I'm a heartless man at worst, babe and a helpless one at best.

Em cada instante, o que existe existe num mais além.

(...) o significado de tudo está sempre para lá dele, como o de cada palavra está no todo da frase, como o de cada frase está num complexo de sentimentos, como o do todo dos sentimentos está no estilo de uma época, como o estilo de uma época está no ar que se respira, como o ar que se respira está no ar que se respirou e viremos a respirar, como tudo isso está no destino do homem, como o destino no homem está onde. Em cada instante, o que existe existe num mais além.

Vergilio Ferreira, invocação ao meu corpo
(voltei a ler Vergílio Ferreira e a lembrar-me por que é o meu autor Português preferido)

O caos é uma ordem por decifrar.

Talvez seja de facto o ângulo o princípio diferenciador, nós vemos a vida do lado de fora e eles vêem-na do lado de dentro. Dizemos que são diferentes, desadequados a este mundo, desligados da realidade, apartados da razão. Aceitamos o contínuo do espaço e do tempo, absurdos teóricos e transcendentes, astros mil em deriva pelo negro dos universos, mas só nos dignamos aceitar uma razão e que seja a nossa, uma realidade e que seja a que vemos. A sua sem-razão é animal, a sua inquietação perturbante, cão, latido, ganido, ladrar, morder, calcanhares, carne, sangue, deus, morte. Há uma porta sempre aberta por onde entram e saem sem que pertençam a lugar algum. A loucura é uma porta sempre aberta que só fica bem aos poetas e aos bêbedos. Há uma realidade por detrás da realidade, um sentido por detrás dos sentidos, uma história por detrás de cada história, gritos por detrás dos gritos. A verdade não existe indiscutível e petrificada. A verdade está sempre por detrás da verdade. Chamamos-lhes loucos e eles riem-se na nossa cara.

Uma educação para o medo.

Existem, é certo, vários tipos e modos de medo e pode até dizer-se que o medo de agir é tão paralisante quanto o de reagir. Porém, não devem ser confundidos pois enquanto o medo de reagir é circunstancial, o medo de agir é intrínseco e, portanto, mais lamentável. Faz por tolerar um mas evita a todo o custo o outro pois não é o medo que paralisa, mas o medo de ter medo.

Da arte de estar ocupado.

Não basta estar ocupado. É preciso parecer estar ocupado senão mesmo demonstrá-lo, por isso te perguntam por vezes qual a tua "ocupação". No pior dos casos, chega mesmo a ser preciso comunicar que estás ocupado para que te deixem em paz.

Baby when you're gone I realise i'm in love.

E a vida é sempre assim.

Sammy, observa bem: é assim o amor. Chegar a casa e ter o almoço à espera, doces e tartes e tortas, a manhã começada cedo e acabada a horas e a expectativa do contentamento a cada dentada, porque cuida quem ama, ama quem cuida. Sammy, o amor é uma barriga cheia que nunca mais acaba. É a vontade em ponto de caramelo e sem hora marcada porque todas nos pertencem, o que se reserva e se refoga feito alimento. São as dobras no cabo do chuveiro e as manias todas juntadas na mesma ordem, os cheiros tão confundidos e tão nossos. Sammy, o amor é uma casa onde nos sentimos sempre bem. Adormecer no irrenunciável dos seus olhos, terreno virgem aos perigos do mundo, os dedos nervosos e tacteantes mesmo que a verdade fosse desde sempre conhecida e os pés e as pernas e o corpo sempre enlaçado porque o amor é uma respiração comungada a sincronizar-se no toque da pele. Sammy, nenhum verso é mais belo do que o concreto do encontro com outro corpo, nenhuma palavra mais reveladora do que o gesto. Acordar com o mesmo beijo e a mesma certeza, canções que despertam connosco e a vida toda a ser de repente simples, nenhum problema, nenhuma agitação, nenhuma agenda, nenhuma interrogação. O que eu sinto é exclusivo. Sammy, o amor é todas as respostas. Ver um filme e comer pizza na cama, rir e barafustar por tudo e por nada, inventar futuros com a mesma diligência com que se inventa o destino das sobras mesmo que em nós só sobrem possibilidades e (a)braços, todo o espaço preenchido pelo mesmo sentir de sermos nós, hoje e agora. Cinco libras mas é outra a minha sorte grande, porque eu também adoro esta vida, mi amor, mi gustas tu. Sammy, observa bem: a felicidade é isto.

What more reassurance can I give you? I'm here. I am here.

Se é da sua temporalidade que vem o medo, é também daí que vem a sua força, porque afirmá-lo é já tornar uma circunstância numa escolha. “Eu estou aqui” é então a derradeira suficiência não apenas por ser verdade mas porque todas as verdades são também assim, imediatas.

No fim de contas, são pouquíssimas as coisas que na verdade importam nesta vida.

No fim de contas são poucas as palavras
que nos doem de verdade, e muito poucas
 as que conseguem alegrar a alma.
E são também muito poucas as pessoas
que nos fazem bater o coração, e menos
ainda com o correr do tempo.
No fim de contas, são pouquíssimas as coisas
que na verdade importam nesta vida:
poder amar alguém e ser amado,
não morrer depois dos nossos filhos.

Amalia Bautista

E, se me quisessem fazer ver que a vida era outra coisa que não esta, tão adequada, consideraria apenas desarmar essa tese pelo argumento fácil do meu sorriso.

Nenhum lugar é tão perfeito quanto o futuro.

Quando vieres, os ponteiros dos relógios não vão parar como na casa dos Saramagos, milagre inusual que só se digna acontecer aos poetas. Sobre o tempo, dizem que amanhã haverão de continuar as mesmas nuvens e, a fazer caso no que eles dizem, dar-se-á ligeira descida de temperatura. As marés não se alterarão nem o sol dançará no ar quando vieres. Não haverá rufar de tambores nem comunicados de última hora, não serás notícia no jornal. Quando vieres, ninguém dará conta, suspeito. Só as palavras se alterarão todas, palavras de dizer a serem palavras de tocar, a voz da escrita a ser a voz da vontade, o peito finalmente acalmado nos afectos e silêncios promulgados no cansaço, o mais feliz. Quando vieres, nada muda no mundo, que o saibas já. Mas espero-te com a mesma atenção e a mesma ansiedade. O meu coração a bater és tu.

(vem mas é pra casa)

É urgente cultivar a felicidade.

Pergunta a alguém se é feliz e repara como te olharão desassossegados, como se houvesse um estratagema escrupuloso por detrás da pergunta ou como se questionasses ali sem pudor o oculto de um segredo profundo. Repara como se movem inquietos e perguntarão cheios de agnosticismo o que é isso afinal, a felicidade, quimera tão longínqua como perdida. Haverão de hesitar numa conclusão firme, optando pela ambiguidade tranquila de um talvez, tem dias, o espectro acostumado do miserável vai-se andando, cá se vai indo. Para estes, a felicidade é excepção à regra, deslumbramento exigente e de condições variadas e nunca inteiramente satisfeitas. Repara como lhes é fácil entrar na noite de uma tristeza, um par de incidentes lhes basta para uma eternidade sem fim, porque a tristeza pode ser um vício como qualquer outro. Ela tem razão quando anuncia que já ninguém liga à felicidade. Pergunta de novo e observa. Ignora-te de ti por um momento e repara bem como há pessoas para quem a felicidade é um impossível. E então, de olhos bem abertos, que decidas escolher o encontro com a felicidade a cada dia. Nasceste para ser feliz.

If someone isn't making you stronger, they're making you weaker.

“You are the average of the five people you associate with most, so do not underestimate the effects of your pessimistic, unambitious, or disorganised friends. If someone isn't making you stronger, they're making you weaker.”

Tim Ferriss

What a wicked thing to do, to let me dream of you.

Meu sol, a solidão é muito um problema de luz.

há uma solidão específica para as noites. uma espécie de agrura que o escuro inventa. esconde o mundo como se escondesse a possibilidade de encontrar alguém. gostava de um lustre magnífico, tremendo e sempre aceso no lugar do sol. gostava que pendesse cristais e fosse encantatório. noite e dia. com ou sem gente. a solidão é muito um problema de luz.

valter hugo mãe, 27/04/2015

Que venha ainda a vida e nos reencontre, nos resgate, nos condene, nos repita.

Nem a mais grandiosa imaginação poderia suplantar as imensas possibilidades que cabem numa vida, nenhuma arte maior do que esta que se completa a cada inspiração. De nada valem adivinhações ou profecias, morrem onde a vida começa. Não tentes, não te canses com isso. Também eu pensei que era necessário um mundo novo, a reinvenção de todas as coisas, o puro esquecimento de quem fica. Mas existes tu e existe a vida, os verdadeiros eixos em que roda o mundo, e condições suficientes para o que é de ser tudo. Existir é, de todos, o maior assombro a que podemos ambicionar. Deslumbrarmo-nos, a derradeira prova de que existimos.

A minha surpresa mora na retrospectiva do irrepetível e ri sobre os rumores exagerados da morte, ainda que tenha a certeza que foste quem aprontou isto. Este sítio a que chegamos pela primeira vez é outro. Estamos, talvez agora, num sítio novo. Olho-te nos olhos e abandono o medo, porque a tranquilidade faz-se de certezas, o que sempre se soube. Somos, por um breve momento, a iminência de todas as falhas e a felicidade antecipada de todos os amanhãs. Tu, o inesperado de uma palavra a acontecer irrevogável dentro de mim. 

Sometimes the wrong train can take you to the right destination.

Meus e maus são a raiz bicéfala de toda a tristeza.

(…) a dor é apenas carne e sangue, meu parolo, um saco de berlindes decantados da melhor farinheira com ovos, uma súbita interrupção na gigantesca engrenagem que vai da boca até ao cu, não há nada de sobrenatural nisto para além do facto de te conseguires manter vivo tanto tempo na mais perfeita ignorância, percebes. 

Da Família, Valério Romão

A duração de qualquer escolha tende sempre, como nas funções exponenciais, para mais infinito.

Perdão é coisa que não se deve dar a ninguém. Repara que nunca perdoas a outrem mas ao que outrem provoca em ti. O perdão é solitário e auto-suficiente, acontece sempre de ti para ti.

A vida serve-se quente.

Há dias que são cedo demais para escrever. Escrever é sempre um acto incerto que tanto pode servir para afastar o medo como para melhor o chamar, escorrega-se como se anda. Cada palavra é então um desafio a bramar em voz alta o que peito guarda em surdina, momento doloroso de confissão e de remissão que a noite consola mas não termina. Porque há paragens onde não nos devemos deter, vistas que são de olhar uma vez e seguir em frente, chão onde não podemos parar mas antes passar depressa antes que desabe. Porque as memórias são precárias mas o futuro é mais. Em cada linha, escrevo a tradução pronta duma catástrofe.

O que buscamos uns nos outros é sempre a noite.

Uma viagem de comboio: do amor, uma história simples.

O amor tanto é de quem o sabe dar como de quem o sabe aceitar.

Uma viagem de comboio: das memórias, uma lembrança.

Não são os objectos, as cartas, as fotografias, os postais, nem os vídeos. São as memórias. As que vivem contigo, as que te matam, as que te mudam, as que te fazem. A primeira queda a sério, uma ou outra humilhação e um ou outro sucesso, as mágoas, o primeiro beijo, o dia em que tiraste a carta, o dia em que se conheceram, todas as mortes, a primeira vez, a última vez, aquela discussão, as palavras que ficaram para ser eternas, o reencontro nos olhos límpidos dela, as viagens, os cheiros, os gostos, as vozes, o toque, as cores, os sentimentos que um dia foram, as piadas mais parvas mas que eram as vossas, as histórias, a História, as canções, o primeiro riso, o primeiro choro, o primeiro dia de escola, o dia perfeito, o dia mais triste da tua vida, o dia que fez os outros. São as memórias.

As memórias que te pertencem porque foste tu que as fizeste. As memórias que te pertencem porque tas fizeram em ti. E também as memórias que tu não pediste mas que não consegues apagar, outras que tu inventaste e que não te saem agora da cabeca. És memória e esquecimento, equilíbrio de paz e dor. Podes acumular honras, dinheiros, factos, pessoas, mas contigo só levarás memórias. Escolhe com cuidado aquelas que queres fazer e ainda com mais cuidado aquelas que queres guardar.

Uma viagem de comboio: dos medos, uma divisão do mundo.

Há pessoas que hipotecam o futuro com medo do presente e há pessoas que hipotecam o presente com medo do futuro.

Uma viagem de comboio: das mágoas, uma comparação.

A mágoa é como água que se atira: raras vezes é possível magoar sem sair magoado.