We don’t deserve love.

Subir por ti acima e chamar deus à vontade de subir.

Vindico ao mesmo tempo um descanso e uma contradição. O teu corpo enche-me de paz e de desassossego.

*do original de Raquel Nobre Guerra (“subir por aquele rapaz acima”)

Se pudesse, era sexta-feira todos os dias.

A página em branco distrai-me, dentro da cabeça as palavras sucedem-se sem vírgulas pontos mesmo sem reticências é o problema de ler sem saber quem fala agora se a mãe se a filha tento-lhe o exemplo e na minha cabeça escreve-se o texto mais belo nada do que virá agora mesmo que desta vez não o contenha corrija sequer pense deixo que cheguem como te chegam a ti sempre naturais como uma fome ou uma torrente melhor uma nascente são ainda água pura sem saber onde deter-se rio que corre sem saber que fim tomar só uma necessidade de ser água caindo correndo enchendo uma coisa sem destino a mesma poesia que faz a minha avó sem o saber tanto campo tanto campo uma coisa sem destino disse ela e penso que somos nós também assim quanto tempo passou já dizem-me o ano faço as contas e surpreendo-me ainda há tanta coisa ainda por fazer amor e não consigo não te chamar amor nessas alturas torno-me afluente de ternuras quando recordo os avanços e recuos como andamos sempre à volta do amor umas vezes caindo-lhe para dentro e noutras na periferia como duramos mesmo que o modo de ser e estar vá variando e enquanto a noite prossegue eu sou essa que regressa sempre a ti amor repito-me utopia mais distante que consigo sonhar mas os sonhos são ideias tão românticas hoje em dia que quase ameaço despreza-los a realidade é que já só vou acreditando nos sonhos que consigo agarrar sobra-me em preguiça o que me falta em ambição talvez apenas tu sejas real nesta mescla ou será merda de miudezas que flutuam à minha superfície porque chega-se à noite e não é a primeira vez que me sucede também em horário laboral e o que eu é quero é que se foda tudo os requisitos e as expectativas dos clientes e o webinar e as conferências a baseline e o template e a maturidade e o planeamento e tudo o mais que inventam para me encherem a cabeça porque esta vida não é a minha porque na minha vida chega-se a esta hora e tu esperas-me e reinventas o dicionário todo as palavras todas mesmo aquelas que não utilizo e as que nem conheço mas são todas tuas tu subitamente a palavra favorita nao é serendipity precipitei-me porque chega-se a esta hora da noite e a única palavra que me cabe na boca és tu.

Espero porque só sei esperar.

Encontro-a estendida no chão e dizê-lo assim é horrível. Não sei gritar mesmo que quisesse, nunca soube. Não sei o que fazer. Aparece-me tudo a horas impróprias. O medo encontra-me ou encontro-o eu a ele. Quero gritar e não consigo.

Cair para dentro.

Ler Valério Romão e pensar que, mesmo que tentasse, nunca passaria de um Chagas Freitas. O irritante é que todos conhecem Chagas Freitas.

Da ocupação.

Gosto cada vez mais de estar sozinha. Abomino cada vez mais o esforço de ser social e esgoto a paciência facilmente. Recuso-me até a testá-la. Abandono amigos sem que o saibam. Os outros são-me aparatos e adornos, recursos estilísticos que se apequenam paulatinamente em passados. Tal como as despedidas, há momentos que não devemos prolongar a fim de que deles perdure a melhor memória.

À procura de novos desafios.

Ninguém volta de uma missão de voluntariado a dizer que foi infeliz. Ninguém volta de uma missão de voluntariado sem lhe chamar missão, ó messias ansiado. Ninguém volta de uma missão de voluntariado sem uma fotografia com pretinhos, ó prova tão necessária para enfeitar a estante da sala. Pior que isto, só mesmo aquelas pessoas que “procuram novos desafios”. Valha-me deus.

We look like cheap consultants.

Repara bem: a consultoria é um negócio de prostituição.

No outono, verão e primavera.

Now she's gonna play and sing and lock you in her heart.

Pergunto-me em quem pensa quando ouvimos canções tristes de amor e lamento a minha hipersensibilidade, a excessiva dose de fatalismo. Quase lhe peço desculpa e talvez, de facto, a merecesse. 

Não basta a minha companhia?

Reconheço-lhe o intento mas não consigo dizer-lhe que é em vão. Será que espera ainda que passe? Domestica-me o desejo, bem sei. Refreia-me o corpo. Educa-me para a amizade.

Entender tudo isto, mas querer mesmo assim guardar-lhe os olhares, os orgasmos, segredos como canções e os seus pés sob os meus pés.

Love invent us ou Queria que ela fosse tão propensa ao sorriso quanto o pudesse ser.

A vida poderia ser assim. Chego ao quarto e encontro-a em frente ao espelho a maquilhar-se. Está atenta no seu afazer e fá-lo com esmero quase arte. É bonita. É muito bonita. Tem uns olhos de acender o mundo, olhos que chamam e prendem e que tanto podem incendiar como acalmar os dias. São olhos de fazer poesia, límpidos como o amor. A pele é sem imperfeições, macia de tocar pela vida fora. Tem um jeito matriarcal de quem sabe muito e tem sempre razão e, ao mesmo tempo, um cuidado precioso de ser mulher. Quando está feliz e sorri, nascem-lhe uns bigodes de gata que só eu vejo. No espaço de segundos que vai da porta do quarto ao quente do seu rosto, penso em tudo isto, as coisas que não lhe digo. Vira-me a cara para o beijo como se o esperasse ou fizesse parte das minhas obrigações. Este que procuro sempre prolongar, só também o pescoço, só também o cheiro do cabelo, só também tudo. Beijo-lhe o rosto enquanto se maquilha, tão bonita. A vida poderia ser sempre assim.

Sou eu the lucky one, meu amor.

A felicidade complexa dos que se justificavam pela tristeza.

Ela diz que a tristeza é um sentimento como os outros, mas não estou certa. Há uma desproporcionalidade brutalmente injusta nas coisas do sentir. Repara como basta uma tristeza pequena, mirrada mirradinha, para ocupar tudo, existir e persistir como existe e persiste uma dor de dentes. Sem que consigas pensar noutra coisa senão nessa tristeza pequena, dormir ou lavar a loiça sem que a notes do teu lado. Já a felicidade, conta-se por outras medidas, dir-se-ia mesmo por balança diferente. Até que se note, sem que seja suspeita ou rumor mas antes espectáculo de ser ver mesmo ao longe e sem enganar como o algodão, exige uma grandeza de felicidade ou, permita o paciente tempo, uma colecção de felicidades pequenas. Exigimos demais da felicidade.

É lindo demais quando formamos um só.

Tenho, por vezes, as ideias mais absurdas, doideiras desta cabeça. Pensei, vê lá tu isto, que, por uma vez, desta vez, me quisesses.

If you think I'm losing you, you must be crazy.

O dia assinalado com um coração na agenda.

Foi o dia em que a Madalena nasceu.

Que desculpa vais agora dar?

Uma casa junto ao Vouga,
rio de água suficiente,
onde apenas se mergulha
até à cintura, a pequena horta
de Virgílio, o amor robustecido
por nenhuma esperança
e tantos livros para ler
- que desculpa vou agora dar
para não ser feliz?

Desculpas não faltam, José Miguel Silva

Do you believe that every story must have a beginning and an end?

Não sei até quando. Porquê. Sequer para quê. Sinceramente, interessa-me cada vez menos. Haverei de sorver a hipótese de felicidade até ao último fôlego. Sem remorsos e sem urgências. Não me peçam que explique pois não se explica o que é força maior em nós. Todas as histórias são estradas de ir dar a algum lugar.

Não há nada mais estranho do que a felicidade.

De repente, tornaram-se arriscadas todas as tentativas de comer gelados artesanais sem ti.

The tear of Europe: she´s beautiful.

Referia-se sempre ao rio na terceira pessoa feminina do singular. Ela, rio-mulher de matar a sede e mergulhar dentro. Dizia coisas como "she´s crazy" ou "she´s beautiful". Quando vi a limpidez da água, recordei os teus olhos, sempre mais belos quando ensaias a felicidade. Partilham da mesma limpidez, esferas de luz que sempre me prendem. E, se primeiro estranhei aquela forma pouco usual de tratamento, tão íntima e corpórea, foi quando recordei os teus olhos que tive de dar-lhe razão. Sim, she's beautiful.

É importante dormir com esperança.

Tenho uma relação livre e instável com o dinheiro, talvez fruto de variadas traições, euforias e desgostos. Assumo os meus critérios dúbios, por vezes mesmo insondáveis. Cada um faz a sua vida com independência e laivos de adolescência urgente, mas cientes de que haveremos de nos encontrar um dia por aí. Acreditamos ainda no nosso final feliz. Será somente uma questão de tempo, talvez quando já cansados os dois dos nossos enganos passageiros e terrivelmente necessários.

Offline is the new luxury.

Em Sveti Stefan cobra-se 120 Euros pelo aluguer de um conjunto de praia: toalhas, chapéu, espreguiçadeira e um empregado sempre de plantão pronto a satisfazer desejos e caprichos. Pensei, estupefacta, que a privacidade anda cara. Depois fui para uma praia pública, de toalhas amontoadas em cima uma das outras, putos correndo de um lado para o outro, sem noção de espaço e enchendo a cada vez a minha toalha de areia, adultos como crianças, mal-educados no arrotar e no falar alto. Dei por mim a pensar que 120 Euros é justo, talvez até pouco.

May I have an ashtray please?

No meu provincianismo quase corriqueiro, olhava-os, pensando se teriam alguma vez saído dali, do País, das malhas da Europa. Mais tarde, pedindo um cinzeiro, o empregado corrige-me o Inglês. Não é can I get, mas may I have. Tinha vivido em Inglaterra.

De Muo, com a baía por quintal.

Poderia ser aquela que se exila em Kotor com as teclas da máquina de escrever a sufocar o silêncio raso da baía, apenas perturbável pelo ocasional pescador que entra na noite sem luz outra que a da lua a acender o mundo, ali aninhado entre aquelas montanhas negras. Os meus sonhos são simples e permitem todos os gatos da cidade, até os mais enfezados. Ali, sob os ombros de gigantes, Kotor é o impronunciável da paz, quase um não-lugar de tão perfeito. Faço da noite aliada e respiro dessa paz como um truísmo. Não o contarei a ninguém. Que vão todos para Dubrovnik.

Beber contra os livros, incendiar bibliotecas.

Books you haven´t read.
Books you needn´t read.
Books made for purposes other than reading.
Books read even before you open them since they belong to the category of books read before being written.
Books that if you had more than one life you would certainly also read but unfortunately your days are numbered.
Books you mean to read but there are others you must read first.
Books too expensive now and you´ll wait till they´re remaindered.
Books ditto when they come out in paperback.
Books you can borrow from somebody.
Books that everybody´s read so it´s as if you had read them, too.
Books you´ve been planning to read for ages.
Books you´ve been hunting for years without success.
Books dealing with something you´re working on at the moment.
Books you want to own so the´ll be handy just in case.
Books you could put aside maybe to read this summer.
Books you need to go with other books on your shelves.
Books that fill you with sudden, inexplicable curiosity, not easily justified.
Books read long ago which it´s now time to reread.
Books you´ve always pretended to have read and now it´s time to sit down and really read them. 

em If on a Winter´s night a traveller, Italo Calvino