Consente-me (que comente).

A felicidade é (uma) fácil: se te deres toda à felicidade, ela dá-se prontamente também toda a ti.

Easy now, Bandini.

Do cansaço que não me canso.

É no colo do seu riso incontrolável, em alta definição, que encontro sempre a versão preferida de mim.

I miss you like an idiot misses the point.

Quando acordámos, eu ainda era a mesma. Só a realidade se alterara toda, um pormenor que não daria para disfarçar por mais que quisessemos. O despertador volta a tocar, o pequeno-almoço é corrido e incompleto. A luz é outra e há um frio diferente na rua. Ninguém me pergunta onde vou, mesmo que só vá à casa-de-banho. Dizem-te dois ou três nomes mas ninguém acertará no meu. O dia guarda-nos pressas que não temos, encontros que escusavamos, mais de tantos minutos vazios e perguntas desnecessárias para todos os pressupostos do futuro, o único conhecido. Em matéria do coração, talvez nunca venhas a saber mais do que eu, agora.

Quando acordámos, estava já numa casa que não era a minha. E perguntava-me como pode o tempo relativizar a felicidade mas como não consegue a felicidade relativizar o tempo.

A vida é toda uma experiência social.

A realidade é muito mais do que aquilo que vês, muito mais do que aquilo que tocas. Faz-se de todas as tuas acções e decisões mas igualmente de todas as tuas omissões e hesitações. Não apenas o que fazes acontecer, não apenas o que não fazes acontecer, mas também tudo o que deixas acontecer. A realidade molda-se em todos os momentos em que intervéns e todos aqueles em que calas, nas posições que defendes mas também nas que consentes. Um silêncio pactuante consegue ser tão criminoso como aquilo que se vocifera de punho cerrado. Um herói pode ser acidental mas a cobardia é sempre deliberada, a culpa sempre voluntária. Quando olhares para o lado e fingires que não é contigo, lembra-te disto: na realidade, não existem inacções.

O homem que tem medo de morrer está sempre a morrer.

Goste-se ou não de Marinho e Pinto, a verdade é que diz coisas que vale a pena ouvir.

Ninety percent of ethics is picking the right ethicist.

All train compartments smell vaguely of shit. It gets so you don't mind it. That's the worst thing that I can confess. You know how long it took me to get there? A long time. When you die you're going to regret the things you don't do. You think you're queer? I'm going to tell you something: we're all queer. You think you're a thief? So what? You get befuddled by a middle-class morality? Get shut of it. Shut it out. You cheated on your wife? You did it, live with it. You fuck little girls, so be it. There's an absolute morality? Maybe. And then what? If you think there is, then go ahead, be that thing. Bad people go to hell? I don't think so. If you think that, act that way. A hell exists on earth? Yes. I won't live in it. That's me.

David Mamet, via O Malparado

Sabe bem voltar-te a ver.

há instantes em que poderíamos acreditar em tudo, até no impossível. há certezas que nos afundam em precipícios e há incertezas que nos resgatam e guiam os passos de cada regresso. há razões no meu querer, o mesmo que me toa qualquer razão. há utopias que nasceram para serem apenas perfeitas e histórias que se fizeram para um dia serem lembradas com o tempo e a ternura da saudade. há dores que nos prendem e abrigam  hesitações e há sorrisos desequilibrados em olhares capazes de nos equilibrar o universo inteiro. há gestos que são palavras que saem seguras de uma boca calada, filhas que nos confirmam em outras pessoas nalgum lugar longínquo, e há canções que nos lêem e nos dizem e nos abraçam. há dias em que duvido da eternidade que apregoam mas defenderia com todas as falhas a hipótese do amor, a liberdade que não se troca porque só se ganha. Há manhãs em que não sei dizer nada porque já não consigo conter mais a vida neste peito pequeno, os caminhos tantos. há pessoas que são feitas de sonho e vontade, sentimentos ao alto mas pés no chão, arriscar pouco para errar pouco. e há instantes como este, em que poderíamos acreditar em tudo, até na paz dum engano que se escutasse em acústico, em directo e sem outras versões. este instante em que poderia acreditar que a realidade era isto, este instante. quando era possível acreditar em tudo, até na realidade.

Can anyone who has heard this music, I mean truly heard it, really be a bad person?



25.

Hoje descobri-te mais de mil vezes durante a noite.

Não diz "destapar" mas "descobrir", não "namorar com" mas "namorar para". No Norte, a língua Portuguesa enche a boca toda, é mais sincera, mais bonita, mais completa.

Alta definição ou Esta música não me acende

Não gosto de "escrita inteligente". Isso e "escrita criativa".

Have you realised how many things I can take away from you?

Educava-o através do poder. Ele era quem tinha o poder de dar e o poder de tirar e não hesitaria em repeti-lo à menor desobediência. Negociava a educação através de deves e haveres, fazendo clara distinção entre o lugar de um e de outro. Mais tarde, aquele homem haveria de questionar-se, em surpresa, como foi que o filho se tornou um tirano.

Cada um recebe aquilo que consegue aguentar.

Escrevi um texto longo sobre o quanto é longe voltar atrás, sobre não podermos julgar o passado à luz do que sabemos hoje, como me ensinaste, e sobre os momentos de fragilidade em que nos permitimos brevemente ser humanos. Era um texto repleto aqui e ali de coisas profundas, e de hesitações e admirações que ainda poderíamos ou não ir a tempo de entender. Depois apaguei tudo. O lugar da intimidade não é aqui, tu estás-te a cagar para a admiração dos outros e, há muito que deixámos de consentir entre nós qualquer sentimentalismo que não se pudesse dizer num silêncio ou num olhar.

Foste tu quem disse que cada um recebe aquilo que consegue aguentar, não esqueço. Mas há dias. Regresso por isso ao início, onde é ainda possível encontrar o essencial intacto, o puro que perdura. Por ser essencial, persiste intacto. Por estar intacto, existe para ti. Sempre que o caminho não te ampare, sempre que te desvies ou percas, que saibas que há algo essencial, intacto, aqui. 

Deep down your words have changed my mode.


(and my mood)

Permite-me o uso do tempo presente.

O amor não é uma profissão
apresentável ou inapresentável

o sexo não é um dentista
que enche a contento inchaços e cavidades

tu não és o meu médico
tu não és a minha cura,

ninguém tem esse
poder, és apenas uma companhia para a viagem

Desiste da preocupação clínica,
tão abotoada e atenta,

permite-te um pouco de raiva
e permite-me um pouco de raiva

uma raiva que não precisa da tua
aprovação nem da tua surpresa

que não precisa de ser legalizada
que não é um antídoto contra uma doença 

mas contra ti,
que não precisa que a entendam

ou lavem ou caustiquem,
mas que precisa em vez disso

de falar uma e outra vez em voz alta.
Permite-me o uso do tempo presente. 

[«Is/Not» (1974), de Margaret Atwood, versão PM]

Isto devia apanhar-se com uma doença.

Coincidência? .|.

Não que tivesse desistido mas o corpo cansava-a, tempo passara, a vida já estava toda arranjada, e ela resignou-se a aceitar o mistério, porque já não lhe sobrava mais que pudesse fazer. Sempre que lhe perguntavam pelo neto, ela já não chorava, já não se perdia em pensamentos e impossibilidades, já não imaginava histórias e explicações. Baixava a cabeça e respondia que "não", não havia neto. 

Quando, já nos seus 97 anos, aquele desconhecido lhe apareceu à frente, ela não poderia imaginar que era um neto seu, o tão procurado. Ele, de coração na boca, não o poderia revelar ainda, há um tempo que é preciso recuperar aos poucos, acalmar a alegria de descobrir finalmente alguém, a sua avó. Falaram-se como boas pessoas, são a partir daquele dia um pouco mais completos. Continuam lúcidos das voltas do mundo, perdendo-se e regressando nele, sorridentes de sempre chegarmos aonde nos esperam.

Não crie expectativas, crie gado: pelo menos dá dinheiro.

És responsável pelo que dizes e não pelo que os outros entendem, pelo que fazes e não pelo que os outros sentem, pelo que dás e não tanto pelo que recebes. Não podes controlar o que não te pertence. A tua responsabilidade é aproveitares a travessia, não te distraíres da felicidade, perseguires o que te faz livre e viva. As expectativas dos outros são responsabilidade dos outros.

Somos um País de cidadãos não-praticantes I

Não são os políticos que fazem um País mas é um País quem faz os seus políticos.

Somos um País de cidadãos não-praticantes.

Preferíamos o intelectualismo vazio, mesmo aquele que não entendêssemos, ao coloquialismo de café, mesmo que tenha mais textura e gosto. Eleitos pelo povo e para o povo mas, dentre o povo, isso é que não, valha-nos deus!

Não aceitaríamos a boçalidade de um agricultor, o jeito tosco de um pedreiro ou o discurso bacoco de uma doméstica. São todos muito precisos e valiosos, sim senhora, tudo certo, mas também não era caso para pensarmos agora que nos poderiam representar. Estimamo-los muito, com certeza, mas não são para ser exibidos, há que respeitar o lugar de cada um, como veio nas notícias no outro dia sobre o hospital que escondeu o empregado aleijado quando o cortejo oficial das pessoas importantes lá foram. É do conhecimento geral, bom senso até, o facto de haver roupa destinada a andar por casa e a outra que é roupa de sair ao Domingo.

Precisamos muito de alguém que seja melhor do que nós, que tenha estudado, que saiba falar bem, falar estrangeiro até, que seja de bom trato e de bom nome, que não tenha os nossos vícios sujos, desconhecedor de putas - perdão, prostitutas - e vinho verde. Precisamos muito de alguém a quem chamar sr. doutor e sr. engenheiro. O que seria deste País sem os nossos doutores e engenheiros, o que seria de nós se nada nos distinguisse as categorias sociais? Nós sem um amo para servir e de repente todos iguais, onde é que já se viu.

Para os Portugueses, o parlamento não é, por isso, um lugar onde se vejam representados mas é, sim, o lugar onde se vêem elevados. Aquele não é o lugar do povo, que não é sequer digno de aspirar a tanto, mas dos eleitos, os que passaram em todos os testes e preencheram todos os requisitos. Ali, os nossos melhores, os mais perfeitos dentre todos nós, os sacanas duns sortudos a mamar do nosso dinheiro, todos de volta do tacho, todos ladrões e palhaços, aqueles cabrões que foram mais espertos do que nós.

Para os Portugueses, muitos desconhecedores até aqui do nome do ministro da economia, aquele discurso de Pires de Lima foi um triste espectáculo, nós a pagar para aquilo. A lamentar, porque nem todas as verdades são para dizer em voz alta, assim a interromper a serenidade das sessões plenárias que os Portugueses sempre vêem com tanta atenção, encantados da eloquência que por lá jorra.

Porque para nós, Portugueses, a política é coisa só para os políticos, só para quem está à altura, não é para nós, e já vão com sorte se formos votar, nós que temos sempre tanta coisa mais importante para fazer. Que Pires de Lima tivesse descido ao nível do povo, ignorando o seu papel imaculado e iluminado de político, usando palavras como "taxinhas" ou fazendo comparações a ketchup e aos ataques do Cristiano Ronaldo, era por isso inadmissível. Toda a gente sabe que os políticos só podem ser do povo quando em campanha eleitorial.

The things that you do.

Tu rias e caías uma e outra vez à espera de acreditares apenas no que fosse mais imediato.

Brincávamos a cair nos
braços um do outro, como faziam
as atrizes nos filmes com o Marlon
Brando, e depois suspirávamos e ríamos
sem saber que habituávamos o coração à
dor. Queríamos o amor um pelo outro
sem hesitações, como se a desgraça nos
servisse bem e, a ver filmes, achávamos que
o peito era todo em movimento e não
sabíamos que a vida podia parar um
dia. Eu ainda te disse que me doíam os
braços e que, mesmo sendo o rapaz, o
cansaço chegava e instalava-se no meu
poço de medo. Tu rias e caías uma e outra
vez à espera de acreditares apenas no que
fosse mais imediato, quando os filmes acabavam,
quando percebíamos que o mundo era
feito de distância e tanto tempo vazio, tu
ficavas muito feminina e abandonada e eu
sofria mais ainda com isso. Estavas tão
diferente de mim como se já tivesses
partido e eu fosse apenas um local esquecido
sem significado maior no teu caminho.

valter hugo mãe

Se calhar também poderia escrever previsões astrológicas.

A maioria do que escrevo é ambíguo ao ponto de ser suficientemente abrangente e haverá certamente quem ache que isto, de alguma maneira, lhe assenta e que eu, afinal, até sei o que digo.

The house always wins.

Confia que é possível vencer as probabilidades mas não te deixes levar pela sorte, coisa de principiantes. O jogador profissional sabe que o lucro é sempre da casa.