Se eu tiver dó e vir tudo o que eu neguei transformado em nós.


O amor não é geometria de paralelo, o amor é perpendicular, é oblíquo.

Os gatos não são felizes, são melhores.

Assim tu também, minha gata.

(tudo do Valério Romão, Dez razões para aspirar a ser gato.)

Do assumir.

São os heterossexuais quem assume que. O resto é pão e circo.

I am not a vegetarian because I love animals; I am a vegetarian because I hate plants.

Eu, que desconfio de pessoas vegetarianas, tive o meu melhor jantar de Budapeste, até agora, num restaurante vegan. O mundo anda estranho e eu com ele.

Shalom

Tratando-se de cidades, a minha área preferida é sempre o Jewish Quarter. Ganhar a eternidade não deve ser muito melhor do que isso.

Então que ganhe a melhor parte.


Absence is presence.

Nas condições certas, e é sempre difícil apurar quais estas são, a ausência pode ser presença, hipérbole manifesta da saudade. Porém, não te enganes, nenhum silêncio é acidental.

Livraria Palavra, Serendipity Bookshop

Vou ignorando até à última palavra o que, sei, me faria feliz: um dia terei de ter uma livraria.

Em todas as estações de metro te encontro.

As estações de metro são como aquelas outras, daquela cidade que me faz quente o Inverno, mais real a vida: múltiplas e incontáveis possibilidades de saída. E lembro-me sempre, como um aforismo ou epifania, daquela que foi talvez a primeira grande verdade que me deixaste: existem tantos caminhos.

Não te vou negar a visita às ruínas.

Budapeste não faz parte das minhas cidades preferidas. No centro, em algumas partes, cheira-se o mijo e o suor. Nos postes, nos cantos, nas paredes, nos passeios, o mijo sem decoro ou licença. Além disso, é uma cidade demasiado grande para ser acolhedora. Depois, encontrei o Szimpla Kert, o Café New York, o District VII e reparei nos eléctricos, bonitos como os nossos.

É preciso saber respeitar o passado para que o futuro possa ser respeitável.

É preciso fazer meia hora de eléctrico e mais quase uma hora de autocarro para lá chegar. Fica fora de Budapeste porque Budapeste quer esquecer. Tal como outros países da ex-URSS, destruíram-se estátuas, vandalizaram-se edifícios, mudaram-se nomes a praças e ruas, queimaram-se provas, todos os vestígios. Hoje, é preciso ir em busca de Lénine para encontrar um rasto de Lénine.

Até dá vontade de constituir família.

Vi-a, finalmente. This is Us é uma boa série: chora-se a cada episódio.

Mas sinto que sabes que sentes também.


Eu nunca piso nenhuma margem, não sou senão corrente.

Sou instante. Sorte seria ser linha numa biografia, margem de atracar.

Como se fosse possível ir de verbo ao segredo de uma boca.

Talvez não tenha passado dum exercício de poesia. Já se sabe que romantizo tudo, tu, melhor do que ninguém, hipérbole do meu sentir. Não reparaste, com certeza, mesmo sendo quem repara em tudo. A verdade é que uma pessoa pode passar a vida toda sem se aperceber. Não seria, então, de estranhar. A memória, porém, é criatura estranha, acentua e ignora a seu belo prazer. No depois, todas as histórias de amor são bonitas e, mortos, todos somos santos. No final da vida, fomos todos felizes.

A linha imaginária do poema, anatomia abstracta que nunca decifraste, algures localizada entre o diafragma e o ponto retórico duma convicção, existe, afinal. Toquei a vertigem por duas vezes, como se o poema ali se escrevesse todo, um reencontro que era tanto de vontades como de identidades. Assombrei-me no que de nós se reconheceu, não só o corpo, mas o cheiro, o futuro, o que dizem da vida. Reconhecemo-nos como quem chega a casa. A mesma familiariedade de cada divisão, o sítio dos livros e dos tachos, a disposição solene dos móveis e bibelots, a forma como a palavra se constrói e coincide, um gesto a suceder ao outro num encadeamento que só a intimidade permite.

Certamente, não reparaste mas, foi assim quando primeiro sorriste contra os meus lábios, a felicidade a aparecer-me, como seria de esperar, pela boca. Faz tempo, ainda havia neve nas ruas. Depois, aquela eternidade de Verão nos olhos. Alguém que se olha e ali se pede e se dá licença, alguém que pergunta e outro que responde num rito que tem tanto de sagrado quanto profano. Eu, Marisa, tomo-te a ti. Este é o meu corpo, tomai e comei. Alguém que agradece e perdoa, como se ali se compusesse de novo uma canção. Obrigada por saberes cuidar de mim, tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou. Encontrei-me nos teus olhos e coube toda lá dentro e, entre aquele segundo e o beijo, disse-te tudo, tudo. 

Decerto não reparaste.

Sleeping together, feet touching, legs touching. Being asleep and together.

O escuro, uma mão, um botão. Um visco. 
Dizem que o amor é isto. 

Sónia Balacó
(perdi o interesse no dia em que usou de reticências, coisinha de esforço) 

Being together is the miracle, being together and caring.

O cheiro dos filhos, o cheiro de casa, o cheiro daqueles que amamos.

Não podia ter tido mais sorte.

De repente, somos apenas os dois. Enquanto olhamos para ela, por ela, diz-me que "não podia ter tido mais sorte" e não sei como não me esvaí ali de emoção, o peito naquele momento demasiado cheio. Dizem que tem o meu nariz.

Desemigrante ou Avec2017

A pessoa que devolve "OMG" quando se vê boquiaberta é a mesma que me pergunta se tenho dificuldades em falar Português quando estou em Portugal.

É noite. Está mar.

14 de Agosto. Chove. Em Inglaterra, sou sempre Inverno.

Ciclos eleitorais.

Ler no Verão, escrever no Inverno.

A vida toda.



Se eu acreditasse em sinais diria que há pessoas que ficam para a vida toda.

A felicidade é ter boa saúde e má memória.

Esquecia-se e, com isso ou por isso, podia sempre repetir a felicidade.

E se ao menos tudo fosse igual a ti.

Não mo confessam, mas sei que se perguntam, sem entenderem. Porventura, como sucede também contigo. É o seu desentendimento que me dignifica o querer. Como se tivesse encontrado uma pedra preciosa, Euromilhõessíssimo, uma trufa, mas nem a todos estivesse reservado reconhecer o que é de tamanho valor ou, encontrando-o, acabando por confundi-lo com uma batata. Um pouco como aquela moeda de 50p que guardo no bolso interior da mala, ou a caligrafia do autor rabiscada naquele livro, ou aquele berlinde transparente que guardei durante anos para um dia to depositar nas mãos porque deixou de ser límpido quando te descobri os olhos. Um pouco, vá, como tu.

My heart is soft, my body is rough.

Obriga-me a abandonar os gestos e a dizê-lo por palavras. Que o diga, se o quero. Porque a vontade é sempre imperativa, o corpo sempre submisso. Explícito o meu querer, cedo sem sacrifício ao seu sentido prático. Não me sujes o vestido. Não me estragues o cabelo. Abreviamos entendimentos e furtamo-nos ao escusado das entrelinhas e meias medidas. Sabemos ao que viemos.

É muito na palavra que coincidimos e nos confirmamos. Mesmo no silêncio, quando a sua mirada parou no achado da minha e assim nos reconhecemos no fundo dos olhos uma da outra, eternidade de verdade e de vida, poder-se-iam também julgar ali palavras. Olhava-la e sabia-se ali abraço, sabia-se sempre, sabia-se amor. Não-ditas estas mas, tão óbvias, tão brutas, tão desnecessárias. É a palavra o que nos abre e nos fecha. É a palavra que nos convoca e nos liberta, que nos inquieta e nos domina. São ainda as palavras que nos molham. Adoro, pois, a sua dicção.