Love me like they do on MTV.

A felicidade engorda, menina.

Reverencio esta forma de esquecimento na mesma proporção com que me assusta. É possível esquecer perto de cinquenta pessoas duma única assentada. Fazer tábua rasa de objectivos e prioridades como se nunca tivessem existido. A relatividade que me fascina é feita de abandonos e recomeços, cortes fundos e folhas brancas. Não te deixes enganar, a criação não terminou ao sétimo dia. A liberdade suprema é essa, a criação a suceder-se todos os dias e com eles a oportunidade de seres ainda tudo o que quiseres.

Debaixo do sol não há problemas. Todas as urgências são do tamanho do teu despertar, ajustáveis e transitórias como a vida. Todas são, literalmente, uma questão de tempo, uma questão de espaço. Quanto tempo e distância até que sejam apenas um devaneio, rumor que alguém lançou. Debaixo do sol, poucas coisas há que sejam realmente urgentes. Ela a perguntar o que tinha acontecido e nós já sem sabermos bem a resposta, apesar de nos ter acontecido a nós. O tempo esclarece tudo e a seu tempo apaga tudo. Parto e chego para concluir sempre que não há terra onde prender raízes a quem tem o firmamento por destino. Só a tua boca poderia ainda agora prender-me.

Una súper nova entre todas las estrellas.


Lengua beso boca labio niño joven viejo sabio
Calvo rizo pelo lacio techo casa cielo espacio
Sexo orgasmo se humedece
Quizás nunca siempre a veces
Libro letra cuento narra ron con hielo o trago barra
3 Millones de latidos en un periodo mensual
Caminamos dando 10 mil pasos en un día normal
Crudo hervido asado frito birra iglesia rezo grito
Muy poquito demasiado corro vuelo salto nado
Puede llegar algún día el colmo de la biología
Vivir con sangre caliente pa morir a sangre fría

O destino não tem consciência, só (in)gratidão.

Cedemos à momentaneidade das nossas circunstâncias e tornamo-nos iguais aos demais: traçamos planos de ir além, com um tempo e um espaço definidos como objectivos que se possam tocar, seja o caminho favorável e a vontade persistente. Grandiosos e belos como sonhos, perfeitos e irreais como são todos os planos.

Precisamos todos de algo por que esperar. Dos nossos planos, esperamos, tu e eu, a sorte de todos os improvisos, a beleza que se esconde dentro do acaso.

Se o teu nome fosse Lola.

Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta. She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.

Vladimir Nabokov, Lolita

Sobre ti, só sei escrever odes ou Your body mass index is well within the recommended range for someone of your age, height and weight.

És o passado e o presente e o futuro todos misturados dentro e tão indistintos como ela nos faz crer, o texto meu mas o nome teu. És a aprendizagem mais sacrificada e a mais valiosa, custosa de países, palavras, vícios de abrigar à noite. És o acaso mais feliz e a palavra preferida no dicionário. Serendipidade. O que há de mais irrevogável, irrepetível e inquebrantável em mim. És tu todos os advérbios de modo, tempo e lugar a convergirem no mesmo sentido. Livremente, aqui, agora. Paz do meu sono e coração ao alto. O sentimento puro de perdurar. És círculo sem ponta por que se pegue, órbita da minha gravidade, minha história séria e grave, princípio e fim, meu antes, meu depois. Todas as certezas e todos os medos, o fogo de acontecermos no mesmo pedaço de chão e o mesmo horizonte por destino. A definição de felicidade. És tudo o que não sei dizer, segredo que não se diz. É por ti que não escapo às rimas mais parvas e aos lugares-comuns mais habitados. Acabar, por exemplo, este texto assim. Passear contigo, amar e ser feliz.

Era à prova de água, mas não convinha experimentar.

Existem por aí objectos que sobrevivem ao tempo com o simples propósito de sustentar uma memória. Quando ele escreveu sobre o relógio, eu ainda não pensava em nada disto. Há pensamentos que se guardam para uma certa idade e vão-se criando sozinhos e à distância, quais animais selvagens à orla da ignorância e do frémito dos dias, para chegarem até nós só depois de crescidos e independentes, escusados de conselhos e outros apegos. Com o relógio também foi assim. Tão indiferente e esquecido antes, tão vivo e presente agora. O pensamento só então surgiu diante de mim, a exigir a sua maioridade adolescente, já todo senhor de si.

Era um Casio e, como o do Joaquim Janeiro, foi das atracções mais badaladas do seu tempo. Relógio de pulso digital, esse luxo. Os números a sucederem-se numa magia qualquer e efeitos especiais melhores do que os dos filmes porque estes eram reais e, mesmo não lhes entendendo a mecânica, a minha curiosidade poderia talvez sem demasiado esforço alcançar esse entendimento, fossem todas as limitações uma questão de preguiça e contradição dela.

Um botão e um apito e os segundos passavam a correr, a morrerem em catadupa à minha frente, cheios de pressa de descobrirem o que os homens procuram saber já há tanto tempo. Outro botão e outro apito e nunca mais precisaríamos de consultar os calendários de parede, presente estimado a trazer do Grémio pela altura do Natal, tractores e legumes a forrarem na perfeição o vazio deixado na parede do escritório pelo contador da luz, ou cachorrinhos e gatinhos da fofura mais celestial a alegrarem-nos as refeições na parede da cozinha, sempre útil para saber das marés, manhã de lapas. E, finalmente, o botão mais maravilhoso de todos, o de dar luz. Uma luz amarela cor de lua cheia e noites de cio, embora eu só viesse a saber disso mais tarde.

Ler é também isto. Deitada na relva, numa ilha que avança à deriva dum dito sonho europeu, num dia em que o sol se lembrou que aqui também já é Verão, dei por mim a assistir ao renascimento dum objecto, como quem vem pôr as memórias no lugar para que não se percam. Descreveu o relógio que o Joaquim Janeiro levou para a Guiné e era já o meu pai com o seu Casio no pulso, a levar-me pequena à sua frente na mota por entre as escarpas mais bonitas de se ver o mar da consolação, sítios que a minha mãe nunca poderia vir a saber, consolados todos os problemas e inquietações à vista desarmada daquele mar.

Escreveu ele do relógio mas o relógio era o do meu pai, a infância a minha.

31, uma espécie de idade. P3RM, uma espécie de ambição.

Antes, desiludia-me a mim para não desiludir os outros. Agora, desiludo os outros para não me desiludir a mim.

Os meus dias impregnados dos teus modos. Os meus medos impregnados dos teus modos.

Simples assim.

O sol nas trombas, um sabor a mar que enche a boca, alguém que nos chame amor. Não me venham agora dizer que a felicidade é coisa difícil.

I've been dreaming about you and keep feeling this is all so new.

Desabituei-me do nome e é talvez por causa disso que há ainda este estremecimento sempre que o oiço. A terra moveu-se uma vez mais e ninguém percebeu que foste tu. O que nos chamam faz também de nós aquilo que somos e é por isso que uma parte de mim, a mais profunda e entranhada, há-de ser sempre aquele nome de família. A outra parte, amor. Quando me chamas assim é ainda uma novidade a aproveitar-se de mim e a acomodar-se ao espaço, ainda que o sentido existisse antes do som, a essência a preceder a existência como nos diálogos intemporais das mais altas filosofias. Cada palavra é uma promessa ao tempo, eco de qualquer eternidade ou de qualquer memória, filhas do mesmo destino. A tua palavra é aquela convicção livre e despudorada que me segura como quem abraça. Chamas-me amor e eu torno-me, de súbito, amor.

Oxi: uma ideia da Europa

A imprudência pode facilmente confundir-se com coragem se uma pessoa não estiver bem habituada a lidar com as duas. O orgulho, olho atento, pode ser só uma máscara ingénua da irresponsabilidade. Há decisões que se tornam birra e todos os pais sabem que uma boa educação passa por não aturar birras. Os mártires vendem as suas ideias a troco de sacrifício mas, mortos, são incompletos todos os seus sonhos. Só existem heróis em retrospectiva.

There's a reason for the sky to be so blue.


(don't you ever ever doubt.)

20, 21, 22: um ensaio sobre a felicidade.

A felicidade tornava-se contigo brincadeira de crianças, de tão fácil e disponível, ali tão prontamente ao alcance dum bolo bem cozido, manhãs de sereias ou robôts. Há pessoas para quem o futuro chega atrasado e outras para quem chega adiantado e eu não sei ainda que dia é o de hoje mas sei que é feliz esta versão do futuro. Vamos ensaiando a felicidade porque é a prática que faz a mestria. Sentes que me aproximo e puxas-me para ti, dás-me a cara, dou-te a boca, e quando anoitece e os teus olhos são o embalo do meu sono, somos, eu e tu, um casal numa casa.

O que dizem os olhos.

Os olhos contavam tudo. No encontro dos olhos contavam-se todos os caminhos que permitiram aquele momento, todos os dias que fizeram aquele dia, todos os sins e todos os nãos, toda a espera, todos os medos. Todas as certezas se anunciavam ali, ver-te a ser sempre ver-me nos teus olhos, o teu olhar a ver-me por dentro, sete-luas em sete-sóis. Olhos como se fossem por natureza límpidos. Olhares como polaróides na sua paradoxal missão de serem ao mesmo tempo instante e eternidade do sentir, histórias de primeira e de última vez. Não afastes os teus olhos dos meus, desta canção ignoro a despedida. Os nossos olhos detêm-se numa única confirmação, aquela segurança que vem de quem sente fazer a coisa certa, aquela alegria de quem se descobre por fim, ainda uma secreta esperança que tudo perdure puro. Olharmo-nos assim é sempre as palavras a faltarem-me e todas a quererem vir à boca. Há no nosso olhar tudo o que sabemos e, por isso, não precisamos dizer. O nosso olhar é então palavra de beijar, beijos que se incendeiam no vagar da pele e voam na possibilidade de mil horizontes. Os olhos contam tudo e os meus só dizem o teu nome, amor.

Desta paz.

Há uma paz que ninguém sabe. Uma paz que não sabe dizer, que não se pode sequer escrever. Vê-la assim a dormir ao nosso lado, a respiração vagarosa e segura, as mãos prostradas ao aconchego e o calor do toque que se sente só de olhá-la, dorme meu anjo, minha bela adormecida. Nenhum problema no mundo, nenhuma inquietação, sobressalto ou incerteza são possíveis neste momento. Olhá-la e acreditar em milagres, desejar com toda a força que seja feliz. Beijar-lhe o rosto com cuidado e sem a despertar, e querer amanhecer e adormecer todos os dias neste sentimento. Dorme e é-me assim conforto, casa, esta paz.

'Cause there's this tune I found that makes me think of you somehow.

A liberdade, tal como a responsabilidade, é pessoal e intransmissível.

Omitir pode ser proteger e mentir pode ser cuidar. Abandonar pode ser também amar, desistir pode ser já vencer. Uso-me das tuas ideias para reconhecer um altruísmo tantas vezes julgado à pressa. Bem-aventurados os que sabem lidar não apenas com a sua liberdade mas também com a responsabilidade, pessoal e intransmissível, das suas acções, porque pertencer-lhes-á a tranquilidade.

What is done out of love always takes place beyond good and evil.

Existem mentiras mais plausíveis que verdades, verdades mais sufocantes que mentiras. Ninguém leva uma vida a preto e branco, se todas são mil variações de cinza e até os gatunos têm códigos de ética. Ainda que nos facilite as contas e a lógica concreta de existirmos, o mundo não é dual e não se divide em pessoas boas e más. Somos todos bons e maus, heróis e vilões em potência, sujeitos às mesmas intempéries de impulsos e deambulações de sermos força e fraqueza, medo e coragem, memória e esquecimento, tudo aquilo de que não nos orgulhamos, tudo aquilo que não podemos lembrar. As fronteiras do bem e do mal não se fazem em leis e costumes, só existem na tua cabeça e existe a História para nos demonstrar, inclemente e a cada dia, que tudo nesta vida é uma questão de perspectiva. Todos os assassinos se julgam boas pessoas e até Hitler, dizem, adorava crianças. Não queiras assim procurar uma explicação sem que te seja dada a possibilidade de andares nos seus sapatos, viveres as suas circunstâncias. A vida precisa de contexto para ser passível de ser entendida. Diz-me por isso que cortinas de ferro te abrigam, que facas te cortam o peito quando fechas os olhos, que prisões te guardam arrependimentos, omissões e honras, que palavras e que olhares te dilaceram a pele, sobre que temores se edificam ainda os teus gestos. Diz-me que segredos se deitam contigo a cada noite. Diz-me que não preciso de ter medo.

So come on love, draw your swords.

Como quem volta a casa.

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.


Manuel António Pina

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter. Ter deve ser a pior maneira de gostar.

A emoção mais real é a do último instante, a vitória mais aflita e a derrota mais dolorosa conhecem-se apenas no extremo do apito final. Não se fale de injustiça sobre o que não pertence à justiça outorgar. É o incerto que nos move os passos e nos aperta o peito. Ninguém avança sobre certezas, nenhuma vida se sustenta de ses. A vida pode decidir-se toda na cadência de um suspiro, uma única pulsação e nenhum arrependimento, entre o tudo e o nada vai um golpe de asa ou um golpe de sorte. Tu, o incerto dos meus limites, gostar de ti até ao último segundo do último minuto. Meu amor, a vida toda é espera, a vida toda é saudade. Adiamos o toque e prometemos o tempo, reservamos a vontade e o melhor que somos e temos. De repente é dia. De repente somos já nós. Porque, dizem, chegamos sempre aonde nos esperam.

A felicidade é um problema de saúde pública.

A felicidade que me levou é a mesma que me traz. Antecipar a felicidade é já uma forma de ser feliz.

Os fortes aspiram a separar-se e os fracos a unir-se.

Elevam-se as fraquezas, glorificam-se as imperfeições, condescendem-se as falhas. Condena-se o orgulho, estranha-se a competência, reprova-se o sucesso. Repara como há mais preconceito sobre os ricos do que sobre os pobres, sobre os bonitos do que sobre os feios. Nota como destes esperas mais e toleras menos. Não queiras ser bonito porque nunca poderás ser nada além de oco e bonito. Não queiras ser rico ou nascer numa família que trabalhou para ser rica porque serás sempre mimado a viver num mundo cor-de-rosa e assim também eu. Não queiras ser o melhor porque gostas é de te exibir e não passarás dum arrogante. Não queiras ser inteligente porque lá estás tu cheio de mania a usar palavras caras. Nivelou-se o melhor do homem pela mediocridade do homem e a humildade irmanou-se à humilhação. Foi hoje que Nietzsche chorou.

A política é uma coisa demasiado séria para ser entregue a amadores.

Revolucionários em estágio, houve quem erguesse um altar de coragem e rebeldia à atitude da Grécia e queriam até que Portugal lhe seguisse o exemplo. Onde estão agora esses que nos queriam ver Gregos?

* título vindo do Delito de Opinião