I’ll find a way to slip into your skin somehow.




I wanna fuck your love slow
Catch my heart, go swim
Feel your lips crush
Hold you here my loveliest friend.

(os teus olhos grandes de ver tudo)

Quem pode o amor?

Nessa altura eu ainda não sabia nada. Era tudo tão novo, aquela excitação febril e adolescente quase doente dos apaixonados, e eu pensava que eras comum. Tentei impressionar-te com a cultura, mas nessa altura eu ainda não sabia nada. Tu não te lembras. Foi em Lisboa, no Largo da Trindade, perto daquele restaurante em que haveríamos de jantar muitos anos mais tarde, não sabendo à data que o amor era coisa de durar assim. Eu, pelo menos, nunca o suspeitei. Nem do jantar. Tinha o CD do Charles Aznavour no carro e pus a tocar, demasiado alto, claro está, como ainda a oiço hoje, agora, a minha música preferida dele, La Boheme. A mão embala a palavra, o gesto repete-se. E terei certamente olhado para ti, provavelmente sorrido, provavelmente batido os dedos no volante, como faço, como sinto falta de fazer, agora que pouco conduzo. Provavelmente embriagada no ritmo em crescendo, os olhos fechados por um segundo, distraída de tudo o que não fôssemos ali em nós. Travei a fundo e quase bati no carro da frente. Eu ainda não sabia nada, eu sabia tão pouco. O Charles Aznavour morreu e foi isto que me deixou. É apenas isto o que sei dele. O medo e o amor sempre juntos. Sempre o medo e o amor.

Eventualmente, a minha vida seria muito mais interessante se eu até bebesse café.

De vez em quando, no mais inusitado dos momentos, regresso sem qualquer pretexto. Dou por mim muitas vezes lá. Estranhamente, o que melhor recordo de La Paz são os cafés. Aquele em que entrei só por causa do wi-fi e fiquei por tudo, os cadeirões e o chão como se fosse Português. O The Writers Coffee, com as máquinas de escrever em cada canto, inspiração para todos. O HB Bronze, perfeito nas suas portadas altas e uma luz que dá vontade de escrever. Às vezes, até gostava de gostar de café.

A beleza da fé é essa decisão apesar da dúvida.

Ficou-me a frase a reverberar, belo de facto. Acreditar como uma decisão que se toma. Ser acto consciente entre a inconsciência, eis a bravura.

Algo está muito doente no Brasil.

Ela tem razão quando diz que nem toda a gente deveria poder votar.

Why am I doing this?

Quando falou, calaram-se todos. Primeiro, os olhos postos em mim. Saberia eu lidar com o confronto, assim, cara a cara? Depois, os olhos no chão, há um incómodo geral que já não se pode camuflar. Ele não entende o propósito do exercício, parece-lhe uma perda de tempo. E eu, que penso o mesmo, não lho posso dizer.

Quando lhe perguntei se estava a gostar da conferência, respondeu que a comida era boa.

Se possível, que nos dêem o pronto-a-vestir, o pronto-a-comer, o pronto-a-usar. Se possível, que não nos obriguem a pensar. Que não digam que depende, varia, que nos dêem a resposta certa e que essa seja apenas uma. Que tudo seja linear, coerente, simples, porque ninguém tem tempo, quanto mais capacidade para pensar sozinhos.

8-80, 30-150

Haverão de acreditar que o mérito foi deles e eu haverei de esperar um ano até que descubram que não.

Alta definição ou esta música não me acende.

Pessoas que levam o dedo à boca para virar a página do jornal.

Diz-me o teu QE, que eu digo-te o teu QI.

Pessoas que fazem cursos de certificação em Inteligência Emocional.

As mulheres que odeiam as mulheres.

Com tanto feminismo por aí e um dia ainda se descobre que o machismo começa, vinga e multiplica-se nas mulheres.

Quem tem dúvidas, não tem likes III

De um certo modo perverso, poderia dizer-se que Ronaldo fez-se ainda mais herói entre os homens: ao ir ao cu à senhora, fez o que muitos ambicionam, mas ainda não alcançaram.

Quem tem dúvidas, não tem likes II

Vai-se a ver e afinal a maioria dos cleptomaníacos nem precisa, até é rica. Que surpresa que isso seria para quem acha que meninos bonitos não têm necessidade de violar ninguém! Vai-se a ver e ainda acaba por ser um privilégio ser-se violada por um Ronaldo.

Quem tem dúvidas, não tem likes I

Dizer que a mulher sabia ao que ia, ao ir consigo para o quarto, é tão asquerosamente revelador quanto dizer que não pode existe violação entre um casal, por serem casados.

Quem tem dúvidas, não tem likes.

Fazem correntes e publicações e rezas porque chegou o momento de apoiar quem tanto nos apoiou. Como se alguém não pudesse ser generoso e, ao mesmo tempo, violar outrem ou adorar crianças e, apesar disso, ordenar uma matança.

(o título é do ouriquense)

Há um sítio onde a simetria só tem uma solução.



(After Love)

God, make me famous; If you can't, just make it painless ou I miss you the same way I imagine hell might miss decent people.

Nem sempre me reconheço. Aquela sou eu mas não sou eu, é outrém. Outro o tempo, outro o lugar, outros os sentires que abrigava. Talvez tenha sido verdade aquilo que ouviu o Dr. Pereira, a alma não é única e indivisível, mas habita uma confederação. Imagine-se, uma confederação de almas com egos que se vão alternando no seu governo. Talvez seja verdade, porque não é o reflexo do espelho, ou não apenas o reflexo no espelho, embora até esse me devolva a figura de um palhaço triste, uma vezes mais palhaça, outras mais triste. Aconteceu que tive de regressar aqui e assomou-me uma certa vaidade nas palavras, um sentimento cheio de narcisismo e, em igual medida, de desespero. Leio-me e encontro o pavor daqueles que vivem de glórias passadas, sabendo a dificuldade acrescida dos dias para me igualar ou, pelos menos, provar-me justa derrota, esforçada e orgulhosa. Saberei, algum dia, voltar a escrever assim, sem que me envergonhe?

Durante muito tempo, acreditei que a dor era condição essencial à palavra, tão mais genuína quanto mais fecunda a ferida. Não a procurava mas, se aparecesse, haveria de dar-me jeito. Assim segui, coleccionando dores como quem encontra moedas de cêntimo no passeio, dores desgastadas, dores sujas, dores negligenciadas por outros, que as vêem como eu, mas que não se dão ao trabalho de se baixarem por tão pouco, como eu. Guardo dores em caixinhas, como na canção, que me servem de remendos. Uso-as para enchumaços de histórias.

Só mais tarde percebi que a dor é um engodo e, a catarse, um luto de arrancar a ferros que não merece sacrifícios de espécie alguma. Há dores que não devemos trazer à luz. Se a escrita exigir de ti dor, não a queiras.

É no reler que confirmo o que o corpo já sabia antes de mim. Escrevo sempre melhor depois de estar contigo. O resto são mediocridades, milho de deitar aos pardais. O que mais me orgulha, veio sempre de ti, por ti, e isso é tão óbvio que quase me ofende. Se pudesse, livrava-te do fardo de te amar, mas a palavra escrita torna-se prolongamento da palavra dita, aquela que me sussurras ao ouvido, eu extensão do teu querer vertido em entoações variadas, interjeições de ser e estar, advérbios de toda, aqui e agora, o verbo mais-que-perfeito. Para mim sempre foste o amor à palavra. O amor. A palavra.

Quando queria ficar para mais um beijo, enxotavas-me com um ‘escreve, vai escrever’, lembras-te? Estávamos ainda no princípio do mundo, as palavras davam-nos uma tesão do caraças e era tudo tão bonito, meu amor. Tão ingénua e pura e ternamente bonito, meu amor. Porque é lindo demais quando nos tornamos um só, como disse o sr. Vitor no seu super-carro enquanto nos levava de volta para o hotel, ele que, sendo Português, fala em Espanhol para todos os turistas independentemente da nacionalidade e não sei como aguentámos ali o riso, amor, a sério que não sei. E sei que, vezes houve, em que escrevi como a quem é prometida uma indulgência, a mesma devoção e o mesmo alívio. Escrever e poder, enfim, aceder ao Paraíso. Fosse hoje ainda dia e as portas se abrissem para mim.

A questão perdura, porém: saberei eu, algum dia, voltar a escrever sem ti?

Não estava a ver-te a fazeres isso.

(...) Se estamos à espera dos carinhos que o gato nos faça, podemos desistir logo, mas também é verdade que às vezes, inesperadamente, ele é capaz de nos surpreender com um gesto completamente inesperado e que nos fazer pensar: “não estava a ver-te a fazeres isso, não estava a ver-te a procederes assim, não estava a ver-te a olhares dessa maneira”. (Rui Caeiro)

Minha gata, faz sentido.

Olá. Tá bom?

Um dia acordou e decidiu que ia começar a andar e a falar.

Sempre que pisares o passado limpa os pés.

Lembra-te daquela história do homem que perdeu as chaves e, questionado, porque procurava ali, debaixo do candeeiro, respondeu que era ali que havia luz.

That repeatability of life…That sticky, exhausting, murderous, revolting, yet inevitable and sometimes marvellous repeatability of life.

É como se acordasse todos os dias sabendo que está na iminência de uma vida nova mas tivesse medo de a descobrir. O dedo no gatilho, em espera. Ir trabalhar, sabendo que basta uma palavra e vai tudo com o caralho. Depois talvez Cuba, Montenegro, Geórgia, cada um com o seu exílio preferido. Escolher a liberdade é ter liberdade de escolha não entendendo logo à primeira que há prisões mais invisíveis que outras mas nem por isso menos castradoras. Está confortável no vagar das contas certas, adiando a decisão que vendeu a todos. Quer e não quer estar ali. Há tanto por escolher que mais vale estar quieto, menor a margem de erro. Como o homem que se matou quando chegou a reforma. Não sabia o que fazer dos dias.

Se puderes, não me admires.

Acontecem situações dessas, remotas de imprevisibilidade e, por isso mesmo, ainda mais apelativas. Hesitei. O ordenamento de território exige, como o nome sugere, ordem. Não podemos de um repente colocar um cruzamento onde está um riacho ou desatar a encher a avenida de rotundas e ciclovias sem primeiro indagar das variadas e múltiplas implicações de assim proceder. Há ruas que foram desenhadas para se manterem paralelas, traços no mesmo mapa, conhecedoras dos hábitos e preferências umas das outras, mas distantes no espaço e incomunicáveis por princípio e desígnio. As minhas vidas também são ordenadas, paralelas umas mais do que outras, e sei do perigo que é cortar assim por uma esquina e começar a enfiar carros em sítios de sentido proibido, sem que exista infraestrutura preparada para o efeito. Hesitei, por isso.

Todavia, mesmo situações dessas, remotas de imprevisibilidade, sucedem-se, por vezes. Sou honesta no meu intento: aproveito-me. A fama dela, o proveito meu. Aviso-a também de que esta que escreve não é a mesma que esta que fala. Haverão de registar-se incongruências, embaraços, espantos, talvez. Advirto-a de todos os riscos. Acima de tudo, se puder, que não me admire.

The only value we have as human beings are the risks we're willing to take.

Há quem acredite que Hemingway, ícone da escrita e da masculinidade, se matou quando deixou de poder escrever. Ironicamente, porque uma mão lava a outra, há quem acredite que foi também quando deixou de conseguir foder.

(descobri um editor à Hemingway, uma maravilha: http://www.hemingwayapp.com/)

Em casa de ferreiro, espeto de pau.

Pior do que a incompetência, é tentar justificá-la.

Em casa de ferreiro, espeto de pau I

Não basta ser patrão, é preciso saber mandar.