Every something is an echo of nothing.



If we ever stop talking, send me a song.

Do privilégio da saudade.

Ensaio frases que não me levariam a lado nenhum, a maioria sem sentido ou de sentido proibido. Será melhor a segurança que sempre nos traz o silêncio, menores as hipóteses de irreversibilidade, seja por danos consentidos ou colaterais. Não sei quanto houve de pretexto, cansaço ou veredicto na ligeireza da tua resolução e afundo na perplexidade de nos encontrarmos neste sítio a esta hora. Cala-me essa desilusão de não te servir para nada. Cala-me a perplexidade, sinónimo desta tristeza ou será apatia. "E eu aceno e finjo que entendo."

Nesse dia, fartei-me de sonhar contigo e talvez devesse tê-lo interpretado como uma premonição. Está visto que existem coisas que nos chegam como sinais imperscrutáveis até à mais audaz tentativa.

Caber-nos-á agora confirmar aquelas palavras do escritor que ainda te entretinham o pensamento, se a saudade poderia alguma vez ser privilégio. Da minha parte, temo ter já descoberto a resposta.

Existes tão fundo em mim.

E porque é que só sei gostar, perguntou-se examinando as bolhas de gás pegadas à parede de vidro, porque é que só sei dizer que gosto através dos rodriguinhos de perífrases e metáforas e imagens, da preocupação de alindar, de pôr franjas de croché nos sentimentos, de verter a exaltação e a angústia na cadência pindérica do fado menor, alma a gingar, piegas, à Correia de Oliveira de samarra, se tudo isto é limpo, claro, directo, sem precisão de bonitezas, enxuto como um Giacometi numa sala vazia e tão simplesmente eloquente como ele: depor palavras aos pés de uma escultura equivale às flores inúteis que se entregam aos mortos ou à dança da chuva em torno de um poço cheio: chiça para mim e para o romantismo meloso que me corre nas veias, minha eterna dificuldade em proferir palavras secas e exactas como pedras.

António Lobo Antunes, Memória de Elefante

Se puderes, torna-te simples, exacta como uma pedra.

Ah, a vida, sempre tão cheia de graça.

Eu também gosto de ti, disse. No dia seguinte, deixou de lhe falar.

Ah, a vida, sempre tão cheia de graça.

Conta que está cansada de ser alguém, já só quer ser ninguém. No dia seguinte, tiram-na do anonimato.

Nós não temos uma relação, ainda.

Não tenho memória de me ter acontecido antes tal coisa, se é que acreditas. Posso até adiantar que me senti um pouco envergonhada por aquela palavra adiantada. Afinal, pior do que não saber medir a fundura das palavras, é não lhes respeitar o tempo. Aquela, não sei ainda hoje como isto me aconteceu, acordou rebelde e fugiu de casa. Juro-te que não lhe dei licença. Por isso este embaraço. No nosso contexto, no tempo verbal que se nos apresentava, nem faria nenhum sentido, esgotado há muito o vocabulário. Depreendo portanto que estava escondida algures num canto escuro do peito, esperando a sua oportunidade, a puta. A palavra apareceu-me na boca sem que a convocasse e quando dei por ela, já era tarde. Senti-a a desenrolar-se debaixo da língua, confesso, a materializar-se em arrependimento à velocidade do som, mas foi mais rápida do que a sombra. Estava dita e já estavas tu a corrigir-me. Eu, que lhe sou alheia, que nem sei de onde veio, ouvi e calei. Esclareceram-se logo ali as esperanças que nem sabia ter, determinada a extensão do nosso futuro como quem enterra uma faca. Nós não temos uma relação. Ponto.

Who are you when you are not with me? A brief inquiry into online relationships.

Perguntou-me o que era isso da anti-biblioteca e argumentei-o desastradamente. Poder-se-ia dizer que é o que não lemos ainda, tão perto do que não sabemos, que nos mantém acordados, despertos para as tantas possibilidades do porvir. É o que não sei que me intriga, e por isso me prende e que não me deixa parar. Do mesmo modo, o que não sei sobre ti, quem és quando não estás comigo.

É absurdo que se julgue alguém.

Dizem que o recluso mais velho do País tem 90 anos. Que tem uma filha que se suicidou, vítima de violência doméstica. Que disse ao genro que o ia matar. Que, mais tarde nesse dia, sentou-se durante duas horas à espera que o genro chegasse. Que, quando o genro chegou, não proferiu uma palavra, apontou e disparou-lhe ao peito, matando-o. Que sentou-se novamente à espera.

Escreve como se não escrevesses.

Isto: “Enquanto o não fizer posso sempre acreditar que se o fizer o faço bem. (...) Mas se começar um livro a sério e parir merda que desculpa me fica?”

António Lobo Antunes, Memória de Elefante

Cruzou os braços e não disse uma palavra.

Madalena, nunca confundas uma pessoa desinteressante com uma pessoa desinteressada.

Nesta época estranha a inteligência parece estúpida e a estupidez inteligente, e torna-se salutar desconfiar de ambas por questão de prudência.

Estão mais indignados que se tenham feito filmagens ilegais do que com o conteúdo das filmagens, os estúpidos.

Alta definição ou Esta música não me acende.

Pessoas que dizem “sôtora”. Não ficaria melhor, sei lá, dizerem apenas “Doutora”?

Is it fast enough so we can fly away?


If someone believed me, they would be as in love with you as I am.

Nunca ninguém me falou assim. Nunca conheci ninguém assim. Bem sei desse mito paradoxo de sermos todos únicos, o óbvio de nunca lhe ter conhecido peso e medida equivalente se acaso são as nossas diferenças que nos compõem os verbos de ser e o estar. Porém, ela não é diferente, é singular. Não se parece a ninguém, não parte de nenhum molde, os seus pensamentos são só seus. Tudo nela é concreto e pensante, da mesma matéria da terra e a mesma leveza do céu, o peito que tanto lhe é lugar de firmar famílias e povoações como de abraçar ninhos de aves felizes. Nunca conheci quem escrevesse assim, a puxar-me como puxam as ondas, palavras de faca a cortar o fogo, naturais como a sua sede. Palavras que são mãos abertas, palavras de dar tesão, que são silêncio e grito. Nunca conheci quem pensasse assim, quem cria ideias como quem cria galinhas, desafia pressupostos e teorias e ainda abunda na empatia do outro, a compreensão tão mais necessária do que o julgamento. Nunca conheci quem fosse assim, diamante bruto e raro e cru e puro, ao ponto de até mesmo os defeitos lhe assentarem bem. Há nela um sentido prático que dispensa o acessório do mesmo modo que a certas comunhões dispensam o circo fácil de uma audiência. Vive por princípios e tudo nela é seguro e certo, até a tristeza. Nunca conheci (a) quem amasse assim. Quem fosse tão livre e tão simples no gesto e no afecto, quem estimasse tão bem os sentimentos e os soubesse respeitar tão bem, dignificar-lhes tempo e espaço. Nunca conheci quem olhasse assim, a quem coubesse o mundo todo na imensidão dos olhos, aquele olhar límpido de ver tudo, cheio de magia e de verdade.

Quem te conhecesse, amar-te-ia. Quem me conhecesse, seria tão vaidosa de ti quanto eu. Quando me perguntam, justifico que nunca conheci ninguém assim. Nunca farão ideia.

Sobre ti, como nos poemas, tudo é exagero e tudo é pouco. Desde que te conheci que escrevo para ti e sei cada vez pior escrever sobre ti. Por estas alturas, já me bastaria o abraço, o teu. Porém, se acontecer que te deites a balanços, como costuma acontecer mais tarde ou mais cedo nas efemérides do tempo, que gostes do que vês como eu gosto do que até aqui vi(vi). Sorrio no teu caminho e na mulher que és e que te fazes, cada vez mais bonita, menina-senhora, minha gata, minha bambi, meu amor, minha happybird. Do caraças.

Sou ainda aquela que na serendipidade de um qualquer dia entrou no comboio da tua vida e ali quis construir uma casa. É daqueles sítios que sabe bem estar. Sento-me num canto junto à janela e observo passageiros que entram e saem, uns apressados, descem já na próxima paragem, outros distraídos e que adormecem por ali, outros que se sentam perto e que me olham com a cumplicidade do bom gosto e decisões certas. Por vezes, entusiasma-se. Há tantos caminhos, lembro. Reparo-lhe as inconstâncias, os atrasos, os ocasionais e inevitáveis solavancos da viagem. Não irei ainda a lugar nenhum. Por este comboio fora, quero olhar para ti e quero olhar por ti. Sou feliz por ter subido naquela estação de Oslo. Não sei onde me levas, sei que quero ficar.

Os meus melhores desejos.

Que la vida te sea llevadera.
Que la culpa no ahogue la esperanza.
Que no te rindas nunca.
Que el camino que tomes sea siempre elegido
entre dos por lo menos.
Que te importe la vida tanto como tú a ella.
Que no te atrape el vicio
de prolongar las despedidas.
Que el peso de la tierra sea leve
sobre tus pobres huesos.
Que tu recuerdo ponga lágrimas en los ojos
de quien nunca te dijo que te amaba.

Amalia Bautista

Como uma onda para a praia na tua direcção vai o meu corpo.

Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio.

António Lobo Antunes, memória de elefante 

(surpreendeste-te quando disse que não conseguiria estar com alguém que não falasse Português, mas como é que eu poderia mostrar isto e isto fazer sentido, incendiar tudo?)

Venho aqui para me fazer festas.

A vossa voz melosa e desabituada numa bebedeira de sono. A tua, quando não dormes e o riso vem fácil e desprotegido, mares pacientes que te desaguam para dentro do peito e só me apetece guardar-te. E a dela, tão pequena e tão perfeita, quando acaba de acordar, olhos de azeitona que me olham como se tudo fosse novo, porque tudo é, de facto, novo. E sorri, sorri tanto e num súbito é só carinho, um lento carinho de festas, beijos e abraços. Os seus dedos que hão-de agarrar o mundo, pousados no meu rosto. O sentido do toque feito sentimento do toque como quem decifra o amor pelas mãos.

Se calhar é isto a vida Ou a ternura de que me envergonho e o afecto que me apavora.

Do primeiro dia do ano, é isto que guardo: aquele momento em que, fitando a imensidão da noite, se deparou num repente com luzes que explodiam no céu que nem magia e soltou um comovedor miado miudinho,“ahhh!”. A tua alegria e o teu espanto precisam de tão pouco, Madalena, e eu preciso tanto de aprender contigo a olhar assim a vida pela primeira vez, Madalena.

E eu não sou de largar, mas já não te prendo.



(as músicas perfeitas são tristes. e eu nem sei existir.)

É que nem um abraço.

O sexo prende. Até os cães sabem disso.

Vai desejar o serviço de abertura de cama?

Há quem coleccione selos e tenha listas de coisas a fazer antes de morrer. Eu tenho uma lista de hotéis.

Between always and never.

Talvez seja esse o verdadeiro sinal da idade adulta: reconhecer (e temer) a mortalidade dos nossos pais.

Dos coletes amarelos: a maior concentração alguma vez vista (no Facebook).

Queixamo-nos, mandamos vir, montamos um pequeno circo, não lá voltaremos a meter os pés. Mas escrever no livro de reclamações? Votar? Isso já dá muito trabalho.

Dos coletes amarelos: quando queres brincar aos anarquistas mas os teus amigos já foram todos para a terrinha.

Lições aprendidas: nunca marcar revoluções para as sete da manhã. Sobretudo se for dia de trabalho.

Dos coletes amarelos: vai ser bom, não foi?

Portugal pode envergonhar-nos até numa revolução. Conseguiríamos hoje voltar a fazer um 25 de Abril?