova na cidade. Celebrava-se a festividade da Virgem Maria da Candelária. Eu, que há anos não vou a uma missa, juntei-me à procissão que percorria a avenida. Passaram-me uma vela para as mãos e segui com eles como se pertencesse ali. Desorganizados e fervorosos crentes, estive com eles no passo lento, no andor pesado, na música da banda filarmónica, canção única e com aquele acorde final que primeiro se estranha e depois se espera, na oração por los siglos dos siglos. Em Puno chorei e não sei por quem.

Apontamentos de uma viagem: Manda-lhe cumprimentos, que altura já ela tem.

Não sofri do mal-estar do soroche nem do misticismo de Machu Picchu. Não senti energias, arrepios, nem palpitações. Não dei pela pachamama ou pelo pachapapa. No final, senti apenas uma persistente dor nas pernas e um agradável sentimento de conquista. Décima oitava a entrar, primeira Portuguesa do dia, fui a quarta a sair, começando às 7:42, chegando ao topo às 9:10 e terminando a descida às 10:35. Deu uma fotografia bonita.

Apontamentos de uma viagem: Cusco.

Toda a gente gosta de Cusco, berço da civilização Inca, sonho dos backpackers. Tirando a praça central e o seu estilo colonial, não gostei de Cusco. Em poucos sítios encontrei tanto lixo na borda das ruas e estradas e matilhas de cães abandonados revirando restos. Em poucos sítios passei o dia a recusar massagens, tours, porta-chaves, casacos, fotografias com peruanas e suas alpacas, porta-chaves, casacos, tours, massagens. Cusco poderá bem ter sido o umbigo do mundo. Hoje, é um turista gigante olhando ao seu próprio umbigo.

Apontamentos de uma viagem: Ollanta.

A Joana, com y, é uma mulher bonita com uma caligrafia bonita. Sorri quando lho digo. Nascida na pedra, criada na pedra, como ela diz. Entro no hostel e é como se lhes invadisse a casa. Sente-se um certo embaraço que se demora a soltar. Afinal, ali vive ela, o Juan Carlos, os filhos, os sogros. Entro no hostel como se me sentasse com eles à mesa. Ouvem-se os murmúrios de manhã e a telefonia alta sempre ao anoitecer. E há, é claro, o resto da família. Os pássaros de bons-dias na gaiola, um caniche caprichoso, a gata que se passeia nos telhados, os dois gatos filhotes, rapazolas, bebézolas, a brincar com uma barata que encontraram no vão das escadas. É esta uma casa simples, modesta, com uma mesa de jantar, corrida, grande. Um pouco como a aldeia, poderia dizer-se. Ollantaytambo é pequena e nada acontece. Dir-se-ia que é um desses sítios que começou e parou no tempo, à sombra das montanhas sagradas. Contam-se na mão as ruas de pedra, os aglomerados familiares, e até mesmo os dois polícias sinaleiros que governam as entradas e saídas são desnecessários. As vizinhas cumprimentam-se de manhã e seguem juntas para o mercado com os seus chapéus, as suas mil saias de cor, os sacos às costas sempre carregados, seja de milho, de cabras, de crianças. Ninguém pára em Ollanta, nem mesmo os turistas, e talvez por isso tenha sido este o predilecto. Só ficava a Joana e a pedra, ambas contrariando o pó dos dias.

Apontamentos de uma viagem: Lima.

Do céu, Lima tem cor de terra e de pó. É só quando se embrenha nela que se distinguem todas as outras cores, mescla de ritos, histórias, ruas. Lima é muito grande e é muita coisa. É o parque Kennedy e os gatos abandonados do parque Kennedy, mesmo que não se entenda porque haveria de levar um parque numa capital sul-americana o nome dum estadista não-sul-americano, uma estranheza que só se encontra pela mesma proporção de haver quem tivesse um dia achado razões para se abandonarem à sua sorte os gatos do parque. Lima é o malecón, os casais a passearem a vida na calma e na brisa do malecón, e é o parque do amor no malecón, os casais a sonharem a vida no esperançoso e colorido do malecón. É também os seus bairros, Miraflores, San Isidro, San Miguel, Callao e uma cultura bairrista que forma e define a cidade e que é tão presente quanto os murais que a habitam, seja pelo Papa Francisco, pelo alcaide, pelo amor de Rosita, ou tão-somente porque ali vale a pena educarem-se os filhos, fazer-se gente. Tudo se anuncia e se vende. Até a felicidade. Lima é a poesia decadente e boémia de Barranco, as fotografias lânguidas do Mario Testino, o calor nos corpos despidos e a beleza de se ser mulher num país de homens. Em cada parede, uma oportunidade, seja para reflectir ou apenas para ver como se podem fundir tão bem o passado com o futuro. Embora isto, soubéssemo-lo já tão bem eu e tu, amor. Lima é buzinar por desporto, por tudo e por nada, porque sim e porque não. É fazer de qualquer carro um táxi, haja vontade e dinheiro, uma mão que buzina, outra que chama, e um destino comum. É as centenas de autocarros, os combis e os colectivos, apeadeiros e pregoeiros, se aquela princesa não anda, só desliza, estes não param, só pausam. Lima é a praça de armas, claro, mas também os muros altos, as grades, os seguranças à entrada dos prédios, dos bancos, das escolas, dos restaurantes. É também o pisco sour no Hotel Bolívar, o mate de coca e as folhas de coca, a quinoa, a Inca Kola, o ceviche e as sanguecherias, o aji de galinha, o bife de alpaca ou o lomo saltado com a Cusqueña, o odor nauseabundo do mercado nro. 1 de Surquillo, aquela senhora a vender empanadas calientitas no Parque de La Reserva. Lima é aquele cheiro, aquele som, aquele saber e sabor a mar pacífico e hipnotizante com que não contava, vai-se pelo aroma a ouriços-do-mar e fica-se pelo barulho das pedras a rolar debaixo das ondas, num encontro que bem poderia simular o amor, melhor vai-vem que nos pode acontecer. Ninguém vem a Lima de propósito, é sítio de ir e partir. E, porém, Lima é grande, muita coisa.