Um bocadinho I

Estava a tratar do pequeno-almoço e lembrei-me, assim, como se fosse uma nota importante. A hora do pequeno-almoço, sendo manhã, é uma hora tão perigosa como qualquer outra. Talvez seja da insistência delas, que eu digo lixo meu, e elas entendem orgulho. Há uma distância intransponível entre duas pessoas e uma mesma palavra, recorda. Mas a verdade era essa que me ocorreu ao pequeno-almoço - já o fiz. Parece que falta o filho nessa contabilidade fácil e já comum. Não que me tenha sido menor, breve, inútil, não era isso, era o propósito, era tê-lo feito e, no primeiro momento em que pousei a caneta, ele deixar de ser meu.

Terá trinta, cinquenta, setenta páginas, não lembro, manuscritas numa Mitsubishi Uniball UB-150 Eye Fine preta, a favorita, e numa letra demasiado pequena mas que foi cuidadosamente trabalhada para ser legível. A história és só tu, as tuas personagens, enredos e mistérios, as músicas que eu fazia tuas, nem preciso de o reler para saber que "nunca me esqueci de ti" também. Não mais ninguém te poderia dar algo assim, o tempo todo metido ali, aprisionado para sempre, teu para sempre e para que fizesses dele o que querias. Se tu quiseres, mudas-lhe o final agora. Ou então não, que já nessa altura todas as minhas histórias, as pessoais acima de todas, eram inacabadas e sem final.

Ali já ninguém te toca, não chegam lágrimas, silêncios, dúvidas, está, se bem me lembro, só o melhor teu. Não é preciso uma visão larga para saber que eu só via o melhor teu, as entrelinhas a denunciar as linhas. Hoje sei que o nome não era aquele que eu usava, há coisas que só sabemos no depois. Leste tudo de uma vez, era madrugada e choraste de comoção e de vergonha, acho. Disseste que os teus filhos saberiam o meu nome, pois que nós nunca nos iríamos separar.

Um dia o teu marido feliz e gordo - os casais felizes tendem a engordar, é um facto e a ti posso dizer-to sem pudor, prepara-te - vai dizer-te que aquilo é uma parvoíce, talvez sinta ainda os ciúmes porque o tempo que houve antes é sempre tempo demasiado para quem não esteve. Talvez se perca no sótão na casa dos teus pais e, amarelecido e velho, acabe num sítio escuro e frio. Há muita coisa a acontecer até lá, é certo.

Lembrei-me hoje disto, podia ser pior. Talvez esteja já tudo feito e tenha sido aí a hora em que me prolonguei. Não sei se vou ter filhos.

Há dois - já três? - meses que não te vejo e ando a precisar mesmo de ti, porque tu sabes tudo. Se te descrevesse podia dizer que tu és aquela que sabe tudo, mesmo que muita coisa te passe agora ao lado, coisas da geografia. Também é por causa desta lembrança súbita, não se descure isso, mas vê bem que até ando cheia de vontade de te abraçar, nós, que não somos de abraços.

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